domingo, 17 de agosto de 2014

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Pensamento do Dia






"O truque é não te importares. Não te importares com o facto de doer, não te importares com rigorosamente nada."


- Sally Green, in Half Bad - Entre o Bem e o Mal

Opinião - "Half Bad - Entre o Bem e o Mal", Sally Green


Edição: 2014
Páginas: 320
ISBN: 9789722352192
Goodreads: mais informação aqui.

Sinopse

"Na Inglaterra dos nossos dias, bruxos e humanos vivem aparentemente integrados. Na realidade, os bruxos têm a sua própria sociedade secreta, as suas regras e a sua guerra, que divide os Bruxos Brancos, considerados «bons», e os Bruxos Negros, odiados e perseguidos pelos Brancos. O herói, Nathan, é filho de uma Bruxa Branca e de um Bruxo Negro e, portanto, considerado perigoso. Nathan é constantemente vigiado pelo Conselho dos Bruxos Brancos desde que nasceu e aos 16 anos é encarcerado e treinado para matar. Mas Nathan sabe que tem de fugir antes de completar 17 anos e a sua determinação é inabalável."


Half Bad é o romance de estreia de Sally Green e o primeiro volume de uma nova trilogia do género fantástico aguardado por todo o mundo com grande expectativa.



 Opinião

À data da escrita desta opinião, ainda me encontro em choque, embora não tanto como quando acabei de ler o último capítulo deste livro e me apercebi que na página seguinte, em vez da continuação da história, vinham os Agradecimentos.

Este livro foi-me dado a conhecer há já algum tempo, e se nessa altura tivesse lido a sinopse oficial, não sei se teria ficado tao interessada. O que me despertou verdadeiramente a curiosidade foi um pequeno trecho do livro, que transcrevo na esperança de também vos cativar (e porque é simplesmente delicioso).

"Depois de o Arran nascer a mãe e o pai não queriam ter mais filhos. Deram o berço, o carrinho de bebé e todas as coisas de bebé. Este bebé não é desejado e tem de dormir em cima de uma fronha, dentro de uma gaveta, vestido com um pijama velho e sujo que era do Arran. Ninguém compra brinquedos nem presentes para este bebé, porque toda a gente sabe que ele não é desejado. Ninguém oferece presentes nem flores nem chocolates à mãe, porque todos sabem que ela não queria este bebé. Ninguém quer um bebé como este. A mãe só recebe um cartão de felicitações, mas não diz «Parabéns». 
Silêncio. 
–  Queres saber o que é que o cartão diz? 
Abano a cabeça afirmativamente. 
–  Diz: «Matao.»"

Nathan, o protagonista da obra, apresenta-se como prisioneiro disciplinado, à parte dos múltiplos planos para escapar à sua carcereira, que repetidamente falham, muito pela mestria e impiedade daquela. Nada mais sabemos sobre ela, ao início, e em boa verdade também navegamos no escuro em relação ao jovem, até que este se propõe a contar-nos a sua história.

Voltamos atrás no tempo com Nathan, que conta episódios da sua infância até chegar à situação em que se encontra.

O estilo de escrita é bastante bom, e a distribuição dos capítulos e subcapítulos é muito inteligente. Há uma alternância entre primeira e segunda pessoa, consoante Nathan salta entre presente e passado; no entanto, achei estas transições muito naturais, e em nada dificultaram a compreensão da narrativa. Quase nem damos por elas. No meio da narrativa, por vezes emocionalmente pesada, a autora consegue instilar humor, principalmente na forma de ironia e sarcasmo, o que me agrada bastante.

Quanto à história em si, achei absolutamente fantástica (só batida pelas próprias personagens). Pode, inicialmente, parecer a típica história dos bons contra os maus, da criança oprimida devido às suas origens que se revolta contra o sistema. E Nathan revolta-se – mas porque uma vida de abusos o leva a isso. Por outro lado, o ser considerado diferente e, como tal, inferior, pela maior parte da sociedade, não o torna no típico anti-herói que é incapaz de sentir empatia e busca apenas vingança.

O nosso protagonista demonstra-se por vezes impulsivo e até violento, com um inquestionável apego ao seu lado negro, que move muito do que faz; ainda assim, o seu sentido de moralidade nunca o abandona, e à medida que vemos Nathan crescer compreendemos que as circunstâncias horríveis com que teve de lidar moldaram a sua personalidade no sentido da justiça, e não do rancor e crueldade.

Dentro da família mais próxima de Nathan encontramos algumas das outras melhores personagens. A sua avozinha (que raramente é referida com outro nome que não o ternurento diminutivo) marcou-me pela sua incrível força e determinação, mesmo após ter perdido a filha e ser obrigada a criar quatro crianças, uma das quais vista pelos outros como uma praga. Mas a avozinha sempre amou os seus netos, nunca deixando que o Conselho dos Bruxos Brancos ditasse cegamente a vida de Nathan, apesar de sentir medo deles.

A irmã mais velha de Nathan, Jessica, mostra-se uma criatura do mais cruel que podemos imaginar, atormentando Nathan quando este é apenas uma criança. No entanto, se enquadrarmos Jessica no meio em que vive (e poderia dizer o mesmo acerca de muitas personagens), percebemos que a sua maldade aparentemente inata é um produto da intolerância e preconceito que caracterizam a maior parte dos Bruxos Brancos. Mas não há dúvida que Jessica ocupa um lugar especial no coração de Nathan – o reservado para os ódios de morte. Espero que Jessica continue a ser desenvolvida no próximo volume da série.

Como antítese desta irmã maléfica, temos Arran, apenas dois anos mais velho que Nathan. O amor fraternal que os une é simplesmente comovente. Arran não é uma personagem que nos entusiasme, pelo menos para mim, mas é impossível de ignorá-lo quando protege Nathan da injustiça que o rodeia e lhe serve de bússola moral.

Tentando não revelar demasiado, tenho de mencionar também Annalise, o amor proibido de Nathan. Devo confessar que a bela rapariga não me arrebatou como o fez àquele; Annalise é demasiado passiva, pelo menos até ao momento em que nos encontramos na narrativa. Espero ver desenvolvimentos na continuação da saga.

Poderia ainda falar de Ellen e Gabriel, personagens aparentemente secundárias mas que ganham uma enorme importância (especialmente o último) para o protagonista. Tanto um como o outro sofrem de algum tipo de discriminação, e acabam por criar uma ligação com Nathan. Finalmente, não posso deixar de mencionar Celia, a tutora de Nathan, a implacável carcereira, que se revelou uma das surpresas da história, ao provar que praticar actos maus é diferente de ser uma má pessoa.

Em relação ao mundo fantástico em que decorre a história, gostei da forma como foi naturalmente sendo revelado, sem haver necessidade de grandes explicações formais. Parece-me muito bem pensado e deveras interessante. A Cerimónia da Dádiva é um momento particularmente belo, mesmo que algo macabro.

Senti, ao ler o livro, uma grande empatia para com Nathan, mesmo nos seus piores momentos. O preconceito é um sentimento muito forte, que leva humanos (neste caso, Bruxos) a odiar outros humanos simplesmente pelo facto de existirem e serem diferentes, quando é esta diferença que nos caracteriza enquanto espécie. Através do extremo deste preconceito, a autora mostra-nos a tolerância, e de como é vital para nós. Se um grupo inteiro paga pelos pecados de alguns, então perdemos a compaixão e justiça que acompanham a nossa racionalidade, e passamos a ser um pouco menos humanos – tornamo-nos exactamente naquilo que nos causa repulsa. 



terça-feira, 12 de agosto de 2014

Pensamento do Dia



 "Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros, e que, para a maioria é só um dia a mais."

José Saramago, in O Homem Duplicado

Opinião - "O Homem Duplicado", José Saramago


Sinopse

“Tertuliano Máximo Afonso, professor de História, vive só, num bairro da cidade sem nome, só com a sua solidão. Um dia aluga um velho filme para ver em casa como repouso do cansaço que lhe deu a correcção dos trabalhos dos alunos. E acontece algo que lhe modificará a vida de solitário e pacato cidadão - um dos actores secundários do filme é exactamente igual a si próprio, é o seu duplo. Inquieto com a possibilidade de existir, eventualmente perto de si, na sua cidade, um outro que é ele próprio, lança-se numa investigação para encontrar esse outro, provocar um encontro, medir-se com ele. Com base neste ponto de partida, com uma intriga complexa conduzida com mão de mestre, José Saramago oferece-nos, com O Homem Duplicado, um dos seus mais belos romances.”

Opinião

Tenho de começar por dizer que Saramago é um dos meus escritores preferidos. Apesar de serem muitos os que desgostam da sua peculiar pontuação e demais estilo, a minha pessoa simplesmente adora! Delicia-me de igual forma a reacção que desperta: ou o adoram ou o odeiam, creio ter encontrado pouquíssimas pessoas que se ficassem pelo meio-termo.

É verdade que nos seus livros, e neste não foi excepção, dou comigo, frequentemente, a perder o fio à meada aquando da leitura de frases de meia página. Contudo não me importo nada de reler as vezes que for preciso, mas percebo que seja um aspecto que desmotive à leitura deste autor.

Para mim, as suas obras valem sempre a pena pela escrita sublime e pelos finais surpreendentes. Mas depois de ler o monstruosamente belo Ensaio Sobre a Cegueira, o enigmático O Conto da Ilha Desconhecida e As Intemitências da Morte tudo o que li posteriormente da sua bibliografia ficou aquém das expectativas, até que me deparei com O Homem Duplicado, que esteve muito perto da genialidade das obras supracitadas.

Saramago presenteia-nos sempre com narrativas estranhas, ora uma Península Ibérica que subitamente se vê à deriva, ora uma epidemia de cegueira branca, ora uma Morte que resolve fazer greve. O Homem Duplicado não foi excepção, a intriga é surreal. Ora vejamos, Tertuliano Máximo Afonso é um homem vulgar, professor de História, já perto dos quarenta anos, divorciado, com um percurso com mais fracassos que sucessos na balança da vida, como à maioria de nós sucede. Quando o professor decide alugar um filme, aconselhado por um colega de profissão, depara-se com uma impossibilidade: um dos actores secundários do filme é exactamente igual a si próprio. Ao descobrir que existe neste mundo um homem completamente igual ao que ele vê quando se olha no espelho embarca numa busca desenfreada, fazendo tudo que está ao seu alcance para encontrar o seu duplicado. O Senso Comum, que dialoga com uma certa animosidade piadética com Tertuliano, tenta dissuadi-lo de muitas das suas intenções, ou plantando dúvidas difíceis de serem esquecidas ou com perspicazes conselhos que Tertuliano, como um comum dos mortais, tão bem sabe ignorar.

A par da acção central conhecemos também a relação entre Máximo Afonso e Maria da Paz, relação muito genuína, na medida em que se aproxima das não poucas relações que por aí andam, onde uma das partes dá mais do que a outra, uma das partes ama mais do que a outra, e todavia à parte em falta falta-lhe sempre a coragem de pôr o ponto final, vacila sempre na hora de enfrentar o vazio no outro lado da cama. Façamos uma ressalva, pois podemo-nos equivocar e à parte em falta não lhe faltar amor mas coragem para enfrentar o medo de falhar.

É deveras difícil encontrar aspectos negativos no nosso Nobel da Literatura, porém tenho de referir um aspecto transversal em todos os seus livros que tive oportunidade de ler: as personagens, embora francamente distintas e com uma personalidade sempre muito própria e com uma natureza muito humana, para o bem e para o mal, têm um discurso que nem sempre se adequa à sua condição. São sempre demasiado eloquentes e muitas vezes somos espectadores de diálogos filosóficos como se todos os intervenientes falassem através da boca de Saramago com recurso ao seu riquíssimo léxico, figuras de estilo e demais semântica.

Outros pontos menos positivos em O Homem Duplicado: algumas decisões das personagens são passíveis de despertar uma certa estranheza, mas que são justificáveis pela própria estranheza da situação com que se deparam e um excesso de observações do narrador que às vezes extravasam a linha orientadora da narrativa e são um pouco despropositadas e fora de contexto. 

Em suma, O Homem Duplicado fez-me sorrir, pôs uma lagrimazinha à espreita do seu saco lacrimal, fez-me reflectir em questões tão corriqueiras como profundas e ao mesmo tempo fez-me não pensar em nada enquanto estava absorvida na aventura do protagonista. Que mais se pode pedir a um livro? 


Nota: O Homem Duplicado foi recentemente adaptado ao Cinema. Agora que acabei de ler o livro estou ainda mais curiosa! Aqui fica o trailer, para quem quiser dar uma espreitadela.



segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Pensamento do Dia






"Às vezes não nos esforçamos muito para procurar coisas que não acreditamos que possam acontecer."



James Dashner, in Maze Runner - Correr ou Morrer

Opinião - "Maze Runner – Correr Ou Morrer", James Dashner

Edição: 2012 (1ª - 2009)
Páginas: 397
ISBN: 9789722348508
Goodreads: mais informação aqui.


Sinopse

"Quando desperta, não sabe onde se encontra. Sabe que o seu nome é Thomas, mas é tudo. Quando aquela caixa metálica para, Thomas percebe então que se encontra num elevador e não tarda a descobrir que chegou a um lugar estranho e que o enche de pânico. Lá fora, uma pequena multidão de adolescentes como ele. Os rapazes puxam-no para fora e as suas vozes saúdam-no numa linguagem que lhe parece estranha. Dizem-lhe que aquele lugar se chama a Clareira e ensinam-lhe o que sabem a respeito daquele mundo. E existe o Labirinto, para além dos muros da Clareira... Mas acontece algo inesperado – a chegada da primeira e única rapariga, Teresa. E ela traz uma mensagem que mudará todas as regras do jogo."


Opinião

Maze Runner é uma obra que está agora a ganhar popularidade, devido ao filme homónimo baseado na obra que irá estrear em Setembro deste ano. O livro é publicitado como uma distopia ao gosto de fãs de Os Jogos da Fome, o que, juntamente com a sinopse que levanta apenas uma ponta do mistério e com meu gosto pessoal por este tipo de universos, foi o suficiente para me despertar a curiosidade. (Por acaso, penso que o estilo se aproxima mais da série Divergente, da qual também sou fã, ou da série Anders, menos conhecida mas também muito boa.)

Como tal, iniciei a leitura com grandes expectativas. Chegamos à Clareira com Thomas e apenas com aquilo que ele leva – o seu nome e o medo do desconhecido. Dei por mim presa à narrativa desde esse momento, pois a novidade do mundo que recebe Thomas é vasta e só é dada a conhecer ao leitor em pequenas porções. Fiquei surpreendida com o sistema organizado pelo grupo de rapazes adolescentes, que tiram o melhor partido do pouco que têm e conseguem manter a pequena comunidade, apesar de conscientes do seu estado de cativos. Porém, o autor consegue não fazer destes rapazes adultos em miniatura, e apesar das suas qualidades, têm também defeitos (próprios da idade, mas não só).

No entanto, passada esta primeira onda de entusiasmo, fui ficando ligeiramente desiludida, por duas razões: primeiro, o tipo de linguagem não é muito adequado a um público adulto; não me refiro ao calão inventado pelos Clareirenses (aliás, confesso que utilizei a palavra chancos em voz alta uma vez), nem à sua própria forma de falar (tratam-se, afinal, de adolescentes, e neste caso bem caracterizados). O que mais me incomodou foi a forma infantilizada como se traduziram alguns termos do original, como Gladers (os habitantes da Clareira) ou Grievers (os Magoadores, cujo nome me soava pior do que o seu aspecto monstruoso…) Compreendo que este é um livro dirigido a um público juvenil, mas não sei qual a expressão em inglês que levaria um tradutor a escrever “mariquinhas pé de salsa”. Enquanto o título se manteve, apropriadamente na minha opinião, o cargo de Runner foi também traduzido para Explorador, o que parece fazê-lo perder algum significado.

(Dentro da escrita, um aparte para o autor: por muito que esteja a ser pensado por adolescentes sem uma concepção total da realidade, não é lícito escrever que "As pessoas com problemas mentais eram capazes de tudo." Pensamentos como este perpetuam o estigma associado à doença mental, e penso ser um dever de todos apontar estes erros, mesmo que irreflectidos.)

Segundo, Thomas comporta-se no início como o Caloiro que é, tendo um pensamento cíclico e redundante: não me lembro, mas é familiar; tenho medo, mas vou; não conheço, mas quero. Fiquei com algum receio que a personagem não fosse bem desenvolvida durante o livro, e, sendo ele o protagonista, era um aspecto muito importante para mim, até para desenvolver empatia para com ele.  

Esta “profecia” acabou por não se concretizar, pois à medida que se vão sucedendo novos acontecimentos na Clareira e o enredo vai adensando, volta o entusiasmo dos primeiros capítulos, e Thomas vai revelando o seu carácter à medida que estabelece relações com os outros rapazes da Clareira. Ele revela-se, por fim, uma pessoa de princípios, altruísta e corajoso, conseguindo por fim ultrapassar alguns dos seus medos, bem como compreender melhor as suas emoções relativamente ao meio em que se encontra e aos outros.

A história encerra outras personagens também complexas, das quais destaco Chuck, o pequeno sidekick  de Thomas, que revela uma faceta da sua personalidade que não é aparente ao início, Alby e Newt, os ”líderes” do grupo de adolescentes, pela sua sensatez e instinto de protecção. Gostaria de conhecer melhor Teresa, mas julgo que com a continuação da série este desejo será concretizado.

A atmosfera de medo e claustrofobia (concedidos mais pelo próprio Labirinto e pelas circunstâncias que levam algumas pessoas à loucura, do pelos monstros que o habitam) são bem caracterizadas, e houve algumas instâncias em que me senti tão sem fôlego como Thomas estaria.

Dito isto, posso afirmar que gostei bastante da história, e pretendo continuar a ler a série (o volume seguinte, Provas de Fogo, já se encontra publicado pela Editorial Presença). A obra centra-se na procura de algo dentro de nós que nos permita chegar mais longe e prevalecer, ou, usando uma expressão que aprecio, fazer das tripas coração, usar o medo como propulsor para derrubar barreiras.



P.S. Não resisti a ir ver o trailer do filme mesmo antes de escrever esta crítica… Pareceu-me estar excelente visualmente, no que diz respeito ao Labirinto, e o casting também me parece bem (Kaya Scodelario tem um visual muito próximo do que imaginei para Teresa!)

A cena final do trailer foi aquela em que no livro Thomas me conquistou definitivamente…

Mas vejam por vocês mesmos, e digam o que acharam!