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domingo, 6 de março de 2022

Opinião " A Viagem do Elefante", José Saramago

Sinopse

Podem ler a sinopse aqui.


Opinião

Saramago é o meu escritor português preferido, e é sempre com muitas expectativas que início a leitura de uma das suas obras. Mas também com uma certa melancolia, por saber que o seu legado não é infinito, e que a cada livro que leio, mais perto fico de ter lido todos os seus romances. 

A Viagem do Elefante, não se tornando um dos meus livros prediletos de Saramago, é uma leitura consistente, com uma mensagem clara: o importante é a viagem, o destino é o mesmo para todos, a morte.

Não há muito a contar sobre a narrativa, que se resume à viagem de um elefante de Lisboa até Viena, após o rei D. João III o ter oferecido ao Arquiduque Maximiliano da Áustria. Esta peculiar viagem aconteceu mesmo, todavia os detalhes históricos a esse respeito são escassos, e por isso Saramago conta-nos, à sua maneira deliciosa, o que poderia ter acontecido, apresentando-nos personagens e peripécias que nos entretêm, apesar do ritmo relativamente lento do livro e que pode não agradar a todos os leitores. 

Como sempre a escrita é exímia e de uma beleza e musicalidade que só encontro neste autor. 

 Obrigada à Porto Editora pela oferta de um exemplar para partilhar convosco a minha opinião.

domingo, 4 de outubro de 2020

Opinião " Todos os Nomes", José Saramago

Wook.pt - Todos os nomesSinopse


O protagonista é um homem de meia-idade, funcionário inferior do Arquivo do Registo Civil. Este funcionário cultiva a pequena mania de colecionar notícias de jornais e revistas sobre gente célebre. Um dia reconhece a falta, nas suas coleções, de informações exatas sobre o nascimento (data, naturalidade, nome dos pais, etc.) dessas pessoas. Dedica-se portanto a copiar os respetivos dados das fichas que se encontram no arquivo. Casualmente, a ficha de uma pessoa comum (uma mulher) mistura-se com outras que está copiando. O súbito contraste entre o que é conhecido e o que é desconhecido faz surgir nele a necessidade de conhecer a vida dessa mulher. Começa assim uma busca, a procura do outro.


Opinião


Há já algum tempo que não lia uma obra de um dos meus escritores preferidos, por isso, fui até às minhas estantes em busca de um título de José Saramago, e entre A Caverna e Todos os Nomes optei por este último. Não tendo alcançado um lugar de destaque nos meus preferidos do autor, Todos os Nomes foi uma leitura agradável, que não decepciona e não foge ao estilo a que o nosso Prémio Nobel nos habituou.

O protagonista, o Sr. José, é auxiliar de escrita na Conservatória Geral. Vive a paredes-meias com a Conservatória, estando, no entanto, proibido de usar a passagem directa. Este auxiliar de escrita, um vulgar, triste e solitário Zé, como tantos os há por aí, tem como hobbie colecionar recortes de gentes portuguesas famosas. Ocorre-lhe então que tem acesso privilegiado a algumas informações que não vêm nas revistas, e aventura-se durante a noite a procurar os verbetes dos famosos e a transcrever as informações para a sua sui generis coleção. Numa dessas aventuras nocturnas traz acidentalmente o verbete de uma desconhecida. E começa a sua demanda por essa mulher de quem tão pouco sabe e de quem tanto quer saber. O Sr. José troca assim a sua existência pacata, a sua quase inexistência, por uma aventura rocambolesca e com muitos becos sem saída e, aparentemente, destinada ao fracasso. Como demais acontece a todos nós, afinal o que é a Morte senão o derradeiro fracasso? Será o cumprir dos nossos objectivos o que verdadeiramente importa ou o caminho que fazemos até lá?

Este foi para mim um livro sobre a procura, sobre o sentido da vida, que culminou num final um tanto ou quanto nonsense, mas talvez propositadamente nonsense. Trouxe-me à memória O Conto da Ilha Desconhecida por também se debruçar na procura, quando tantas vezes as respostas estão em nós próprios.

Todos os Nomes tem um protagonista que podia ser qualquer um de nós, nas nossas buscas mesquinhas e solitárias, que nos ocupam o quotidiano e nos distraem das questões pesarosas e fundamentais: qual o sentido de tudo isto? Para onde caminhos?

Recomendo esta leitura, principalmente para os fãs de Saramago, pois talvez não seja a melhor obra para começarem com este autor, por ser um livro que se perde no seu sentido secundário, sendo mais um ensaio filosófico que um romance per se


Podem ler opiniões a livros de José Saramago, previamente publicadas no blogue, aqui.


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Novidades Porto Editora - Lars Kepler, José Saramago, Dorothy Koomson, Terry Goodkind e Alberto S. Santos

"O Porto das Almas", Lars Kepler


Sinopse:

"Jasmin é uma mulher soldado do exército sueco colocada no Kosovo que vive para o filho, Dante, cujo pai é um camarada de armas, um homem instável que tenta afogar os horrores da guerra em álcool e drogas. No Kosovo, Jasmin fica gravemente ferida e, durante a hospitalização, enquanto se encontra entre a vida e a morte, a sua alma parte para uma misteriosa e sobrelotada cidade portuária, um porto de almas, de onde os que morrem jamais regressarão. Mas Jasmin é forte e consegue escapar. Dois anos após a sua primeira experiência na cidade dos mortos, um acidente rodoviário obriga Jasmin, desta feita acompanhada pelo filho, a regressar: todavia, só ela é que consegue escapar ao porto das almas. O caso de Dante, que está à espera de uma operação, é muito mais grave, e Jasmin não pode abandoná-lo à mercê da cidade misteriosa: a sua única opção é voltar, uma vez mais, e lutar por quem ama, num jogo terrível de vida e morte no qual é provável que saia derrotada."

Tradução: Regina Valente
Nº Páginas: 392

Sobre o autor:

"Lars Kepler é o pseudónimo de uma dupla de escritores de sucesso na Suécia: Alexander Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndoril. O Hipnotista, primeiro volume da saga, alcançou um enorme sucesso internacional e foi adaptado ao cinema pela mão do realizador Lasse Hallström. Depois dos livros protagonizados pelo inspetor Joona Linna, chega-nos agora este thriller sobrenatural."



"Claraboia", José Saramago


"Claraboia foi o segundo romance que José Saramago escreveu, mas esteve perdido durante mais de 40 anos. Ao recuperá-lo o autor decidiu que o livro só deveria ser publicado após a sua morte. Editado em 2011, o livro regressa hoje às livrarias com a chancela Porto Editora."
 

Sinopse:

"Nas palavras do autor esta «é a história de um prédio com seis inquilinos sucessivamente envolvidos num enredo. Acho que o livro não está mal construído. Enfim, é um livro também ingénuo, mas que, tanto quanto me recordo, tem coisas que já têm que ver com o meu modo de ser». Claraboia, cuja redação José Saramago terminou a 5 de janeiro de 1953, foi assinado com o pseudónimo de «Honorato» e durante várias décadas não se soube da sua existência. Esteve recentemente em cena no Teatro A Barraca, numa adaptação de João Paulo Guerra e encenação de Maria do Céu Guerra. No próximo domingo, a 18 de junho, pelas 18:30, a Porto Editora e a Fundação José Saramago assinalam os 7 anos da morte de Saramago na Feira do Livro de Lisboa, numa sessão que contará com a atuação de Manuel Freire."

Nº Páginas: 328
Caligrafia da capa: Guilherme de Oliveira Martins

Sobre o autor:

"Autor de mais de 40 títulos, José Saramago nasceu em 1922, na aldeia de Azinhaga. Até 2010, ano da sua morte, a 18 de junho, em Lanzarote, José Saramago construiu uma obra incontornável na literatura portuguesa e universal, traduzida em todo o mundo. José Saramago recebeu o Prémio Camões em 1995 e o Prémio Nobel de Literatura em 1998."



"A Amiga", Dorothy Koomson


Sinopse:

"Quando o marido é promovido, Cece Solarin muda-se para Brighton com os três filhos, animada com a possibilidade de um recomeço. No entanto, o ambiente do bairro que a acolhe parece-lhe ansioso e os vizinhos sobressaltados. Cece descobre que, três semanas antes, Yvonne, uma das mães mais populares da zona, foi deixada às portas da morte, no pátio da escola dos filhos - a mesma onde se vê obrigada a inscrever os seus. No primeiro dia de aulas, Cece conhece três mães muito diferentes que parecem querer ajudá-la neste novo começo. Mas Maxie, Anaya e Hazel são também amigas de Yvonne, e a polícia desconfia que uma delas poderá estar envolvida no crime. Preocupada com a segurança dos filhos, Cece está decidida a descobrir a verdade..."


Tradução: Irene Ramalho
Nº Páginas: 496

Sobre a autora:

"Traduzida em 30 línguas e com mais de 2 milhões de livros vendidos em todo o mundo, Dorothy Koomson é hoje uma das maiores referências do romance feminino. Ao livro mais emblemático – A filha da minha melhor amiga – seguiram-se outros sucessos que a tornaram uma das autoras preferidas dos leitores portugueses."




"O Sangue da Virtude - Parte I", Terry Goodkind


Sinopse:

"Richard aceita o seu novo papel: um homem nascido com o dom e destinado a ser um feiticeiro guerreiro. Contudo, nas terras dos dois Mundos, nem todos encaram a magia com bons olhos. O Sangue da Virtude, uma seita formada por mercenários fanáticos, para quem a magia é o meio através do qual o Guardião influencia os homens, tem como missão enviar para o mundo dos mortos todos
os seres mágicos. A destruição da Grande Barreira tem consequências que nem um seeker poderia prever – a Ordem Imperial, o governo do Velho Mundo, avança com os seus exércitos para conquistar o Novo Mundo. A única opção de Richard para deter a invasão é reivindicar a sua herança, unindo todos os reinos sob uma só lei – um pacto entre a magia e o aço – e uma só autoridade – a do único homem que, nascido para a verdade, foi tocado pela morte e cuja ira, libertada, pode finalmente trazer o equilíbrio aos Mundos."

Tradução: José Remelhe
Nº Páginas: 376

Sobre o autor:

"Terry Goodkind nasceu em 1948 em Omaha, no Nebrasca. Em 1994 publicou o primeiro livro da série de fantasia épica A Espada da Verdade, que viria a ter um sucesso retumbante, com mais de 26 milhões de exemplares vendidos e traduções em mais de 20 línguas."
 


"A Arte de Caçar Destinos", Alberto S. Santos


Sinopse:

"Sete inquietantes histórias inspiradas no imaginário da tradição portuguesa. O sete significa a perfeição e a abertura ao desconhecido. Os olhos de Deus e as cabeças do Diabo. É este o místico número de histórias narradas em A Arte de Caçar Destinos, onde vidas normais são perturbadas pelo inexplicável e sobrenatural. Alberto S. Santos capta neste livro a essência da alma portuguesa que se preserva na tradição oral, nas festas dos ciclos agrários, nas práticas mágico- religiosas, onde o sagrado e o profano se unem para a salvação das almas. Entre de mansinho neste sedutor jogo de sombras, maldições ancestrais, poções mágicas, vidas interrompidas e caçadores de fados, e descubra o seu próprio destino. Nem sempre a vida é o que parece. Nem sempre está completamente nas nossas mãos."

Nº Páginas: 288

Sobre o autor:

"Alberto S. Santos é formado em Direito pela Universidade Católica Portuguesa. É natural de Paço de Sousa, Penafiel, onde reside. Publicou os romances bestsellers A Escrava de Córdova (2008), A Profecia de Istambul (2010), O Segredo de Compostela (2013) e Para lá de Bagdad (2016). É autor desta coletânea de histórias A Arte de Caçar Destinos (2017) e participa ainda na série de contos de autores lusófonos Roça Língua (2014)."



 Para mais informações, consulte o site da Porto Editora aqui.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Pensamento do Dia







"... Com o tempo o seu desgosto há-de passar, é verdade, com o tempo tudo passa, mas há casos em que o tempo se demora a dar tempo para que a dor se canse, e casos houve e haverá, felizmente mais raros, em que nem a dor se cansou nem o tempo passou."

José Saramago, O Homem Duplicado

Opinião “O Homem Duplicado”, José Saramago

Sinopse:

“Tertuliano Máximo Afonso, professor de História no ensino secundário, «vive só e aborrece-se», «esteve casado e não se lembra do que o levou ao matrimónio, divorciou-se e agora não quer nem lembrar-se dos motivos por que se separou», à cadeira de História «vê-a ele desde há muito tempo como uma fadiga sem sentido e um começo sem fim».

Uma noite, em casa, ao rever um filme na televisão, «levantou-se da cadeira, ajoelhou-se diante do televisor, a cara tão perto do ecrã quanto lhe permitia a visão, Sou eu, disse, e outra vez sentiu que se lhe eriçavam os pêlos do corpo»...

Depois desta inesperada descoberta, de um homem exactamente igual a si, Tertuliano Máximo Afonso, o que vive só e se aborrece, parte à descoberta desse outro homem. A empolgante história dessa busca, as surpreendentes circunstâncias do encontro, o seu dramático desfecho, constituem o corpo deste novo romance de José Saramago.”


Opinião:

É sabido que não sou a maior fã assumida de clássicos e muito menos de José Saramago. No entanto, como já devem ter reparado ando a tentar corrigir esta grande falha nas aventuras literárias da minha vida! E a verdade é que fico surpreendida comigo própria e com o mundo no geral!

Apesar de compreender porque é que os clássicos não são muito apelativos, admito que a não leitura dos mesmos constitui uma grande perda para quem não os lê. Esta não é a primeira obra do autor que leio! Como a maioria das pessoas, o meu primeiro contacto com José Saramago foi na escola, onde “O Memorial do Convento” constitui uma leitura obrigatória e de análise exaustiva. E, na minha opinião, isto traz consigo vantagens e desvantagens. Se, por um lado, é importante que faça parte da nossa educação, por outro a obrigatoriedade a ele associada, os prazos de leitura inerentes, e a própria análise exaustiva podem retirar um pouco da magia da sua leitura a certos leitores – e aqui identifico-me. Mas, felizmente, encontrei pessoas ao longo da minha vida que não sofreram deste mal e que me fizeram querer dar outra oportunidade ao autor.

Face a isto, comecei por ler um pequeno conto – “O Conto da Ilha Desconhecida” – que foi uma pequeníssima amostra daquilo que estava a perder. Por isso, de seguida, aventurei-me a ler “O Homem Duplicado”. No que diz respeito à história em si, a narrativa desenrola-se essencialmente em torno da vida da nossa personagem principal – Tertuliano Máximo Afonso – professor de história, divorciado, mas com uma relação de 6 meses com Maria da Paz.

Mas como seria de esperar do vencedor do Prémio Nobel da Literatura, esta obra não poderia ser apenas uma história, apenas uma narração. Como me disse e bem a bloguinha Tomé, a história é apenas um entretenimento para as pérolas que vamos encontrando ao longo da narrativa e para a transmissão da mensagem pretendida pelo autor.

Tudo começa quando Tertuliano Máximo Afonso vê um vídeo, por sugestão do professor de Matemática, no qual identifica um actor exactamente igual a si próprio. E aqui podem perguntar-se “Como seria se houvesse alguém no mundo igual a nós próprios?” Em paralelo, podemos acompanhar ainda a relação de Tertuliano com Maria da Paz, uma pessoa paciente, que trabalha num banco, e que muitas vezes me fez lembrar todos nós leitores – que lemos, lemos e lemos e aprendemos tanto com o que lemos!! Para além desta sua característica de leitora, temos também aqui uma pessoa romântica, esperançosa que, apesar de não ser a personagem principal da obra alcança um lugar muito especial não só no nosso coração, mas no coração de todas as personagens que dela fazem parte.

Mas confesso que o melhor para esta leitura é enveredar nela sem quaisquer expectativas. Claro que não podemos esquecer que não é uma obra escrita recentemente. Não podemos esquecer que há obras que não devem ser lidas de um folgo só (apesar que a partir de certo ponto tive que o fazer, tal era o mistério criado pelo autor), mas sim apreciadas à velocidade que cada um achar adequada. E não podemos esquecer que cada leitura tem o seu tempo!

Atrevam-se a conhecer Tertuliano Máximo Afonso, Maria da Paz, e claro, “O Homem Duplicado”. :)
 

 
Podem encontrar também neste nosso cantinho, as opiniões da Sofia e da Tomé.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

segunda-feira, 20 de abril de 2015

No Piso 9 com... José Saramago

Há livros maravilhosos, com histórias incríveis, nascidas de uma imaginação para lá de muito fértil e depois há outro nível: José Saramago; as suas obras são sempre dotadas de uma escrita magistralmente concebida, pensada ao pormenor, onde cada palavra abre caminho à seguinte, onde cada frase é muito mais do que nela se lê, onde tudo se conjuga harmoniosamente e com tal musicalidade que somos embalados para dentro das páginas dos seus  livros.

Por isso,  vamos inaugurar da melhor forma o Piso 9, deixando-vos 9 sugestões da obra do nosso Prémio Nobel da Literatura, José Saramago.



Ensaio Sobre a Cegueira

Saramago é mestre em expor o pior e o melhor do Homem, demonstrando que andam sempre de mãos dadas, sendo um inseparável do outro. Durante a leitura deste livro podem ser necessárias várias pausas, fechar o livro e voltar a ele uns dias depois. Ensaio Sobre a Cegueira é brilhante! E tão extraordinariamente visual que recomendamos o filme apenas para os mais corajosos!

“Ainda está para nascer o primeiro ser humano desprovido daquela segunda pele a que chamamos egoísmo, bem mais dura que a outra, que por qualquer coisa sangra.”

O Ensaio Sobre a Cegueira foi brilhantemente adaptado ao Cinema em 2008. Aqui fica o trailer, para quem não viu o filme e quiser dar uma espreitadela.
 




As Intermitências da Morte 
 

N'As Intermitências da Morte, Saramago testa mais uma vez a condição humana através de uma implausível irrealidade: a morte deixa de matar. É a greve das greves, e Saramago expõe com mestria as suas consequências sociais e políticas, mostrando ao leitor como o Homem é, através da forma como pensa, sente e age perante uma perda que é tão absoluta como incompleta. Nesta obra, Saramago alia uma crua e realista análise social com a personificação da própria Morte que, com poderes sobrenaturais, dá corpo (literamente) a uma tocante história de amor.
   
“Aprende, pensava, aprende de uma vez, pedaço de estúpido, portaste-te como um perfeito imbecil, puseste os significados que desejavas em palavras que afinal de contas tinham outros sentidos, e mesmo esses não os conheces nem conhecerás, acreditaste em sorrisos que não passavam de meras e deliberadas contracções musculares, esqueceste-te de que levas quinhentos anos às costas apesar de caridosamente to haverem recordado, e agora eis-te aí, como um trapo, deitado na cama onde esperavas recebê-la, enquanto ela se está rindo da triste figura que fizeste e da tua incurável parvoíce!”


Ensaio Sobre a Lucidez

Quem pega neste livro na esperança de esbarrar na grandiosidade do Ensaio Sobre A Cegueira fica imensamente decepcionado. Se a primeira metade do livro prende pelo mistério, a segunda, na tentativa forçada de ser uma sequela do Ensaio Sobre A Cegueira, perde qualidade.

Um dia vulgar de eleições termina num resultado imprevisto: uma maioria de votos em branco. E esta inocente manifestação, este desabafo, esta indignação para com os políticos dos partidos da direita, da esquerda e do meio, deixa os governantes inseguros. Sentindo-se ameaçados, procuram a todo o custo descobrir a génese da ideia peregrina do voto em branco massivo. Espiando, enganando e torturando fazem sofrer alguns dos que viveram os horrores da cegueira branca.

O grande inimigo desta obra é sem dúvida a elevada fasquia e as grandes expectativas deixadas pelo seu antecessor. Ainda assim, este romance constitui uma crítica mordaz à Democracia levantando a grande questão do papel dos cidadãos, dos eleitores. Será que têm um papel real? Lúcido será quem se questiona.
 
“É o que as palavras simples têm de simpático, não sabem enganar.” 

 
Caim

Em Caim Saramago deixa transparecer que não era tão ateu como afirmava ser, mas apenas acreditava num Deus muito imperfeito com quem estava profundamente zangado. Seguindo a personagem principal, Caim, a narrativa expõe vários episódios bíblicos mas ridicularizando-os, sem nunca mentir, mas mostrando uma verdade como quem diz “vejam a areia que vos atiraram aos olhos”. Para pessoas mais sensíveis em assuntos de cariz religioso esta leitura não é recomendável, pois certamente página sim página sim iriam bradar aos céus contra Saramago. Não deixa de ser um livro diferente, controverso, polémico e que vale a pena pelo final curioso.

“O caminho do engano nasce estreito, mas sempre encontrará quem esteja disposto a alargá-lo.
 

A Jangada de Pedra
 
Metáforas políticas à parte, que tornaram entediantes quase capítulos inteiros, A Jangada De Pedra é uma belíssima história sobre pessoas. Com personagens peculiares e diálogos de inigualável beleza, Saramago leva-nos mar adentro na viagem da grande jangada de pedra que é a Península Ibérica. 
 
Deixem-se encantar por Joana Carda que ao riscar o chão com uma vara de negrilho se sente culpada pela separação da Península Ibérica da restante Europa, por Maria Guavaira que encontrou em sua casa uma meia de lã azul que não consegue terminar de desfazer, por Joaquim Sassa que lançou uma enorme pedra ao mar a uma distância impossível para o seu físico, por José Anaiço perseguido por uma bando de estorninhos, por Pedro Orce que sente uma contínua vibração vinda do solo, como se pudesse perceber as oscilações provocadas pelo movimento de Portugal e Espanha. E finalmente por Constante, o Cão, que hesitante entre Espanha e França opta pela península quando se abre a primeira fenda no chão e junta-se ao grupo, tornando-se companheiro fiel de Pedro Orce.

“No quarto ao lado dormiam cansados os amantes, nos braços um do outro, maravilha que infelizmente não pode durar sempre, e é natural, um corpo é este corpo e não aquele, um corpo tem um princípio e um fim, começa na pele e acaba nela, o que está dentro pertence-lhe, mas precisa de sossego, independência, autonomia de funcionamento, dormir abraçados exige uma harmonia de encaixes que o sono de cada um desajusta, acorda-se com o braço dormente, um cotovelo fincado nas costelas, e então dizemos baixinho, reunindo toda a ternura possível, Meu amor chega-te para lá (...) 

A Jangada de Pedra foi  adaptada ao Cinema em 2002 .Podem consultar mais informações sobre o filme Aqui.


O Conto da Ilha Desconhecida
 

Podem ver a Opinião da Rosana Aqui.

 "Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar."

 
O Homem Duplicado 
 

 Podem ver a Opinião da Tomé Aqui e da Sofia Aqui.
 
Diz-se que só odeia o outro quem a si mesmo se odiar, mas o pior de todos os ódios deve ser aquele que leva a não suportar a igualdade do outro, e provavelmente será ainda pior se essa igualdade vier a ser alguma vez absoluta.

 
Memorial do convento
 
Memorial do Convento, uma obra incontornável quando pensamos em Saramago, reúne um improvável trio de personagens que, de uma forma diferente, nos transmite que o amor e o sonho não são padronizáveis, que o impossível é relativo e frequentemente designa apenas algo difícil de alcançar quando a nossa força não almeja ser mais do que humana.
Baltasar sete-sóis, maneta, e Blimunda sete-luas, uma vidente muito especial, protagonizam a trama amorosa deste Romance Histórico sem par e o Padre Bartolomeu Lourenço um louco, um pássaro preso no corpo de um homem, constituem tríade sui generis que nos consegue embalar numa trama que para muitos é de difícil leitura e entendimento.
Mas esta grande obra não se fica por aqui e Saramago presenteia-nos com a sua habitual sátira às ideologias sociais e religiosas, usando como pano de fundo a corte do século XVIII e descrevendo habilmente um retrato caricato da construção do convento de Mafra, sempre debaixo do megalómano olhar do Rei.
“Quando me dás a mão, quando te encostas a mim, quando me apertas, não preciso ver-te por dentro.”
 

 
Carta a Josefa, minha avó (1968)

E terminamos com a crónica Carta a Josefa, minha avó, publicada no ano de 1968, no jornal A Capital, de Lisboa, tendo sido incluída, anos mais tarde, no livro Deste Mundo e do Outro. Deixem-se deslumbrar com um texto tão simples e tão simplesmente belo.

“Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.

Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja.(Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)

Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»


É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.”

Pensamento do Dia



"às vezes perguntamo-nos porque tardou tanto a felicidade a chegar, por que não veio mais cedo, mas se nos aparece de improviso, como neste caso, quando já não a esperávamos, então o mais provável é que não saibamos o que fazer, e não é tanto a questão de escolher entre o rir e o chorar, é a secreta angústia de pensar que talvez não consigamos estar à altura."

José Saramago

Opinião - " O Homem Duplicado", José Saramago

Sinopse:

"Tertuliano Máximo Afonso, professor de História no ensino secundário, «vive só e aborrece-se», «esteve casado e não se lembra do que o levou ao matrimónio, divorciou-se e agora não quer nem lembrar-se dos motivos por que se separou», à cadeira de História «vê-a ele desde há muito tempo como uma fadiga sem sentido e um começo sem fim».Uma noite, em casa, ao rever um filme na televisão, «levantou-se da cadeira, ajoelhou-se diante do televisor, a cara tão perto do ecrã quanto lhe permitia a visão, Sou eu, disse, e outra vez sentiu que se lhe eriçavam os pêlos do corpo»...Depois desta inesperada descoberta, de um homem exactamente igual a si, Tertuliano Máximo Afonso, o que vive só e se aborrece, parte à descoberta desse outro homem. A empolgante história dessa busca, as surpreendentes circunstâncias do encontro, o seu dramático desfecho, constituem o corpo deste romance de José Saramago."

Opinião:

Tenho de começar esta opinião a dizer que considero Saramago brilhante. A sua forma de contar uma história exige atenção e compromisso se se quer extrair todo o potencial da narrativa. Quem aprecia este autor, sabe que independentemente do livro que for, algo de bom nos espera. "O Homem Duplicado” não é excepção.

Tertuliano Máximo Afonso poderia ser um homem qualquer, daqueles que passam por nós na rua, que nada de extraordinário possui a não ser o nome que os pais lhe decidiram dar aquando do seu nascimento. No entanto, a história criada à volta desta personagem não tem nada de comum.

Como sempre, Saramago cria o seu próprio ritmo durante a narrativa. No decorrer da história habilmente introduz as suas reflexões, que apesar de escritas com uma linguagem simples, possuem sempre um significado profundo. 

O autor em todos os seus livros demonstra uma capacidade imensa de ver o que move os humanos e as suas relações, fazendo com que cada personagem crie um local no nosso coração. Além disso, incita em nós uma curiosidade imensa para saber o que as personagens estão de facto a sentir, por vezes, até mais do que a resolução dos problemas e mistérios do enredo.

Algo verdadeiramente extraordinário neste livro é a forma como as personagens expressam o seu afecto. De facto, para mim, esta história contém uma das interacções mais românticas que já li, e que certamente não irei esquecer, nem encontrar rival, num futuro próximo. 

Contudo, acho que não compreendi o objectivo da história, ou então, talvez não queira ver a mensagem que ele quer transmitir. No entanto, isto não tira nenhuma beleza à história.

Para aqueles que gostam de Saramago este livro não irá certamente desiludir! Contém todos os factores que levam as pessoas a odiar ou a amar este autor.


"..., estamos obrigados por natureza ou condição a seguir caminhos paralelos, mas a distância que nos separa, ou divide, é tão grande que na maior parte dos casos não nos ouvimos um ao outro."





Podem ler a opinião da Tomé aqui.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Novidade Porto Editora - José Saramago, Álvaro Magalhães, Louise Doughty

"Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas"

Código: 04695
Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 136
Editor: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-04695-6
Coleção: OBRAS DE JOSÉ SARAMAGO

Sinopse:

"Aquando do seu falecimento, em 2010, José Saramago deixou escritas trinta páginas daquele que seria o seu próximo romance; trinta páginas onde estava já esboçado o fio argumental, perfilados os dois protagonistas e, sobretudo, colocadas as perguntas que interessavam à sua permanente e comprometida vocação de agitar consciências.

Saramago escreve a história de Artur Paz Semedo, um homem fascinado por peças de artilharia, empregado numa fábrica de armamento, que leva a cabo uma investigação na sua própria empresa, incitado pela ex-mulher, uma mulher com carácter, pacifista e inteligente. A evolução do pensamento do protagonista permite-nos refletir sobre o lado mais sujo da política internacional, um mundo de interesses ocultos que subjaz à maior parte dos conflitos bélicos do século xx.

Dois outros textos - de Fernando Gómez Aguilera e Roberto Saviano - situam e comentam as últimas palavras do Prémio Nobel português, cuja força as ilustrações de um outro Nobel, Günter Grass, sublinham."


Disponível a partir de 23 de Setembro

"O Estranhão "

Código: 72781
Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 192
Editor: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-72781-7
Coleção: O ESTRANHÃO

Sinopse :

"Fred, o Estranhão, é um rapaz de 11 anos, com um Q.I. acima da média, que conta a sua estranha vida (a família, a escola, os amigos, os amores), com palavras e desenhos, enquanto reflete sobre tudo o que o rodeia.
O seu grande desafio é viver uma vida normal, sem sobressaltos, e chega a fingir que é estúpido para não ser incomodado pelos que fingem ser inteligentes. Mas isso não é tarefa fácil para um Estranhão. Pois não?"

"Uma escolha imperfeita"

Código: 04702
Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 376
Editor: Porto Editora
ISBN: 978-972-0-04702-1

Sinopse:

2Num tom intimista, pleno de emoção, erotismo e um suspense de tirar o fôlego, Uma escolha imperfeita é um romance surpreendente sobre como uma decisão impensada pode mudar o curso de uma vida para sempre.
Yvonne Carmichael trabalhou arduamente para conquistar o que sempre quis: uma invejável carreira na área da genética, uma casa fantástica, uma boa relação com o marido e dois filhos. 
Um dia, cruza-se com um desconhecido e, num impulso, começa uma tórrida aventura amorosa - uma decisão que acaba por colocar em causa tudo o que sempre valorizou. 
Yvonne acredita que conseguirá manter a relação extramatrimonial sem que tal venha a interferir na sua vida, tal como ela é. Só que, na verdade, ninguém consegue controlar o que acontecerá a seguir. 
De conceituada e respeitada cientista a adúltera acusada dos mais variados crimes, Yvonne vê todos os seus planos desmoronarem-se numa espiral de desilusões e violência."

Disponível a partir de 3 de Outubro

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Pensamento do Dia



 "Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros, e que, para a maioria é só um dia a mais."

José Saramago, in O Homem Duplicado