domingo, 23 de dezembro de 2018

Mensagem de Natal

Quase-conto de Natal

Devagarinho as ruas foram enchendo-se de luzes, enfeites deixaram-se tombar em pinheirinhos cujo propósito existencial é tão-somente nos trazerem à lembrança que a Magia existe, enrolamo-nos em quentinhos cachecóis e mantas enquanto viajamos com os heróis dos nossos livros, deliciosos aromas começaram a incendiar o nosso olfacto e, num passo apressado, corremos à procura de pedacinhos de Felicidade para deixar nas chaminés de quem mais amamos. É Natal! 

E sentados estavam à mesa de Natal os elementos de uma peculiar família. Tristeza, filha mais velha, hoje mais triste que o habitual, lamentava a desarrumação instalada na cozinha. Alegria, a filha do meio, aguardava ansiosamente a abertura dos presentes, levantando-se sempre que não conseguia conter a excitação e dançando, e rodopiando, criando uma corrente de apressado ar, vulgo vento, que ameaçava a cada segundo deitar ao chão tudo o que sobre a mesa se encontrava. Tal era a alegria da Alegria que o seu sorriso hasteado não se demovia ao ver Tristeza cabisbaixa. Esperança e Resiliência, gémeas, e as mais pequenas, brincavam alheias ao seu redor, ignoravam o calendário e era para elas mais um dia em que tudo era possível, como sempre é para todas as crianças. 

A Mãe Amor e o Pai Razão tentavam animar Tristeza, até que ela não mais pode aguentar as gotas carnudas que agora lhe embaciavam a visão. Porque choras Tristeza, perguntavam sem parar. E sem parar chorava a Tristeza, sem tempo das lágrimas secar. E entre soluços e fungadelas lá deixou escapar, Porque só triste sei eu ser! E hoje perguntei-me se poderia sonhar, só hoje por ser Natal, quem sabe até ser feliz, construir um novo mundo, assim pela raiz, isento de tudo o que me faz chorar, um mundo só para Amar, porém a Alegria me disse que sonhos desses não posso ter, pois assim feliz nunca hei-de ser

Queres tu então um mundo melhor, perguntou-lhe a Mãe Amor, com ar pensativo de quem procura solução. Tristeza anuiu com prontidão. É impossível, respondeu severamente o pai Razão. É arriscado, retorquiu o Avô Experiência. É ridículo, responderam em uníssono as tias Inveja e Preconceito, enquanto trocavam risinhos de escárnio. E novamente Tristeza deixou-se cair em si mesma, e chorou, agora baixinho como que conformada com a sua condição. 

Foi então que a Avó Compaixão apertou-a para junto de si, Chora então, tudo o que tens a chorar, sem tristeza jamais saberíamos porque sorrir, a tristeza muda o mundo, pois vê o que há a mudar, chora então tudo o que tens a chorar. Então poderei eu sonhar com um mundo melhor, Podes tentar, respondeu Esperança, E não desistir, acrescentou Resiliência, continuando ambas a brincar como se a sua intervenção não fosse para ser levada a sério, como se soubessem que nunca ninguém liga ao que as crianças dizem, nunca ninguém tenta ver o mundo da maneira que ele é: simples. Tristeza foi juntar-se a Esperança e a Resiliência, e juntas, debaixo das luzes frenéticas do pinheirinho, brincaram ao faz-de-conta, a um mundo melhor. 

Tomé Castro, in Natal em Palavras
 

As Bloguinhas desejam a todos os seus leitores um Natal repleto de doces surpresas, calorosos abraços e páginas imensas!!

Boas Viagens, 

Bloguinhas Paradise


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