Mostrar mensagens com a etiqueta Bárbara. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bárbara. Mostrar todas as mensagens

sábado, 25 de setembro de 2021

Pensamento do Dia



"Duas coisas preenchem o meu espírito com uma admiração e respeito sempre novos e crescentes, quanto mais o pensamento se ocupa delas: 
o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim." 

- Immanuel Kant

sábado, 26 de agosto de 2017

Opinião "Se Eu Fosse Tua", Meredith Russo

Sinopse

"Só porque tens um passado, não quer dizer que não possas ter um futuro.

Mudar de escola no último ano e ser a miúda nova do liceu nunca é fácil para ninguém. Amanda Hardy não é excepção: se quiser fazer amigos e sentir-se aceite, terá de baixar as defesas e deixar que os outros se aproximem.
Mas como, quando guarda um segredo tão grande?

Uma história inspiradora e comovente que nos enche o coração e nos ensina que o amor mais verdadeiro e profundo nasce da coragem de sermos nós mesmos." - in Goodreads




Opinião

Se Eu Fosse Tua” (“If I Was Your Girl”, no original) conta a história de Amanda Hardy, uma jovem transgénero que, após um grande período a sofrer bullying por parte dos colegas pela sua identidade de género, e que culmina numa agressão particularmente grave, muda de escola, tentando fugir à intolerância da sua comunidade. Amanda vê nesta mudança a oportunidade de se dar a conhecer como uma rapariga adolescente como todas as outras, livre do preconceito que desde cedo a perseguiu.

Amanda vai às aulas, faz amigos, discute com o pai, e apaixona-se, como qualquer rapariga da sua idade. Ainda assim, para além da tempestade de emoções própria da adolescência, a protagonista carrega o peso da culpa e da vergonha – de ser quem é, e de o esconder de quem lhe é mais próximo.

Não fosse o pormenor de a protagonista ser transgénero, e “Se Eu Fosse Tua” tratar-se-ia de mais um banalíssimo teen drama capaz de entreter marginalmente os fãs do género. Mas a verdade é que Amanda, pela sua identidade de género, passa por experiências que lhe são únicas e com as quais de outro modo um leitor cisgénero não se cruzaria. Na minha opinião, esta obra vale essencialmente pelo modo como chama a atenção para as vivências de alguém que é marginalizado por parte da sociedade, e de como a nossa atitude pode fazer a diferença na vida dessa pessoa. Haverá sempre pessoas de mente fechada que magoam os que são diferentes (quase) sem se aperceberem, para não falar dos que o fazem propositadamente. Está nas nossas mãos informar-nos sobre temas que até nos podem ser inicialmente desconfortáveis, mas que são absolutamente necessários para nos tornarmos mais empáticos e tolerantes. Este percurso é bem ilustrado pela personagem do pai de Amanda, que consegue eventualmente deixar o amor que sente pela filha ultrapassar o seu preconceito.

Para além da disforia de género, o termo clínico que traduz o sofrimento das pessoas cujo género não corresponde ao que lhes foi atribuído à nascença, o livro aborda vários outros problemas de saúde mental que muitas vezes afectam estas pessoas, como a ansiedade, a depressão e o suicídio. Mas, e felizmente, a autora também fala do caminho para a recuperação, e de como esta é alcançável com ajuda profissional e dos que nos rodeiam.

Um aspecto muito importante para o qual Russo alerta é o facto de que a história de Amanda é isso mesmo – a história de Amanda. Não é a experiência universal de todas as pessoas transsexuais, nem sequer corresponde exactamente à experiência da autora. Há pessoas que não têm acesso a todos os cuidados e recursos disponíveis a Amanda, o que não deve invalidar a sua existência. Com ou sem hormonas, com ou sem cirurgias, em qualquer momento da sua transição e de qualquer modo pelo qual a escolham fazer. Ainda assim, penso é bom para os leitores transgénero começarem a ver-se representados em obras mais mainstream.

Portanto, não considero que este seja um livro cuja forma ou escrita deslumbre, mas que vale pelo conteúdo, e que pode ser uma leitura muito interessante para quem quer saber mais sobre o tema. Acho-o especialmente relevante para os leitores mais jovens, que só têm a ganhar com a exposição a vidas diferentes das suas (e o que são os livros se não maneiras de vivermos várias vidas diferentes?)


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Opinião "A Rapariga de Antes", JP Delaney

Sinopse

'«Por favor, faça uma lista de todos os bens que considera essenciais na sua vida.»

O pedido parece estranho, até intrusivo. É a primeira pergunta de um questionário de candidatura a uma casa perfeita, a casa dos sonhos de qualquer um, acessível a muito poucos. Para as duas mulheres que respondem ao questionário, as consequências são devastadoras.



EMMA: A tentar recuperar do final traumático de um relacionamento, Emma procura um novo lugar para viver. Mas nenhum dos apartamentos que vê é acessível ou suficientemente seguro. Até que conhece a casa que fica no n.º 1 de Folgate Street. É uma obra-prima da arquitectura: desenho minimalista, pedra clara, muita luz e tectos altos. Mas existem regras. O arquitecto que projectou a casa mantém o controlo total sobre os inquilinos: não são permitidos livros, almofadas, fotografias ou objectos pessoais de qualquer tipo. O espaço está destinado a transformar o seu ocupante, e é precisamente o que faz…

JANE: Depois de uma tragédia pessoal, Jane precisa de um novo começo. Quando encontra o n.º 1 de Folgate Street, é instantaneamente atraída para o espaço —e para o seu sedutor, mas distante e enigmático, criador. É uma casa espectacular. Elegante, minimalista. Tudo nela é bom gosto e serenidade. Exactamente o lugar que Jane procurava para começar do zero e ser feliz. Depois de se mudar, Jane sabe da morte inesperada do inquilino anterior, uma mulher semelhante a Jane em idade e aparência. Enquanto tenta descobrir o que realmente aconteceu, Jane repete involuntariamente os mesmos padrões, faz as mesmas escolhas e experimenta o mesmo terror que A Rapariga de Antes.' - in Goodreads


Opinião

(Para não quebrar a série, eis mais um livro para a minha colecção: "Personagens ricas em psicopatologia!")

Emma e Jane são as co-protagonistas deste romance, semelhantes apenas no aspecto físico e na sua atracção pela residência do número 1 de Folgate Street. Emma é uma jovem emocionalmente instável e com traços de personalidade difíceis, que se muda para a referida casa com o namorado para fugir a uma memória traumática. Por sua vez, Jane é uma mulher mais madura e ponderada, mas que foge também a uma tragédia pessoal. Ambas são de imediato cativadas pelo excêntrico e anancástico Edward Monkford, arquitecto e proprietário da casa que ambas acabam por habitar, mas a relação com este evolui de maneira muito diferente.

A descrição do nº1 de Folgate Street e do seu ambiente é um dos aspectos mais interessantes do livro. Também o leitor se deixa entusiasmar e seduzir pelas possibilidades de uma casa que se modula àqueles que nela vivem. E, apesar de saber que não é um estilo que agrade a todos, também me atraía o minimalismo da criação de Monkford. E é um exercício interessante tentar responder às questões que este levanta.

Em relação às personagens, há um desequilíbrio muito claro na empatia que despertam no leitor. Emma, a titular "rapariga de antes", rapidamente mostra o seu lado mais perturbado, e o leitor atento consegue ler nas entrelinhas aquilo que a jovem esconde. Jane foi uma maior surpresa para mim, não desconfiei das suas motivações até ao final. Há, como em muitos dos livros de suspense, a previsibilidade do volte-face no final... mas Delaney consegue ainda assim fazer o vilão em destaque criar no leitor um cauteloso desconforto. Acompanha-nos a certeza de que Monkford é culpado de algo... o quê exactamente, não temos a certeza.

"A Rapariga de Antes" é uma leitura tão agradável como inquietante, ideal para fãs de mistério que gostem de explorar a psique das personagens.

 

terça-feira, 11 de julho de 2017

Opinião "A Psicologia do Amor", Irvin D. Yalom

Sinopse

'Esta colectânea de dez histórias fascinantes da autoria do exímio psicoterapeuta Irvin D. Yalom desvenda os mistérios, as frustrações, o pathos e o humor inerentes ao encontro terapêutico. Ao narrar os dilemas dos seus pacientes, Yalom não só nos oferece um raro e arrebatador vislumbre dos desejos e das motivações particulares destes, como nos conta a sua própria história, empenhado em reconciliar as suas reacções profundamente humanas com a sua sensibilidade como psiquiatra. Não houve outro autor desde Freud que tenha contribuído tanto para esclarecer o relacionamento entre psicoterapeuta e paciente.' - in Goodreads

 

Opinião

A realidade consegue ser mais estranha - e, por conseguinte - infinitamente mais interessante que a ficção.

O Dr. Irvin D. Yalom, psiquiatra norte-americano de ascendência russa e principal figura da Psicoterapia Existencial, assume o papel de Carrasco do Amor (Love's Executioner - o título original da obra e da primeira das histórias que conta), no processo terapêutico dos seus pacientes. Nesta obra, dá-nos a conhecer dez histórias de dilemas e mudanças reais, com pormenores mais ou menos disfarçados para preservar o anonimato, para nos levar a reflectir.

Considero que não é propriamente voyeurístico o interesse que as histórias destas pessoas nos desperta, mas antes algo decorrente da necessidade de empatia, de percebermos que há outros com problemas semelhantes aos nossos, e de validar a procura de ajuda. Podemos não nos identificar por completo com nenhum dos “personagens”, mas há em cada um dos capítulos aprendizagens que podemos extrapolar para nós. Em linha com a ideologia da terapia existencialista, a obra aborda as questões da inevitabilidade da morte e da nossa dificuldade em aceitá-la, da solidão, da busca de significado na vida e da responsabilidade que a nossa liberdade traz – questões que, porventura, já terão assaltado o leitor, sem que se apercebesse que ao lado havia outra pessoa que guarda no íntimo dúvidas semelhantes.

Para além disso, Love's Executioner expõe o terapeuta como alguém imperfeito, com preconceitos, capaz de julgar o outro e de errar, mas que trabalha para ultrapassar as suas dificuldades e a cada paciente vai acumulando aprendizagens que lhe permitem ajudar melhor os que o procuram. Yalom é muito honesto em relação às suas falhas e às consequências das mesmas no processo terapêutico.

Reconheço que li a obra com interesse mais académico, mas julgo que qualquer pessoa que se interesse pelas questões existenciais e pelo funcionamento humano irá apreciar espreitar, ainda que por breves momentos, para o consultório de Yalom.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Opinião "Objectos Cortantes", Gillian Flynn

Sinopse

'Recém-chegada de um internamento breve num hospital psiquiátrico, Camille Preaker tem um trabalho difícil entre mãos. O jornal onde trabalha envia-a para a cidade onde foi criada com o intuito de fazer a cobertura de um caso de homicídio de duas raparigas. Há anos que Camille mal fala com a mãe, um mulher neurótica e hipocondríaca, e quase nem conhece a meia-irmã, uma bela rapariga de treze anos que exerce um estranho fascínio sobre a cidade. Agora, instalada no seu antigo quarto na mansão vitoriana da família, Camille dá por si a identificar-se com as vítimas. As suas pistas não a conduzem a lado algum e Camille vê-se obrigada a desvendar o quebra-cabeças psicológico do seu passado para chegar ao cerne da história. Acossada pelos seus próprios fantasmas, terá de confrontar o que lhe aconteceu anos antes se quiser sobreviver a este regresso a casa.' - in Goodreads


 


Opinião

Ando numa onda de livros que, intencionalmente ou não, abordam questões relacionadas com saúde mental. Com este em particular, sinto a necessidade de fazer um aviso prévio ao potencial leitor, que pode passar despercebido à leitura da sinopse (apesar de o título já ser, por si, muito sugestivo). Sharp Objects lida com temáticas de autolesão que podem despoletar sentimentos mais fortes em pessoas com este tipo de problemas. 

Passemos então à minha opinião!

Já tinha lido um dos livros de Gillian Flynn - Gone Girl, ou Em Parte Incerta, que deu origem ao filme homónimo. E se já tinha gostado muito dessa leitura, do estilo de Flynn e da sua capacidade de prender o leitor às páginas em busca de pistas para resolver o mistério, posso dizer que adorei Objectos Cortantes. A história é macabra, revoltante, transgressiva, e é precisamente isso que me mais me atraiu.

Camille Preaker é uma mulher "arruinada", como a própria se descreve. A morte da sua irmã na infância marcou-a de mais do que uma maneira, que nunca conseguiu ultrapassar. Repórter medíocre, mas dedicada às pessoas sobre as quais escreve, o seu editor manda-a numa missão que Camille encara como martírio. Tem de voltar à sua pequena e bucólica cidade natal e voltar a enfrentar, mais do que apenas as mentes fechadas dos seus antigos amigos, o fosso profundo que a separa da sua mãe.

O que começa apenas como um apurar de factos quase irreflectido vai-se tornando numa verdadeira investigação da parte de Camille. A sua busca pelo que eram meninas assassinadas acaba por se confundir com a sua busca pelo que foi (ou não foi) a sua infância. E, apesar de Camille ser uma narradora fiável (ao contrário de Amy), não conseguimos deixar de sentir que mais ninguém à sua volta o é - e perdemo-nos no enredo com ela.

Há um punhado de personagens verdadeiramente interessantes, genuínas nas suas imperfeições. Posso dizer que um dos únicos aspectos menos positivos que tenho a apontar à obra é o facto de as outras, secundárias, se revelarem algo monótonas, ou pouco profundas, no sentido em que quase são caricaturas do que imaginamos serem os habitantes de uma pequena cidade de um estado do Sul da América.

O ritmo de escrita é soberbo. Lembrei-me muitas vezes de um dos meus autores preferidos, Chuck Palahniuk, pelo encadeamento de uma espécie de "refrão" que se repete ao longo da obra, pelas personagens antagonistas femininas, tão bizarras como fascinantes, e pelo facto de ter gostado mais do primeiro livro do autor, menos conhecido, em detrimento daquele que teve mais sucesso.

Aconselho Objectos Cortantes a todos aqueles que gostam de um bom mistério, com um final deveras surpreendente, mas com elementos transgressivos que revolvem nas entranhas do leitor ao longo do livro.


domingo, 12 de março de 2017

Opinião "Matéria Escura", Blake Crouch

Sinopse

'“Estás satisfeito com a tua vida?” São as últimas palavras que Jason Dessen ouve antes de cair inconsciente, derrubado por um sequestrador disfarçado. Antes de acordar amarrado a uma maca, rodeado por estranhos. Antes de um homem que ele não conhece lhe sorrir e lhe dizer: “Bem-vindo de volta, Jason!”.

Neste mundo em que acordou, a vida de Jason não é a que ele conhece. A sua mulher não é a sua mulher. O seu filho não terá nascido. E ele não é um professor de Física numa faculdade medíocre, mas um génio reconhecido que foi capaz de algo notável, algo que se acreditava impossível.

É este o mundo real ou será um sonho? E, mesmo que a casa da qual se lembra seja real, como pode Jason voltar para a família que tanto ama? As respostas encontram-se numa viagem maravilhosa e mais assustadora do que ele poderia imaginar, uma viagem que o vai forçar a enfrentar o mais obscuro de si mesmo, ao mesmo tempo que luta contra um inimigo terrível, aparentemente imbatível.' - in Goodreads
 

Opinião

A sinopse de "Matéria Escura" revela pouco sobre a história, uma preciosa raridade para um thriller. Vou tentar não contar demasiado, mas apenas o suficiente para transmitir o quão inquietante a obra é para o leitor.

Jason Dessen é um professor de Física mediano, numa universidade mediana, que passou ao lado do que poderia ter sido uma carreira brilhante - pelo menos, é isso que lhe passa pela cabeça amiúde, mesmo quando passa bons momentos com a sua mulher e filho, com quem tem uma vida feliz. Mas será que se consegue ser verdadeiramente feliz e realizado quando se questiona se, há tantos anos, fez realmente a escolha certa?

Qualquer leitor assíduo já terá dado o salto lógico - será dada a Jason a oportunidade de viver a vida que não viveu. Mas a maneira como Crouch manipula as leis da Física, com o aconselhamento de mentes como a de Steven Hawking, Carl Sagan, Neil deGrass Tyson, é tão impressionante como o name dropping da página de agradecimentos.

Um dos pontos altos do livro, para mim, são as imagens vívidas tanto do espaço físico como do estado emocional das personagens, que evocam o medo no leitor. O rapto de Jason é absolutamente terrorífico, puxa-nos imediatamente para a narrativa logo no início. E a percepção lenta de Daniela de que a pessoa com quem partilha os seus dias está diferente de maneiras tão pequenas que quase a faz duvidar de si própria é também assustadora. Daniela é uma personagem que foi muito bem explorada por Crouch, na minha opinião, não se limitando a expectadora passiva dos acontecimentos, como muitos poderiam tê-la tornado. Para mim, foi muito fácil de empatizar com a sua viagem emocional nos últimos capítulos do livro.

"Matéria Escura" é um thriller psicológico muito inteligente e de ritmo rápido, que mantém o leitor sempre à espera do próximo passo. Recomendo a todos os fãs de ficção especulativa com emoções fortes!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Opinião "Tudo o Que Resta" (Kay Scarpetta #3), Patricia Cornwell

Série: Kay Scarpetta #3
Edição: 1998
Páginas: 325
ISBN: 9722323571

Sinopse


"Tudo o que resta são corpos em avançado grau de decomposição. Resta sempre também, no local do crime, um misterioso valete de copas.

Na trama está envolvida igualmente uma mulher publicamente conhecida empenhada numa cruzada contra a droga, e um elemento do FBI que esconde provas para proteger alguém importante. Um caso sinuoso para a inquieta Kay Scarpetta desvendar. Mais um policial da autoria de Patricia Cornwell, escrito com surpreendente rigor e veracidade." - in Goodreads


 

Opinião

"Tudo o Que Resta" é o terceiro romance protagonizado por Kay Scarpetta que leio, e, apesar de não me ter arrebatado, também não desiludiu.

Há uma evolução clara de algumas personagens em relação aos livros anteriores. Ficamos a conhecer mais sobre Benton Wesley, que se estabelece como uma personagem central na vida de Kay, e não apenas um contacto profissional. Apesar de termos presenciado em "Corpo de Delito" a reunião de Kay com Mark James, seu namorado em tempos de faculdade, descobrimos que a médica legista voltou a cair nos mesmos padrões disfuncionais de relações amorosas, e apesar de ainda estar apaixonada por Mark, acaba por se separar do agente do FBI. No entanto, o facto de tanto Kay como o detective Marino estarem a passar por uma separação acabou por aproximá-los ainda mais, e eu já havia falado de como esta amizade é para mim um dos grandes pontos fortes da série. Kay e Marino são um óptimo exemplo de como pessoas com traços de personalidade quase antagónicos podem trabalhar juntas para se melhorarem uma à outra.

A abordagem ao caso também foi um pouco diferente, e, na minha opinião, bem conseguida. Em primeiro lugar, porque entramos no mistério in medias res - tanto o FBI como o Departamento da Polícia da Virginia, Kay incluída, já estão bem familiarizados com os casos, quando esta recebe o telefonema a dizer que "Encontraram mais um..." Ainda assim, não se trata de algo linear, mas antes um novelo com várias pontas. O leitor é levado a explorar várias teorias, até ao último truque que Cornwell guarda na manga.

Como pontos negativos, saliento a inclusão na história de uma "vidente", cuja clarividência em relação a alguns factos nunca é devidamente explicada - a correcção científica que a Dra. Scarpetta insiste em manter em todos os momentos não se coaduna de todo com o não questionamento desta personagem. Para além disso, achei que as revelações finais foram quase despejadas no texto. Há um pormenor interessantíssimo na resolução do caso que quase passa despercebido, quando seria matéria para um plot twist deveras surpreendente.

Globalmente, a série de Kay Scarpetta é uma que me agrada pelos mistérios construídos de forma inteligente e pela importância da patologia forense na sua resolução, e Tudo o Que Resta não fugiu à regra. Continuarei a aventurar-me com Marino pela sala de autópsias da Dra. Scarpetta...


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Opinião "Psiquiatras: Uma História Por Contar", Jeffrey A. Lieberman

Sinopse

"A história fascinante das origens, percalços e triunfos da psiquiatria, pelo antigo presidente da Associação Americana de Psiquiatria. A psiquiatria percorreu um longo caminho desde os dias em que os «lunáticos» eram acorrentados em celas frias e exibidos como curiosidades de feira perante um público boquiaberto. Mas, como revela Jeffrey Lieberman nesta obra extraordinária, o caminho para a legitimação da «ovelha negra da medicina» tem sido tudo menos pacífico. O Dr. Lieberman conta a história da psiquiatria desde o seu nascimento como uma pseudociência mística, passando pela sua adolescência enquanto culto de «shrinks», à maturidade tardia - no pós-Segunda Guerra Mundial - como uma profissão cientificamente certificada e salvadora de vidas.

Na sua essência este livro é uma história de detetives, impulsionada pelas questões centrais: o que é uma doença mental e como pode ser tratada? Os verdadeiros heróis desta história são os homens e as mulheres que ousaram desafiar o status quo em busca de respostas. Com estudos de caso fascinantes e retratos pormenorizados dos luminares da psiquiatria, é uma leitura apaixonante e informativa e um apelo urgente ao fim do estigma das doenças mentais, que devem ser tratadas como doenças e não como condições infelizes e irremediáveis." - in Goodreads
 
Edição: 2016
Páginas: 416
ISBN: 9789896443887
 

Opinião

Será porventura impossível a minha opinião desta obra não sair enviesada, visto que a Psiquiatria é a área a que escolhi dedicar-me profissionalmente, e que considero tão interessante como importante para a sociedade em geral.

Desenganem-se, no entanto, aqueles que esperam encontrar neste livro um manual de Psiquiatria. Jeffrey Lieberman consegue, sem se desligar da sua profissão, assumir o papel de contador de histórias para nos levar numa viagem desde os primeiros momentos históricos em que se começaram a pensar as doenças da mente até à era da Psiquiatria moderna. Inclui ainda episódios tanto da sua prática clínica como da sua vida pessoal para mostrar ao leitor menos conhecedor a realidade da doença mental.

Penso que nos encontramos num ponto em que, apesar de todos os avanços científicos na área, informação disponível ao público e dos esforços dos profissionais, há ainda um grande peso do estigma no que concerne a doença mental, e uma cortina de desconfiança que envolve a Psiquiatria. Conhecer a sua história e aumentar a literacia em Saúde Mental são factores importantíssimos no combate a este estigma - Psiquiatras fá-lo de uma forma acessível e entusiasmante. Recomendo tanto a profissionais da área como ao público em geral!

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Pensamento do Dia

 
"Em certas alturas parece-me que a vida seria muito mais fácil se não tivéssemos de pensar em ser rapazes ou raparigas, homens ou mulheres, velhos ou jovens, gordos ou magros... se tivéssemos a certeza de que somos iguais. Talvez nos aborrecêssemos, mas o perigo da vida e de viver não existiria..."
 
Jennifer Lynch

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Opinião "O Diário Secreto de Laura Palmer", Jennifer Lynch

Sinopse

"Laura Palmer - a rapariga de rosto doce de Twin Peaks - escondeu as suas acções mais sombrias e os sonhos mais retorcidos num diário secreto, a partir dos doze anos... até ao dia em que foi assassinada.

O diário contém pistas importantes sobre a identidade do seu assassino. E, para os habitantes de Twin Peaks, tem início um mistério que irá obcecá-los a todos..." - in Goodreads

Edição: Julho 2016
Páginas: 264
ISBN: 9789896651121

Opinião

Ao começar a folhear o livro, antes mesmo dos prefácio de Mark Frost e David Lynch, deparamo-nos com uma reprodução em tons de cinzento da fotografia do baile de finalistas de Laura Palmer. Atrevo-me a dizer que esta tem mais impacto sobre qualquer Peakie que o rosto sem vida de Laura na capa do livro. O sorriso doce da jovem de 17 anos camufla toda a dor e toda a escuridão que Jennifer Lynch reproduz nas páginas deste livro.

Devo começar por dizer que acho que este livro não será devidamente apreciado por alguém que não esteja familiarizado com Twin Peaks, a série que introduziu a personagem titular (aconselho-a vivamente), porque provavelmente não conseguirá lidar com a falta de certeza e de resolução. Digo isto porque eu não conseguiria viver sem saber o que aconteceu depois de Laura ter fechado o seu diário pela última vez, e estou a projectar-me no caro leitor. Twin Peaks começa exactamente onde o diário termina; fiquei com uma imensa vontade de rever a série.

À parte disso, é ao mesmo tempo terrivelmente angustiante e morbidamente interessante observar a espiral descendente da mente de Laura pela sua própria mão. Laura Palmer, 12 anos, menina perfeita com a vida perfeita. Página a página há uma palavra, uma expressão que a trai. Laura não quer ser má, quer ser boa, mas como fazê-lo quando uma sombra permanente a persegue? Os anos passam e Laura vai-se perdendo cada vez mais na sua própria busca de um caminho para a luz, de afecto que não acha merecer.

O Diário de Laura Palmer não é uma leitura fácil ou confortável, obriga-nos a repensar o que achamos certo ou errado, aquilo (aqueles) que condenamos sem nos questionarmos do porquê das suas acções.




domingo, 11 de dezembro de 2016

Opinião "A Fugitiva" (Valquíria #2), Kate O'Hearn

Sinopse

"Valquíria: Deusa Nórdica; aquela que escolhe os que foram mortos; segadora de almas.

Freya é enviada até ao Mundo dos Homens com a missão de localizar a lendária Valquíria fugitiva. Aí irá descobrir um terrível segredo que a conduzirá à Terra dos Gigantes de Gelo onde, numa batalha mortal, irá enfrentar velhos inimigos. Mal imagina ela que as suas ações irão colocar o Valhalla num enorme perigo. Com a Guerra dos Reinos prestes a eclodir, será que Freya irá conseguir chegar a tempo de salvar todos quantos ama? Embarca numa nova lenda das Valquírias!" - in Goodreads
 
Edição: Junho 2016
Páginas: 360
ISBN: 9789898730251


Opinião

A série Valquíria tem em A Fugitiva o seu segundo volume, depois do primeiro nos introduzir Freya, a jovem Valquíria que se vê a braços com os seus novos deveres quando atinge a maioridade, e Archie, o humano que inadvertidamente adoptou no seu plano para fugir a essa responsabilidade - agora morto, mas vivendo bem a sua morte no reino de Asgard, juntamente com os outros seres celestiais superiores da mitologia Nórdica.

Freya e Archie cumprem ainda o castigo imposto por Odin quando o Desafio dos Nove Reinos, o grande evento disputado por cada um dos povos para manter a paz entre os Reinos. Apesar de não poder competir (ou mesmo assistir) a todas as provas, Freya torna-se alvo da hostilidade dos Guerreiros das Trevas, cuja relação com as Valquírias sempre foi tempestuosa. É neste clima que Odin ordena a Freya que parta para Midgard, o mundo dos humanos, numa missão que quase lhe parece impossível - e que pode muito bem ser o suficiente para finalmente despoletar a guerra entre os mundos...

Fui surpreendida pela positiva por este livro. É sem dúvida uma aventura infanto-juvenil, mas bem construída e com personagens não demasiado pueris ou previsíveis. Podemos perdoar a Freya alguma atitude mais inconsequente pela sua adolescência florescente e o seu forte sentido de lealdade para com a família. Loki é porventura a personagem mais complexa e gostaria que tivesse mais tempo de cena. Ficamos apenas pelas suspeitas acerca das suas verdadeiras intenções ao ajudar Freya em Utgard e da sua ligação com a família de Valhalla Valley...

As descrições das diferentes criaturas, dos seus poderes e locais são outro dos pontos fortes desta obra. Não conseguimos deixar de sentir a perplexidade de Archie durante o Desafio dos Nove Reinos, vendo passar os Gigantes do Gelo ou os assustadores Elfos Negros. A descrição da fuga de Freya e companhia em Utgard é tão vívida como engraçada.

Apenas dois aspectos me agradaram menos. Um, mais técnico, é que não é facilmente compreensível como se dá o envelhecimento de seres imortais nos diferentes reinos (apesar de sabermos exactamente a quantos dias de Midgard equivale um de Asgard...) Outro, é que não é muito credível a meta-teologia do mundo do livro... Se Odin, Thor e Loki existissem na realidade mas não se dessem a conhecer aos humanos, seria de esperar que se contassem histórias sobre eles e as suas vidas que correspondessem à verdade, mas que fossem despromovidas ao estatuto de lendas? E que anos mais tarde, fossem feitos óperas, peças, filmes com estas personagens, que afinal existem de verdade?

Esta série parece-me uma óptima escolha para quem não resiste ao fantástico, especialmente à mitologia, com uma boa dose de aventura. Freya e as restantes Valquírias, bem como os seus restantes aliados, representam uma família forte e unida, que fará tudo para se proteger durante a guerra que se aproxima. Ficarei à espera do terceiro volume!


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Opinião "Yggdrasil", M. Barreto Condado

Sinopse

"E se a vida como a conheces pudesse ser muito mais?

Edição: Maio 2015
Páginas: 366
ISBN: 9789895134724
Desde o início do tempo dos clãs, que os MacCumhaill se mantinham unidos. Família de poderosas mulheres e orgulhosos guerreiros. Tinha-lhes sido exigido um único sacrifício em troca da sua imortalidade, manter o equilíbrio entre os três mundos. E esse equilíbrio tinha sido quebrado. As portas estavam abertas facilitando a passagem de todos os seres sobrenaturais.

Seria Maria, uma jovem estudante portuguesa acabada de chegar a Dublin, a ajuda poderosa pela qual aguardavam há tanto tempo? Conseguiria ela aceitar tudo o que lhe era pedido? Acreditar neles e lutar ao seu lado? Dividida entre o seu dever e o amor que sente pelo herdeiro do clã irá descobrir que deve seguir o seu coração, mas esse também já não é seu. Tinha-o entregue àquele homem ainda antes de lho dizer.

Este era o início de uma nova Era… da Profecia do Sangue.” - in Goodreads



Opinião

Maria é uma jovem portuguesa que parte na aventura da sua vida: deixa tudo o que até então conheceu e vai estudar para Dublin. Até esse momento tinha tido uma existência normal - até se cruzar com o clã dos MacCumhaill, e perceber que talvez tal não tivesse acontecido por acaso, e que talvez a família não fosse tão comum quanto sempre julgara...

A premissa de "Yggdrasil" é aliciante - uma jovem com interesse académico na mitologia irlandesa dá por si rodeada por seres que vira apenas em livros, acolhida por uma secular família de guerreiros que lhe diz ser parte de uma antiga profecia. Qualquer fã do fantástico, e do mythos irlandês em específico, daria por si num folhear satisfeito esperando poder explorar mais um mundo de fadas argutas e deuses temperamentais.

Até certo ponto, temos isso em "Yggdrasil" - mas apenas como paisagem. Toda a informação sobre os Tuatha e sobre a história do clã MacCumhaill é apresentada pela autora em exposições longas e lineares, sem que qualquer esforço da parte de Maria tenha de ser feito para as descobrir, a não ser que seja necessário que ela permaneça na ignorância durante algum tempo.

Outra questão que perturba a narrativa é que toda a acção passa a segundo plano quando comparada à relação entre Maria e Rhenan. Não estou, friso, a criticar a existência de uma história de amor; estou a lamentar a importância que ela toma comparativamente à suposta batalha que o clã está a travar, e à artificialidade dos métodos usados pela autora na tentativa de criar supostos obstáculos a esta relação, mas que nunca o chegam a ser verdadeiramente, e que tocam a infantilidade.

Penso que isto se traduz num final do livro em que se voa por uma batalha final completamente anticlimática (e num tom francamente misógino, que no resto do livro se vai adivinhando) e se demora num evento familiar que pouca surpresa traz ao leitor.

Se "Lua do Lobo", o primeiro título que li de M Barreto Condado, me deixou com alguma vontade de continuar a história, "Yggdrasil", em relação ao qual tinha até mais expectativas, não deixou uma marca positiva.


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Opinião "Lua do Lobo", M. Barreto Condado

Edição: Novembro 2015
Páginas: 257
ISBN: 9781519566195

Sinopse

“Somos uma Irmandade – escolhidas pelo sangue, unidas pela vontade. Quando a noite cai sobre a Terra com o seu manto de sombras, é na luz da Lua que encontramos proteção. De nós é-nos exigida lealdade, altruísmo e coragem. Sob o símbolo da Cruz vivemos e nele confiamos. A nossa força reside na nossa união. 

Seguidoras da antiga Ordem, chegará a hora em que seremos chamadas para fechar um ciclo. Sob o olhar atento das nossas mentoras e dos nossos protetores. E quando à noite o lobo uivar, o sinal estará dado. Prepara-te porque começou. 
E só nós te poderemos ajudar.
 

Lua do Lobo é o primeiro volume da nova trilogia Irmandade da Cruz, o regresso da autora MBarreto Condado às sagas de fantasia e magia.” - in Goodreads



Opinião

"Lua do Lobo" foi-nos gentilmente oferecido pela autora.

A Lisboa dos nossos dias é a morada de uma antiga escola para raparigas, tão prestigiada como misteriosa. Ana sempre foi aluna do colégio e conhece-o de alto a baixo – mas conhecerá todos os seus segredos? Que aventuras esperam a corajosa adolescente e as suas amigas? Porque é que subitamente as paredes não parecem estar tão quietas como antes? E é no mínimo estranho que comecem a aparecer pequenos objetos no seu quarto quando tinha a certeza de ter trancado a porta…

A literatura fantástica continua a ter um grande lugar de destaque na minha prateleira, mesmo tendo os meus gostos evoluído ao longo do meu percurso literário. A “Lua do Lobo” despertou em mim a mesma curiosidade e entusiasmo que na Bárbara de há uns anos atrás, que começava a dar os primeiros passos na ficção mais “adulta” mas que ainda não dispensava a literatura juvenil. (O que é a etiqueta “young adult” senão uma maneira de nos fazer sentir bem com a nossa busca de aventuras primaveris numa altura em que isso nos começa a ser negado, estendendo igualmente a mão aos adolescentes mais precoces?)

Ana é uma protagonista que faz muito bem esta ponte. Determinada e com fome de aventuras, neste que é o seu último ano num local a que durante muito tempo chamou casa. O seu gosto pela Natureza e a sua ligação a Lua, a loba que a descobre na escola, são características muito marcadas e que nos levam a perceber Ana como um espírito livre, verdadeiramente fadada para o que as misteriosas profecias da escola lhe reservam.

Em relação às personagens secundárias, Carlota, uma das amigas de Ana, conquistou-me com a tirada irónica sempre pronta e a lealdade à protagonista. Arkadius, o principal interesse amorose de Ana, não dá muito a conhecer da sua personalidade, a não ser no que diz respeito à paixão por esta... Gostava de vê-lo um pouco mais desenvolvido. Em relação à antagonista da história, Sofia, cai por vezes no cliché da mulher desprezada, mas a certa altura da narrativa conseguimos perceber que tem outras motivações que lhe conferem alguma profundidade.

Há dois pontos que me impediram de desfrutar por completo deste livro. Em primeiro lugar, penso que o público-alvo foi pouco definido – se é verdade que no início falo numa aventura de uma jovem adulta, com todas as inconsistências e paixões próprias da idade, também o é de que falamos de uma jovem que poucas oportunidades teve de desenvolver uma maturidade afectiva, e que subitamente se vê a braços com dois pretendentes. A entrega de Ana com tamanho arrebatamento aos mesmos parece-me pouco credível numa adolescente como ela. Parece que existem duas Anas nesse aspecto – a que interage com as suas amigas e com Lua, e a que se perde de amores por Arkadius. Em segundo lugar, gostava que o mythos desta escola e do povo de lobos fosse mais elaborado. Fala-se da criação da escola e nas crenças das Irmãs, mas não parece ser algo muito estruturado… Fiquei com vontade de saber mais, e espero que na continuação da série possa ficar a conhecer melhor a Irmandade da Cruz.

No geral, é um livro que deixa o leitor preso às suas páginas, e com vontade de descobrir mais sobre os mistérios da Irmandade e sobre o que espera estas jovens, principalmente Ana. Há muito deixado em aberto pela autora no fim deste primeiro volume, portanto teremos de aguardar pela continuação da Irmandade da Cruz!


terça-feira, 9 de agosto de 2016

Opinião "O Erro", Elle Kennedy

Sinopse

“John Logan, universitário, pode ter as mulheres que quiser. Para esta estrela de hóquei a vida é um desfile de festas e engates. No entanto, por trás do seu sorriso matador e charme descontraído esconde-se um desespero crescente sobre o que terá de enfrentar após terminar o curso. Um encontro escaldante com a caloira Grace Ivers é, de facto, a distração de que ele precisa. Mas, quando um erro impensado a afasta, Logan resolve gastar o seu último ano a provar-lhe que vale a pena uma segunda oportunidade. Agora terá de apostar mais alto...
 
Depois de um ano como caloira, Grace está de volta à Universidade de Briar, mais velha, mais madura. E já não é a borboleta tranquila que era quando se envolveu com John. Se Logan espera que ela implore e rasteje a seus pés como todas as suas outras conquistas, pode esperar sentado. Quere-a de volta? Vai ter que trabalhar por isso. Desta vez é Grace quem vai ao volante... E ela tenciona guiar de forma selvagem.” - in Goodreads
 
Série: Off-Campus #2
Edição: Junho 2016
Páginas: 368
ISBN: 9789896650971
 

Opinião

John Logan tem uma vida aparentemente perfeita. Vive com os seus melhores amigos, é um dos melhores jogadores da equipa de hóquei da sua universidade, e usufrui de toda a popularidade que esse estatuto - e a sua boa aparência - lhe conferem.

Mas Logan sabe que o idílio em que vive não é eterno. Para além de não poder seguir o seu sonho de ter uma carreira profissional como jogador de hóquei, conseguiu apaixonar-se pela única rapariga que estava fora do seu alcance – Hannah, a namorada do seu melhor amigo.

O Erro segue a fórmula do seu antecessor, O Pacto, que nos deu a conhecer a história de Hannah e Garrett. Elle Kennedy continua a série Off-Campus imediatamente onde o volume anterior tinha terminado, e confirmando as suspeitas da protagonista em relação ao amigo de Garrett: Logan está apaixonado por si.

No entanto, ao contrário de Garrett, Logan não tenta conquistar Hannah, mas tenta afastar-se do casal. É assim que acaba por conhecer Grace – uma rapariga mais nova e algo estranha, que adora filmes de acção e não consegue parar de falar quando está nervosa. O romance fugaz em que se envolvem não passaria disso se Logan não conseguisse deixar de pensar em todas as maneiras como desilude Grace quando se encontram… (Um grande mais para Elle Kennedy pela importância que Logan dá ao orgasmo feminino!)

Se Logan tem algumas parecenças com Garrett, no sentido em que é um rapaz confiante mas não arrogante e com um sentido de humor descontraído, a personagem principal feminina de O Erro não tem muito de Hannah; Grace é uma jovem de natureza adoravelmente peculiar que se está a descobrir a si própria. Gostei muito da personagem e gostava de a ter visto ainda mais desenvolvida.

Logan e Grace descobrem-se um ao outro e trazem o melhor de cada um ao de cima; o amor próprio e auto afirmação antes da vontade dos outros, mas também o perdão e tolerância quando aqueles que amamos precisam de ajuda.

O Erro estabelece a série Off-Campus como uma a não perder para os amantes de histórias românticas!

 
Podem ler a minha opinião ao primeiro livro aqui.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Opinião "O Pacto", Elle Kennedy

Sinopse

Série: Off-Campus #1
Edição: 2016
Páginas: 444
ISBN: 9789896650728
“Hannah Wells encontrou finalmente aquela pessoa. Segura e confiante em todas as outras facetas da vida, enfrenta uma série de receios e inseguranças no que toca a sexo e sedução. Se quiser prender a atenção da sua nova conquista terá que sair da zona de conforto... Mesmo que tal signifique ter que aturar o arrogante e infantil capitão da equipa de hóquei... E vai ser tão bom.
Ser jogador de hóquei profissional foi tudo o que Garrett Graham sempre quis, mas as notas de final de formatura ameaçam deitar por terra este sonho, pelo qual tanto tem lutado. Se ajudar uma morena, muito gira e cheia de sarcasmo, a fazer ciúmes a outro lhe garantir a posição na equipa, que seja! Mas um inesperado beijo leva-os às cenas de sexo mais incríveis das suas vidas, e não vai levar muito tempo até que Garrett perceba que fingir não será o caminho... Terá, sim, que convencer Hannah de que o homem que ela procura se parece em tudo com Garrett. Elle Kennedy é autora best seller do New York Times, USA Today e Wall Street Journal. Escreve romances de suspense e eróticos contemporâneos. Heroínas fortes e sensuais, e heróis sexy e musculados são marca dos seus livros, temperados com muito «calor» e alguns perigos, pelo que já conquistou um vastíssimo público leitor.” - in Goodreads

Opinião

A rapariga ajuizada e inteligente que se apaixona pelo menos intelectualmente dotado capitão da equipa desportiva de determinado estabelecimento de ensino - eis o cliché dos clichés. Esta história já foi escrita e reescrita variadíssimas vezes, mas continua a vender livros, por razões simples: primeiro, porque gostamos de pensar que semelhante tipo de amores "impossíveis" podem acontecer a qualquer um; segundo, porque nos sentimos bem com a vitória do underdog, como se torcer por ele(a) fosse uma maneira de ultrapassar os nossos próprios shortcomings.

Mas sempre fui a favor de deixarmos de nos sentir guilty pelos nossos guilty pleasures - e essa é uma das razões pelas quais aconselho este romance.

Se conseguirmos saltar para além deste cliché, vemos que as personagens principais não são tão tipificadas assim. Hannah Wells é uma estudante de artes, especificamente de canto, extremamente responsável e com um sentido de humor próprio, que vive para ajudar os pais e tentar passar na audição que lhe concederá uma bolsa de estudos sem matar o seu colega de dueto. Hannah, devido a vários eventos do seu passado, não tem uma visão muito romanceada do amor - pelo menos, não até conhecer Justin.

No entanto, chamar a atenção de Justin parece uma tarefa impossível - até que Garrett, o capitão da equipa de hóquei, vê no interesse de Hannah a sua oportunidade para a forçar a ajudá-lo com um teste. Mas a relação de ambos começa a estender-se para além do estipulado no pacto inicial...

Garrett também não se limita ao seu papel de distracção visual para Hannah, sendo uma personagem também com uma determinada profundidade. A sua paixão e dedicação pelo jogo, bem como a sua dedicação, conseguem conquistar tanto Hannah como o leitor. A postura sedutora e o sentido de humor sempre presentes também ajudam...

Mas a principal razão que me faz apreciar este romance com uma história aparentemente comum e um final (algo) previsível em particular é a abordagem de temas tão importantes como a violência sexual e o consentimento. A exploração da sexualidade entre Hannah e Garrett é feita de uma forma que demonstra a importância do respeito pelos limites individuais, e que em nada diminui a promessa feita na capa do livro. Não há muitos espaços seguros que permitam a sobreviventes de violência sexual voltar a reclamar a sua sexualidade de uma forma saudável, e penso que este livro pode ser útil nesse sentido e também para sensibilizar as outras pessoas nessa matéria.

O Pacto é um bom romance para quem está à procura de se perder numa história intensa durante algumas noites, e que gosta de personagens que se revelam mais complexas do que qualquer cliché nos poderia fazer pensar.

Fico à espera de ser mais uma vez agradavelmente surpreendida pelo segundo volume da série Off-Campus, O Erro!


quinta-feira, 12 de maio de 2016

Opinião "A História de Uma Serva", Margaret Atwood

Sinopse

“Uma visão marcante da nossa sociedade radicalmente transformada por uma revolução teocrática. A História de Uma Serva tornou-se um dos livros mais influentes e mais lidos do nosso tempo.

Extremistas religiosos de direita derrubaram o governo norte-americano e queimaram a Constituição. A América é agora Gileade, um estado policial e fundamentalista onde as mulheres férteis, conhecidas como Servas, são obrigadas a conceber filhos para a elite estéril.

Defred é uma Serva na República de Gileade e acaba de ser transferida para a casa do enigmático Comandante e da sua ciumenta mulher. Pode ir uma vez por dia aos mercados, cujas tabuletas agora são imagens, porque as mulheres estão proibidas de ler. Tem de rezar para que o Comandante a engravide, já que, numa época de grande decréscimo do número de nascimentos, o valor de Defred reside na sua fertilidade, e o fracasso significa o exílio nas Colónias, perigosamente poluídas. Defred lembra-se de um tempo em que vivia com o marido e a filha e tinha um emprego, antes de perder tudo, incluindo o nome. Essas memórias misturam-se agora com ideias perigosas de rebelião e amor.” - in Goodreads

Edição: 2013 (primeira edição 1985)
Páginas: 348
ISBN: 9789722525770

«O romance mais intenso e poético de Atwood.» -Maclean's
 «A História de Uma Serva vem na honrosa tradição de Admirável Mundo Novo e outros alertas de distopia. É imaginativo, até audacioso, e expressa uma arrepiante sensação de medo e de perigo.» - The Globe and Mail

Opinião

"A História de uma Serva" é o livro que todas as mulheres deviam ler, em algum momento das suas vidas. 

A sociedade Gileadeana evoluiu, a partir dos anos 80, do mundo sem ordem e em desintegração social que conhecemos dos livros para uma nova ordem social, criada por um grupo intitulado Filhos de Jacob. Em Gilead todos têm um papel fundamental a cumprir. O da narradora desta obra é de Serva - talvez o mais importante no papel, e o mais ingrato na realidade.

Defred (literalmente de Fred, ou Offred [of Fred] no original) conta-nos como é ser uma Serva no início do regime Gileadeano. Vemos pelos seus olhos a formação inicial das Servas e a sua indoctrinação (ou tentativa de).

A Serva chega à casa do Comandante pronta para cumprir a sua função. É recebida pela Esposa, que julga reconhecer da sua infância, com uma certa hostilidade latente - nada que não esperasse; pelas Martas com indiferença, quando muito, com tolerância e uma certa esperança; por Nick, o motorista e ajudante do Comandante, com uma reacção que não compreende; e pelo Comandante... de maneira nenhuma. Defred é apenas um veículo. Não é suposto ter contacto com o Comandante fora da noite da Cerimónia.

A crítica social é evidente. Os princípios de Gilead provêm do cristianismo (a Cerimónia baseia-se na história bíblica de Raquel e Lia), mas tem elementos de outras religiões, pelo que será mais uma crítica ao fundamentalismo religioso e ao aproveitamento das crenças religiosas para motivos políticos, na minha opinião. Trata-se de um regime totalitarista, completo com polícia política e cuja pena pelos crimes contra o regime passa muitas vezes pela morte, sempre disfarçando as medidas como para protecção dos cidadãos cumpridores. E, obviamente, a misoginia do regime, pedra basilar do mesmo, é mascarada como medida de respeito maior para as mulheres.

Defred e Deglen visitam o muro.

Poderíamos pensar que abordar algo que parece tão complexo do ponto de vista de uma só personagem seria redutor, mas Defred é em si uma história dentro de uma história. Quando mergulhamos nas suas memórias e nas suas reflexões acerca da condição em que se encontra, e da relação que lhe é permitido manter com os poucos que a rodeiam, quase conseguimos esquecer que não somos Defred e aquelas não são as nossas vivências. Que aquela que nos fala não é uma melhor amiga nem a nossa consciência, infinitamente mais sábia que nós e mais ciente do que queremos e precisamos. Que o que importa realmente é esta pessoa e a sua vida, o seu ânimo dia após dia, se vai ou não conseguir ultrapassar os desafios que o destino lhe lança. Defred vive, apesar da sua vida, mesmo que por vezes viver esta vida seja impensável.

"A História de Uma Serva" é um romance especulativo, distópico, e sobretudo uma reflexão belíssima sobre a condição humana e sobre a liberdade de ser ou sentir versus a liberdade de fazer, que nos leva a reflectir sobre aquilo que nos move enquanto pessoas. É, como já disse, um livro que considero importante para todas as mulheres, pela temática geral eminentemente feminista, mas também para os homens, pois obriga à reflexão sobre sentimentos que são universais.


quarta-feira, 20 de abril de 2016

Tudo o que há de novo em mim


Tudo o que há de novo em mim,
Tudo o que é novo me fascina.
Novas folhas brancas
Pedindo algum sentimento.
Dou de mim todo o sentimento para as páginas brancas.

Dou de mim o que tenho,
E o que não tenho também.
Dou como quem me daria.
Dou palavras,
Dou palavras que soam a velho
E não trazem nada de novo.
Dou palavras deletérias.
(Na verdade, não a minha verdade.)

Dou um coração
Apressado,
Acelerado,
Tal como as minhas palavras.

(Críticas novas a poemas velhos,
Que só agora leio.)

Não é por mim,
(Não é de mim.)
É pelas folhas.



 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Opinião - "Half Wild - Entre o Humano e o Selvagem", Sally Green

Esta opinião contém alguns spoilers para o primeiro livro da série, Half Bad. Podem ler a minha opinião sobre o livro aqui!

Edição: 2015
Páginas: 336
Colecção: Via Láctea Nº 124
ISBN: 978-972-23-5618-3
Goodreads: mais informação aqui.

Sinopse

“Nathan consegue finalmente escapar do cativeiro. Depois de encontrar o seu pai e de este lhe oferecer um dom poderosíssimo, completando assim os três dons que o confirmam como bruxo adulto, o jovem sabe, contudo, que ainda não se encontra a salvo e que tem de continuar a fugir.

Porque de um lado estão Bruxos Negros que o odeiam e do outro, os Bruxos Brancos que desejam a sua captura. No meio deste conflito, Nathan tem de conseguir encontrar o seu amigo Gabriel e resgatar Annalise, a jovem que ama e que está prisioneira de temível bruxo negro, Mercury. Mas para ser bem-sucedido, Nathan sabe que terá de aprender a controlar o seu próprio poder...

Half Wild é a continuação do livro Half Bad - Entre o Bem e o Mal, aclamado internacionalmente pela crítica e pelo público.”


Opinião

"Half Wild - Entre o Humano e o Selvagem" foi-nos gentilmente oferecido pela Editorial Presença.

Um pouco mais de um ano após ter experienciado Half Bad, a leitura de Half Wild foi como encontrar um velho amigo, encontro esse que teve tanto de intenso como de fugaz. A reacção ao terminar não foi muito diferente – estava ansiosa por progredir na história, até chegar a temida página de Agradecimentos…

Após o atribulado encontro com Mercury, e os eventos que se seguiram, o momento esperado por Nathan durante toda a sua vida – o reencontro com o seu pai, Marcus – não foi mais do que isso, um momento, tendo este ficado tão só como esteve durante os anos passados na jaula com Celia como sua carcereira.

Nathan tem o seu Dom, mas não é o que esperava e não tem a certeza de que seja uma coisa boa. E não tem aquilo que mais quer, e precisa, consigo – Annalise e Gabriel, em segurança.

Nathan só quer viver em paz e manter aqueles que lhe são mais próximos a salvo, mas para isso terá de se juntar a uma Guerra que não vê como sua. Código Misto, Rafeiro, Meio Branco, cruel Bruxo Negro – todos têm um rótulo para ele. Só Nathan parece ainda não ter descoberto quem é.

Em Half Wild, Sally Green mantém o estilo de escrita a que nos habituou no primeiro livro, de que gosto imenso. É fluido, mas ponderado, com descrições que nos levam verdadeiramente a sentir as personagens. E não precisam de ser grandes discursos – a narrativa está tão intrinsecamente ligada a Nathan que parece uma linha directa para a sua mente, para a sua personalidade.

Talvez seja por isso, e por, na minha opinião, ser uma personagem tão complexa, que é tão fácil empatizar com o protagonista desta série, apesar da sua atitude dura e fechada. O jovem bruxo continua a lutar contra a sua identidade – não é fácil estar no meio de duas facções opostas, e ser excluído por ambas.

Às personagens que já existiam juntou-se um leque de recém-chegados não menos interessantes. Destaco os companheiros de viagem de Nathan, Van e Nesbitt, a primeira pelo incontestável poder que nada retira à sua elegância, e o segundo pela maneira de demonstrar lealdade e amizade pelos que lhe são próximos. E, claro, penso que a maior surpresa é Marcus – deixarei o leitor conhecê-lo pelos olhos de Nathan, que será sempre mais aliciante.

Não posso deixar de mencionar Gabriel, “o amigo perfeito”, a ligação à Terra de Nathan quando este mais se deixa levar pela incerteza. Se já em Half Bad tinha sentido uma ligação ao jovem bruxo-tornado-fulvo, agora posso dizer com certeza que é uma das minhas personagens favoritas. Poderá parecer que não, mas na minha opinião Gabriel é uma das personagens mais fortes da triologia. 

Um dos grandes temas do livro, e da própria série, é o que faz de alguém bom ou mau, e essa é uma pergunta que assombra Nathan. Matar para se defender, matar em combate, escolher não matar um prisioneiro – o que diz tudo isto de uma pessoa? E, por outro lado, amar alguém profundamente, fazer de tudo para os salvar, é uma acção tão boa que apague as más? Refleti bastante enquanto lia o livro – era, talvez, uma visão curiosa, pois não havia capítulo em que não tivesse de parar e ficar a olhar para o ar com o livro fechado à minha frente por uns momentos.

Algumas dessas reflexões foram também sobre o amor. Que coisa horrível, amor num livro de acção fantástico, cujo protagonista é um adolescente. Mas não é.

O amor inocente de Nathan por Annalise começa enquanto os dois ainda são demasiado jovens para o reconhecer como tal, mas de que ele vai cuidando e fazendo crescer dentro de si até se poderem reencontrar. E, caso não tenha ficado claro, há outra personagem que, ela sim, soube que se tinha apaixonado por Nathan logo que conheceu, apesar de ele estar sempre zangado com todo o mundo.

Penso que Green nos quer mostrar, com este triângulo (que não chega a fechar…) que o amor não são palavras, não são frases bonitas ditas ou escritas. O amor é algo que se sente e se faz, que se pode dizer de tantas maneiras que não é possível contá-las, que tanto pode ser esperar, como partir.

E enquanto isso teremos nós de esperar, pois o terceiro e último livro da série, Half Lost, será lançado em 2016. Entretanto, há um outro livro da autora que se passa no mesmo universo – Half Lies, a história de Gabriel e Michele, a sua irmã (mencionada em Half Wild).
 
No País de Gales...

Se não tinham ficado convencidos com a minha opinião do primeiro volume, espero que possam reconsiderar a decisão – a triologia Half Life é de grande qualidade, tanto em termos de escrita como da história e do mundo fantástico criado por Green. Se gostam de magia e fantasia, personagens fortes com personalidades diferentes, e do sentimento da luta pela liberdade e por um ideal, Half Bad e Half Wild são livros a acrescentar à vossa lista.


Para mais informações sobre o livro, consulte o site da Editorial Presença aqui.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Sobre o Pensamento




Preciso de tempo
Para me entreter,
Só eu e o meu pensamento,
A procurar não pensar.

Só me dá trabalho,
E a tristeza
É o meu salário.

Quando os pensamentos brotam
E as palavras não saem
Sinto-me agoniada.
Sinto que não há nada
Que os faça partir,
Livres,
Para o reino do Rei Esquecimento.
(Nunca nos demos.)

São contínuos e são insinuantes.
São gritantes
Em mudos ouvidos.
(O pior surdo é o que não ouve a si próprio.)

Quando me invadem pensamentos,
Sem que antes os possa travar,
Sento-me e penso,
Sinto-me, e penso:
Odeio pensar!




quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Opinião - "Postmortem", Patricia Cornwell

Formato: Ebook
Edição: 2009 (1ª 1990)
Páginas: 215
ISBN: 9781439187517
Goodreads: mais informação aqui.

Sinopse


“Under cover of night in Richmond, Virginia, a human monster strikes, leaving a gruesome trail of stranglings that has paralyzed the city. Medical examiner Kay Scarpetta suspects the worst: a deliberate campaign by a brilliant serial killer whose signature offers precious few clues. With an unerring eye, she calls on the latest advances in forensic research to unmask the madman. But this investigation will test Kay like no other, because it's being sabotaged from within and someone wants her dead.”


Opinião


Andava já há muito para ler uma das aventuras da Dra. Kay Scarpetta, a famosa médica legista. (Caía na lista interminável de livros que “um dia” havia de ler.) Tenho alguns outros volumes traduzidos, mas queria começar pelo primeiro, e acabei por optar pelo ebook.

Kay é uma mulher num mundo de homens – apesar da sua experiência e competência, e de ser a Chefe do Instituto de Medicina Legal do estado da Virginia, é ainda olhada de lado por alguns dos que trabalham consigo. Mas para Kay as coisas nunca haviam sido fáceis – já na Faculdade de Medicina fora uma das únicas mulheres a acabar o curso, sem ajuda de qualquer um dos seus colegas. Mesmo na vida pessoal, os homens do seu passado não lhe trazem memórias felizes: quer o seu pai, por adoecer e morrer quando ainda era criança, quer o ex-marido, que Kay menciona apenas ao de leve, dando a entender que era abusivo.

Com uma mãe que a sufoca e uma irmã que dá mais atenção à sua vida social e aos seus livros infantis que à própria filha, resta a Kay apenas esta, Lucy, uma criança de um intelecto muito superior ao esperado para a sua idade, mas que vive com uma carência de afecto parcialmente colmatada pelas férias que passa em casa da tia.

Como policial, o livro é bastante bom. Há um assassino em série em Richmond, cuja violência aumenta de caso para caso. Kay colabora com o Agente Benton Wesley, um profiler do FBI, e com o Sargento Pete Marino, da polícia local, para tentar apanhar o elusivo criminoso. À medida que os seguimos vamos apanhando peças do puzzle que nem sempre encaixam, e somos levados a tecer várias teorias acerca do mistério, tal como os investigadores, para depois termos de as desconstruir para fazer encaixar cada nova pista.

Nesta vertente salta à vista o facto de o livro ter sido escrito e publicado há mais de 10 anos: a identificação pelo DNA é um método ainda embrionário e moroso, e a equipa usa todos os outros métodos possíveis para descobrir a identidade do assassino; para além disto, também o facto de a informatização dos processos ser algo relativamente novo, e de os computadores serem seres complicados, com necessidade de conhecimento específico para serem manipulados, nos leva atrás no tempo e nos desconcerta um pouco.

Para além do assassínios, como se já não fossem suficientes para perturbar Kay emocionalmente (embora esta o negue, pois sempre foi sua política distanciar-se dos casos em que trabalha), esta vê-se a braços com uma falha na segurança dos dados informatizados que pode comprometer a investigação, e pôr o seu próprio cargo e credibilidade em risco.

À primeira vista, Kay era uma personagem com quem me iria identificar naturalmente – (quase) partilhamos a profissão, e apesar de as mulheres já ultrapassarem os homens em número na nossa área, ainda há sinais do machismo que Kay tenta combater, tanto na Medicina como na sociedade em geral. No entanto, não consegui empatizar devidamente com a Dra. Scarpetta, excepto num ou outro momento da narrativa. Achei a personagem um pouco incoerente em algumas das suas atitudes, e por vezes algo arrogante e demasiado auto-indulgente. Para além disso, tem um comentário com um toque de homofobia que me incomodou profundamente, e, apesar de ser mais “desculpável” pela época em que se passa a história, há racismo implícito numa cena específica. Isto levou-me a fazer alguma pesquisa, e pelo que me parece a autora não comunga das opiniões da sua personagem principal, e a verdade é que Kay apenas dá voz a opiniões generalizadas da população na altura, mas que não me caíram muito bem. Outra questão cultural que me fez uma certa espécie – Kay não encontrou qualquer problema em servir vinho à sua sobrinha de 10 anos em duas ocasiões distintas! 

Para terminar os aspectos negativos, não consigo deixar de mencionar uma incorrecção científica, que possivelmente não o seria na altura – é dito em mais que uma ocasião que os psicopatas, ou indivíduos com distúrbio de personalidade antissocial, têm uma inteligência acima da média. Isto não é totalmente correcto – podem ter ou não, como qualquer pessoa.

Na verdade, a parte mais interessante da personagem principal é o seu relacionamento com as personagens secundárias, nomeadamente Lucy e Marino. A primeira, em si, é fascinante – Cornwell consegue não torna-la no cliché da criança sobredotada que se comporta como um adulto em ponto pequeno, mas sim uma menina com problemas de comportamento decorrentes de uma vida familiar desestruturada, que se refugia até certo ponto na busca de conhecimento. 

Com Marino acontece o oposto de Kay – um detective “old school”, machista q.b., muito pouco virado para os desenvolvimentos tecnológicos… podia ser uma personagem odiável, mas, na minha opinião, é muito mais consistente e bem construído do que a própria Scarpetta. A constante luta de vontades entre os dois parece mover a narrativa, e percebemos que apenas o facto de ambos serem extremamente bons no seu trabalho (e se respeitarem pelo menos profissionalmente) e de terem o objectivo comum de fazer justiça impede a ruptura total entre eles. 

Estes são exactamente os motivos pelos quais acabei por gostar da vertente mais pessoal do livro, para além da investigação do caso, e pelos quais pretendo continuar a ler a série – Marino e Scarpetta completam-se e fazem uma dupla de investigadores excelente.