quinta-feira, 3 de julho de 2014

Pensamento do Dia










"É o coração que faz o carácter."

Eça de Queirós

Opinião - "O Grande Gatsby", F. Scott Fitzgerald


 

Sinopse:

“Considerado a obra-prima de F. Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby tornou-se não só um clássico da literatura do século XX, como o retrato mais expressivo da «idade do jazz», em todo o seu esplendor e decadência. Jay Gatsby é o herói que personifica o materialismo obsessivo e o desencanto do pós-Primeira Guerra Mundial. Esta edição de O Grande Gatsby foi traduzida e prefaciada por José Rodrigues Miguéis. Uma nova adaptação cinematográfica deste romance estreia em 2013, produzida e realizada por Baz Luhrmann e com Leonardo di Caprio no papel principal.”
 
 
 

Opinião:

“O Grande Gatsby” é apenas o segundo clássico que leio, e confesso que ainda não me rendi ao género, apesar de lhe reconhecer o devido valor e de continuar a tentar encontrar a magia neste género. Podiam perguntar-me: “Porque continuas a tentar?” Primeiro porque é, como disse, apenas o segundo que leio. E segundo, porque consigo levar sempre algo comigo de cada um.
 
Este é aquele tipo de clássico a que ninguém conseguirá ficar indiferente. E isto aplica-se quer a quem lê o livro, quer a quem vê o filme, uma vez que o filme é bastante fiel à obra que lhe deu origem. No entanto, acho que o filme ganhou neste caso ao livro, no que diz respeito à transmissão dos sentimentos. Lembro-me como se fosse hoje de sair frustrada da sala de cinema.
 
O filme começava, se bem me lembro, com Nick Carraway a dizer: “Gatsby era o homem mais esperançoso que conheci”. E, apesar de isto não estar explícito no livro, a verdade é que traduz em muito esta bela história.
 
“O Grande Gatsby” retrata não só a história de amor de Jay Gatsby e Daisy, mas também a sociedade daquele tempo que, infelizmente, se virmos bem, não é muito diferente da actual. E é com este retrato que conseguimos ver, entender e sentir o verdadeiro significado da palavra “esperança”.
 
Gatsby é um homem de extravagâncias. No entanto, com elas apenas tem um objectivo: atrair/reencontrar Daisy, um antigo amor. Ao mostrar-lhe aquilo que conseguiu, este mantém a esperança que Daisy volte para ele. E com isto surgem logo várias críticas à sociedade: uma sociedade onde o dinheiro é valorizado acima de tudo e, pior do que isso, onde nascer rico tem mais valor do que enriquecer por mérito.
 
Esta obra não é das minhas favoritas, no entanto é, sem dúvida, uma das críticas à sociedade mais bem conseguidas que já li.


"Quando te sentires com vontade de criticar alguém, lembra-te disto: nem todos tiveram neste mundo as vantagens que tu tiveste."
 
Deixo aqui o trailer do filme para quem ainda não tiver visto.




quarta-feira, 2 de julho de 2014

Pensamento do Dia





"Não podemos imaginar que vivemos sem pensar que temos de morrer, dizia para consigo. Do mesmo modo, é impossível reflectir sobre o facto que temos de morrer sem sentirmos simultaneamente que viver é algo maravilhoso."

- Jostein Gaarder, O Mundo de Sofia

Opinião - "O Mundo de Sofia", Jostein Gaarder

Edição: 1991 (1ª), 2013 (31ª)
Páginas: 464
ISBN: 978-972-23-1949-2
Goodreads: mais informação aqui.
Sinopse

"O bestseller mundial, O Mundo de Sofia, é a prova de que Demócrito, Aristoteles, Kant, Espinosa, Freud e os outros são fabulosos personagens romanescos. Um thriller filosófico à boa maneira, com a vantagem de possuir uma elegante e inexcedível clareza. O Mundo de Sofia de Jostein Gaarder é um sucesso literário só comparável ao Nome da Rosa de Umberto Eco."


Opinião

Precisei de algum tempo para conseguir escrever esta crítica. Não é fácil abandonar O Mundo de Sofia e todas as reflexões a que nos obriga.

(A sinopse desta edição não diz verdadeiramente muito sobre o livro… Pelo que é imperativo falar um pouco da história antes de dar a minha opinião.)


Sofia é uma jovem de 14 anos (quase 15!) que vive numa pequena vila Norueguesa. Num dia como tantos outros, recebe duas cartas misteriosa com questões para as quais não tem resposta  - “Quem és tu?” e “De onde vem o mundo?” Este é o início de uma correspondência que vai levar Sofia a conhecer a Filosofia, desde o início dos tempos.
No entanto, as cartas filosóficas não são as únicas que aparecem na caixa de correio de Sofia; esta recebe também um postal que lhe é endereçado, mas cuja mensagem é para uma pessoa que não conhece e que, aparentemente, vive a uma grande distância. Quem é esta pessoa e como poderá Sofia encontrá-la?

Ao início, fiquei um pouco de pé atrás. O livro não era aquilo de que estava à espera (se bem que, verdade seja dita, não sei muito bem o que esperava). O curso de Filosofia por correspondência ocupa muita da leitura, e dei por mim a pensar se o livro seria apenas um manual de Filosofia em forma de romance. Por muito que tenha adorado aprender e pensar sobre as questões abordadas, isto não seria suficiente para construir um bom romance, na minha opinião!

A verdade é que o livro é mesmo um manual de Filosofia, mas vai muito para além de qualquer explicação ou lição das que foram dadas a Sofia.

Há um elemento que é introduzido quase nas entrelinhas, e que começa a mudar o rumo da história – o postal para Hilde Møller Knag. Esta parte da narrativa, que parece tão secundária, apenas mais uma questão sobre a qual filosofar, torna-se, na minha opinião, o combustível para o resto da história. É com grande expectativa que seguimos Sofia e somos, ao mesmo tempo que ela, assombrados por cada coincidência que nos leva invariavelmente até Hilde.

Sofia é uma rapariga madura, e pela sua voz e a da sua melhor amiga, Jorunn, Gaarder injecta na história uma ou outra crítica social que, passados 12 anos, ainda traz em si alguma verdade. É inteligente, seguindo as lições do seu professor de Filosofia atentamente, sem nunca perder a irreverência dos seus quase 15 anos. Há duas grandes questões a que Gaarder dá particular atenção durante todo o livro, tendo Sofia um papel importante na sua discussão: a destruição da Natureza em proveito do Homem e a igualdade entre os sexos. De um ponto de vista humano, senti um grande apego por esta personagem; sofri com os seus problemas e senti a sua revolta... 

Alberto, o professor, é para além disso um guia quase espiritual para a protagonista (e, consequentemente, para o leitor). Esta figura nunca chega a perder a sua aura de mistério, mesmo quando se revela.
Sobre Hilde, não vou falar. Foi mágico o momento de viragem da história, o da grande epifania, o da verdadeira revelação… Não quero retirar isso ao leitor.

Foi com grande surpresa que constatei que este livro não faz parte do Plano Nacional de Leitura. Se fosse professora de Filosofia (ou de Física, ou de Biologia, ou de Psicologia, ou de História, ou de Literatura, etc) recomendaria este livro a todos os meus alunos, por terem muito a ganhar no seu percurso de aprendizagem.
No entanto, mesmo quem já deixou a escola será surpreendido pela curiosidade que este livro instiga, por tudo o que ensina como quem não quer a coisa. Dei por mim a reflectir, tal como Sofia, no meu papel no mundo, nos meus objectivos e no meu conceito de moralidade.

Em suma, para além de um “manual” a transbordar de conhecimento, este livro encerra em si mistério e fantasia, viagens pelo tempo e espaço e pela nossa própria consciência, que expandem os nossos horizontes para além do que achamos possível.


"...o importante é que aquilo que tu perdes é inferior em relação ao que ganhas. Perdes-te quanto à forma que possuis de momento, mas ao mesmo tempo compreendes que na realidade és algo infinitamente maior. És todo o universo. És a alma do mundo, Sofia."





terça-feira, 1 de julho de 2014

Pensamento do Dia







Não chore. Saia, fuja desse silêncio. O domínio já é completo. O corpo e a mente entregam-se. Presos aos escuros recantos da palavra silêncio. As lágrimas deslizam solitárias pela face do eu. Volta.

Pablo Pereira, Do Caos - A Depressão em Fragmentos

Novas aquisições: Junho

Houve alturas em que dizíamos umas às outras frases como “Este mês não vou comprar livros!” ou “Só vou comprar livros quando ler todos os que tenho”. Bem, agora deixamos de perder tempo a iludirmo-nos e decidimos aceitar que há no universo forças maiores do que nós e que insistem em atirar livros para as nossas mãos! Sim, na verdade somos vítimas desse monstro chamado literatura! À custa disso as nossas estantes não param de crescer! Acham que é problemático? :)
 
Aqui ficam as nossas aquisições de Junho! Boas leituras se avizinham?
 

Opinião - "Do Caos - A Depressão em Fragmentos", Pablo Pereira

Sinopse

"Apoiou as mãos na pia. Olheiras e o reflexo. Número sete. Tarja preta. Respirou fundo. Não queria morrer, apenas acabar com a dor que parecia esmagar o peito. Angústia de dias. Solidão e lágrimas que não se desgrudavam e já eram convidadas sem qualquer educação. Olhou mais uma vez para o espelho. Vermelhos. Sem fim. Joelhos no chão. Dorso pendente. Piso claro molhado. Olhos fechados e a serenidade da escuridão.
O silêncio e um melódico ressonar embriagavam o apartamento. Apenas. Nada se mexia. Nem as plantas ousavam piscar os olhos. Porta aberta. E os gritos subitamente romperam o silêncio e pararam diante do ressonar. Pausa que durou a eternidade de todos os sóis. Lágrimas desesperadas tentavam mexer o corpo. Tentavam. Mais gritos. Respiração profunda e olhos arregalados. Mais uma vez a serenidade da escuridão. Pernas em movimento e nada se achava. As agendas haviam sumido, as canetas evaporado, a voz embargara. Enfim, à procura da salvação, do olhar dele, da palavra não dita."

Opinião

Não devemos julgar um livro pela capa, é certo. Mas, quando num fundo branco me saltaram à vista as palavras graficamente apelativas Do Caos, foi inevitável o desejo de abrir o livro. Portanto, confesso: escolhi o livro pela capa e quando o folheei e percebi que tinha uma estrutura pouco habitual fiquei ainda mais curiosa.  

Do caos- A Depressão em Fragmentos trata-se de um diário de alguém deprimido, onde nos são apresentados vários textos, ou fragmentos se preferirem, datados entre 2001 e 2004 e divididos em primeiro e segundo livro (honestamente não percebi a divisão nestas duas partes). Este relato deixa-me dividida. Se por um lado gostei da capacidade de por em palavras e de uma forma quase poética o desespero da depressão, por outro lado o caos de vocábulos, a fragmentação das ideias, a distorção das frases incompletas e a mistura de vozes tornou a leitura confusa. Porém, tenho de admitir que possa ter sido esse o propósito. Talvez o objectivo do escritor fosse levar a empatia ao extremo e fazer o leitor sentir o verdadeiro sofrimento de se estar preso dentro de si mesmo, onde não há saída e é impossível a fuga aos círculos viciosos da mente.

Somos, desde a primeira página, forçados a sentarmo-nos ao lado do autor que se encontra em constante conflito interior, entre o levantar-se e o deixar-se ficar caído, dividido entre a ânsia de querer mudar e a inércia da eterna sonolência. O cansaço da vida, a vontade do nada e o esvaziar dos sentimentos fazem-no refugiar-se na música e na escrita, mas sempre duvidando se vale a pena sequer escrever. Perdido na solidão de um copo de vinho, buscando a anestesia do mundo, sente frequentemente a morte como próxima e chega mesmo a desejar a sua companhia.

Por vezes uma voz de esperança pede-lhe que não chore, que acredite no amanhã. Voz interior? Voz de um amigo? Voz de um amor? Não consegui precisar. Talvez fosse a voz que ouvimos sempre que chegamos ao fundo do poço e a única alternativa é subir.

A meio do diário surgem três personagens: um poeta, Juan, um pintor, Santiago e uma bonita mulher, Isabelle. Gostei da ideia, mas não foi trabalhada, o que me deixou insatisfeita. De facto, o desenrolar de um romance paralelo tinha muito potencial. Mas foram apenas breves páginas de encontros e desencontros numa ordem cronológica pouco coerente entre as três enigmáticas figuras, que afinal não serviram para mais do que apaziguar a solidão do autor ou, talvez, fossem partes dele mesmo. 

O final do livro procura responder à pergunta: será que pode surgir vida depois do caos? Bem, não vou responder, pois o final como todo o livro é passível de ser interpretado de várias formas, significados infinitos poderão ser encontrados e provavelmente faltou-me estado de espírito para os procurar melhor, o que me poderá motivar a ler este diário novamente.

Um livro que vale a pena ler, pela estranheza que desperta, pela angústia que não poucas vezes salta das páginas para nos lembrar que já sentimos algo semelhante, ainda que na maioria das vezes em menor escala. Um livro que vale a pena ler por ser um relato de uma doença de que agora se fala de tanto e de que tão pouco se sabe falar.