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quinta-feira, 15 de junho de 2017

Opinião - "Prelúdio", Inês Botelho




Sinopse:

"Prelúdio é uma obra ritmada no silêncio introspectivo das suas personagens e na musicalidade de uma escrita envolvente e inebriante. A vida corre por estas linhas prenhe de indecisões, ternura e uma infinidade de tonalidades. Os protagonistas redescobrem-se e reinventam-se, despindo camada após camada, interligando as suas histórias. Alguns sonhos esvaem-se, outros nascem. Fica a certeza do correr do tempo."
 
 
 

Opinião:

O meu primeiro contacto com livros da Inês Botelho foi já há alguns anos e desde então fiquei fã. Quando li o “O Passado que Seremos” fiquei encantada com a escrita da autora e sabia que mais tarde ou mais cedo voltaria a ler algo dela. 

Esta nova oportunidade surgiu com o livro “Prelúdio”, cedido pela autora ao blog quando realizamos a entrevista para o “ Um fim-de-semana com…” que podem revisitar aqui

A descrição de alguns momentos é muito bem conseguida, as palavras ganham movimento e estamos a ver perfeitamente o que a autora tenta descrever. 

Apenas relata a vida, não tem acontecimentos extraordinários, nem momentos em que se sustém a respiração, mas está cheio de emoção e grandes momentos entre diálogos. 

No final ficamos com uma sensação que a história não acabou, que isto apenas foi aquilo que iniciou tudo o que vai acontecer a seguir e que fica à decisão do leitor. Acaba exactamente por ser um prelúdio do que levará as personagens a decidir o que fazer com aquilo que a vida lhes dá. 

Mais uma vez Inês Botelho me convence e me mantém como fã do seu trabalho.



terça-feira, 14 de abril de 2015

O Nosso Obrigada à Inês Botelho

Sobre o autor:

"Inês Botelho nasceu em Vila Nova de Gaia, em Agosto de 1986. Licenciada  em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, iniciou em 2009 um Mestrado em Estudos Anglo-Americanos. Tem também o 8.º grau de Piano e Formação Musical. É autora da trilogia de fantástico O Ceptro de Aerzis, composta por A Filha dos Mundos (2003), A Senhora da Noite e das Brumas (2004) e A Rainha das Terras da Luz (2005). Publicou ainda o romance Prelúdio (2007)."

Site da autora:  www.inesbotelho.com


Inês Botelho fez-nos companhia no mês de Agosto com o seu "O Passado que Seremos"! Recordamos aqui alguns dos pontos altos do fim-de-semana:

Entrevista: 1,2
Pensamentos do Dia: 1, 2, 3
Opinião de O Passado que Seremos


Aqui fica um excerto de “O Passado que Seremos”, uma das cenas favoritas da autora!


Excerto : 

No hospital. Ficaras lá em observação. Uma febre mais malandra, dissera-me o pai. O bigode farfalhudo lançava-lhe alguns pêlos negros e espigados para os lábios finos. Achei-o tão pequeno quanto eu, muito frágil, peças talvez de uma porcelana partida a esforçarem-se por continuarem unidas e prolongarem a imagem do vaso. A mão roçava-me os cabelos, afagava-me uma face, o queixo, o pescoço, repetia o gesto calmante a convencer-me.

Tive medo, mãe. Pela primeira vez desde que me lembro essa sensação súbita da espinha abocanhada, ferrada e sacudida, as patas traseiras da fera como tenazes no meu crânio, a comprimirem. Fiz o que farias; o que imaginava que farias.

Fingi dormir para que o pai se deitasse e caísse no sono. Devo ter-me deixado engodar pela farsa porque quando abri os olhos a casa afogara-se em vácuo. Só a luzinha de presença quadrangular e vermelha impedia a total escuridão. Ignorei as pantufas e corri de meias até à janela. Não tropecei nem caí.Conhecia bem o trajecto. Agarrei a fita da persiana e puxei. O mecanismo roncou no negrume, demasiado ruidoso, um estrondo bombástico. Parei à escuta. O silêncio sepulcral anterior. Se tens de o fazer, fá-lo de uma vez só. Puxei. Plantas dos pés espalmadas contra o soalho, pontas de encontro ao rodapé, peso todo nos calcanhares, mãos rasgadas pela fita dura e listada, tronco ao alto, encurvado, agachado, um marinheiro a içar a vela. Precisei de mais dois movimentos iguais para o exterior ficar a descoberto, mais barulho e força. O pai não despertou.

Era Inverno e alguma chuva indistinta molhara o passeio, no ar sentia-se chumbo. Detive-me, maravilhada e receosa. Estavam ali as tuas casas-fantasma, as construções nocturnas com olhos e bocas que nos devoravam. Nas portas dos prédios em frente, os vidros de riscas opacas e transparentes pareciam-me dentes. Os olhos quadrados de pálpebras brancas eram mais robóticos do que sobrenaturais, mas não menos assustadores. Podiam abrir-se, sabia-o, e aos poucos, enquanto me aproximava mais e mais da janela fria, compreendi o que estaria do outro lado. Quando as lamelas de plástico desaparecessem, não haveria bruxas ou vampiros a esticarem as unhas podres para me alcançarem, nenhum bicho nojento se me lançaria à cara. Em vez disso estariam lá pessoas, rostos e corpos como o meu, com olhos e bocas prontos a verem-me, a perguntarem que figura ridícula ali permanecia. Aí, mãe, vislumbrei o que é ser julgada. Mas não o senti; não ainda. Era demasiado tarde para noctívagos e demasiado cedo para madrugadores. As persianas permaneceriam corridas. Levei os olhos às nuvens, às réstias esfumadas e diáfanas dessa noite, ao granulado azul-escuro e tempestuoso que as rodeava, às estrelas, até ela.

Lua.

Uni as mãos com os dedos entrelaçados e apoiei os cotovelos no parapeito. Fixei-te de novo. Começavam a amolgar-te. Notava-se um semicírculo sobre a testa, um discreto chapéu invisível. Fechei os olhos e comprimi as mãos, pronta a ingressar num rito que jamais efectuara, mas que observara variadas vezes na televisão, em quadros e até na escola.

Recordo o choque dos dedos, a intensidade do aperto a eliminar pele e carne, deixando sentir os ossos encaixados uns nos outros, a pressão a gerar dor, a obrigar as palmas a afastarem-se, a arquearem côncavas, os ouvidos ensurdecidos, os músculos do pescoço a endurecer. Rezei.

Rezei-te com ímpeto um mantra infantil e absurdo, um poema desconexo, uma algaraviada algures entre adulteração dos cânticos transmitidos ao domingo de manhã e imitação das rimas que a minha mãe criava. Pedi-te repetidamente um favor simples: vela por ela. Lua, conselheira, bendita sois vós entre a noite, vela pela minha mãe, rogai por ela, agora e sempre, seja feita a vossa vontade, e que esta seja a tua vontade, protege-a, fá-la regressar depressa e bem, a salvo, para mim e para nós, por caminhos conhecidos e desconhecidos, perdoai-lhe qualquer ofensa e livrai-a do mal, ámen. Uma reinvenção, nova fórmula. Vela por ela. Outros ditos, as palavras pensadas depressa e engasgadas, lábios a moverem -se sem deixarem escapar o som. Vela, vela por ela, por favor, por favor. Mãos
cada vez mais espremidas, pulsos quase a quebrar. Por ela, por favor.

Abri os olhos e encarei-te. Envolvias-me. Os olhos descaíam-te compreensivos, a boca plácida era-me solidária. Longe, inalcançável, dizias-me sim. Cintilavas, teu corpo de rosto a afirmar-se favorável. Podia regressar ao sono, o assunto pertencia-te, tudo ficaria bem. Enviar-me-ias os sonhos, e se fossem feios ou sinistros seriam apenas o pequeno sacrifício que me exigias. Podia ir. Nada havia a temer.

Dormi tranquila.


 
Mentiste, lua. Acuso-te. Mentiste.
Sorriste ante a presa, foi tudo o que fizeste. Quantos antes de mim? Diz -me.Quantos? Quantos te rogaram ajuda e a quantos iludiste? Quantos os devorados? Exijo-te.
Sou patética. Mentiste...

Inês Botelho
O passado que seremos (pág. 34-37)


O nosso muito obrigada à Inês Botelho! Que tenha um futuro repleto de sucessos!

domingo, 31 de agosto de 2014

Pensamento do Dia






"Brinca, princesinha, sê senhora e rainha, governa a lua, comanda as fadas, desperta florestas, encanta príncipes."

Inês Botelho

Passatempo - "O Passado Que Seremos" (#5)


Como é habitual, terminamos o nosso fim-de-semana com Inês Botelho com mais um passatempo! Apostamos que ficaram curiosos depois de ler a entrevista à autora e a opinião da Sofia, e por isso temos todo o gosto em dar-vos a possibilidade de ganhar O Passado Que Seremos, que nos foi gentilmente cedido pela autora e pela Porto Editora.


As participações são válidas até ao dia 21 de Setembro de 2014Leiam atentamente as regras de participação. O vencedor será contactado por email. O envio do livro está a cargo do blogue, sendo que não nos responsabilizamos por eventuais extravios.



Regras de Participação

1. Apenas será permitida uma participação por pessoa/email.
2. Para participar é obrigatório ser seguidor do blog Bloguinhas Paradise
3. Para participar é obrigatório colocar "gosto" na página do Facebook de Bloguinhas Paradise
4. O vencedor será determinado pela aleatorização das participações válidas.
5. Neste passatempo apenas serão aceites participações de residentes em Portugal Continental e Ilhas.

sábado, 30 de agosto de 2014

Opinião - " O Passado que Seremos", Inês Botelho

Sinopse

“Elisa e Alexandre conhecem-se num fim de semana no Caramulo. São ambos jovens, pertencem a círculos diferentes, vêem o mundo de perspectivas quase sempre opostas - e, no entanto, parecem incapazes de escapar à atração que lentamente os envolve. Com avanços e recuos, iniciam então uma relação que não entendem e que questionam. Mas que os marcará para sempre.

Elisa tem medo da lua e de janelas sem cortinas. Pensa de mais e quer entender o mundo nas suas múltiplas facetas. Alexandre, pelo contrário, avança sem grandes reflexões, preocupado em aproveitar cada momento do presente antes que as responsabilidades o amarrem.
Romance de iniciação à idade adulta, O Passado Que Seremos dá-nos o(s) retrato(s) de uma geração e dos caminhos onde procura encontrar a "sua" verdade.”


Opinião

Desde a última vez que li um livro de Inês Botelho já se passaram alguns anos, mas uma das memórias que me ficou foi a sua enorme capacidade de descrição, de nos colocar exactamente no local onde está a decorrer a história.

Contudo, neste livro, essa sua habilidade sobe a um outro nível, levando-nos a sentir o que as suas personagens sentem, de uma maneira tão real que muitas vezes dava por mim arrepiada, a suster a respiração ou com um aperto no coração.

A história deste livro gira à volta de Alexandre e Elisa e da sua relação ao longo do tempo. A escritora alterna entre os pontos de vista de um e outro, levando-nos a conhecer ambos de forma completa e a encontrar parte deles e parte do que eles viveram em nós. No entanto, por vezes, este método torna-se confuso, mas se se mantiver uma leitura atenta viveremos momentos deliciosos criados no desenrolar da história.

A escrita é soberba, cheia de pequenos pormenores e ligações que tornam o livro um prazer de ler. A escritora mostra-nos uma visão do mundo tão assustadoramente próxima que nos leva a uma reflexão profunda sobre as relações que criamos e deixamos na vida.

Assim, através de duas personagens principais, mostra-nos que as pessoas que passam pela nossa vida podem ser essenciais num momento, o centro do nosso mundo, para que, no momento a seguir sejam apenas uma memória feliz no nosso coração que, apesar de nos trazer um sorriso quando despertada, sabemos que tinha chegado a hora do adeus.

No entanto, mostra também o outro lado do espectro, que há pessoas que entram na nossa vida de forma inesperada e que, tal estrela que encontra o seu local para brilhar, ficam lá durante toda a nossa história.



Posso Perguntar? Posso? - com Inês Botelho Parte II

Acerca d'O Passado que Seremos: o que a inspirou na escrita deste livro?

O "Passado que Seremos" nasceu de uma ideia pequenina, mais ou menos como nascem todos os meus livros. Uma ideia pequenina que depois eu vou aumentando, aumentando... 

Mas era a ideia daquele casal central e daquele contar, daquele reviver. Só que à medida que fui avançando fui pensando: há esta relação, portanto duas pessoas, e quem são estas pessoas? E quem são as pessoas que circundam estas pessoas? Porque é que estou a contar isto? Qual é o meu objectivo ao contar isto? Porque é que é relevante contar esta história? 

O livro foi-se tornando muito menos sobre a relação deles e muito mais sobre eles, e o que me interessou principalmente foi esse aspecto.

Eu fui um bocadinho relutante no início porque é de alguma forma o livro mais próximo das minhas vivências, no fundo é sobre a minha geração, e eu tinha aquela mania de ser ficcionista, e não estar a contar aquilo que, de alguma forma, é o meu dia-a-dia. E portanto ainda estive algum tempo a ver se conseguia mudar aquilo, se os punha numa outra época. Mas se fosse para trás isso implicava um Romance Histórico, implicava pesquisa, centrar a atenção noutros aspectos que me iam distrair do que eu queria. Se fosse para o futuro então já não era Romance Histórico, mas era Ficção Científica e, mais uma vez, tinha de prestar atenção a outros pormenores, em maior ou menor grau, mas tinha de o transparecer ao leitor, e portanto tinha mais uma vez de disfarçar. E acabei por me resignar a escrever sobre a minha geração, ponto final, vamos lá para a frente com isto. E depois tentei no romance não dar então uma única visão, e não dar sequer uma visão que é a minha. Há coisas em que concordo mais com a Elisa, há coisas em que concordo mais com o Alexandre, e há coisas em que discordo absolutamente dos dois. E não queria que fosse aquele livro quase documental de "Isto é a minha geração, é isto a nossa verdade", mas mais no sentido de "Isto são duas pessoas que têm as suas vivências dentro desta época, e isto é a verdade deles". E pode ser a mentira de muita gente, e a verdade parcial de outros, e não interessa muito. São estas duas pessoas, neste determinado contexto social, que obviamente os influencia e que é preponderante. 

Ao mesmo tempo, tentar demonstrar a minha geração que no fundo veio a seguir à chamada geração rasca que foi uma geração considerada mais rasca do que a rasca. E a ideia que circulava era um bocado a de noitadas, bebedeiras, discoteca e pouco mais, gente sem cultura, gente sem outro tipo de iniciativa, miúdos mimados. Ainda hoje em dia ouve-se muitas vezes, e às vezes de forma perfeitamente absurda, disparada em cima dos outros, quando isso nem sequer é verdade. As pessoas formavam-se de uma série de expectativas. Para nós foi um bocado aquela ideia, sempre disseram que se nós nos esforçássemos e trabalhássemos muito bem chegávamos aos nossos 30 anos e tínhamos as nossas vidas, os nossos empregos e as nossas famílias se assim desejássemos. E a verdade é que tudo isso foi uma falácia e causa uma certa sensação de fraude, de ser-se enganado. Portanto não é propriamente uma geração de mimados. Pode haver muita gente mimada. De certeza que há. Há muitos que não são. Há sempre gente de todas as espécies. Portanto, de alguma forma tentei com o livro desconstruir uma série desses preconceitos sobre o que é a minha geração e o que é que ela faz. Mas não é de modo algum um livro que faça perceber a geração. Não é. Vão perceber uma parte. Vão perceber duas pessoas ali e principalmente fazer isso, ter duas pessoas, a Elisa e o Alexandre e conseguir que o leitor seja submerso nelas. As duas não na íntegra, mas tanto quanto é possível fazer num livro de 200 e poucas páginas.


Já pensou dar continuação ao “O Passado que Seremos”?

Não. Enfim, às vezes uma outra ideia de pegar não neles os dois, mas pegar eventualmente na Rebecca ou noutra pessoa. Mas eu não gosto de voltar a livros que estão feitos, nem sequer para pegar noutras personagens ou noutros pontos de vistas ou continuar a história passados 20 anos ou seja o que for, porque fico sempre com a ideia que vou arruinar parte do encanto do livro. E, ao mesmo tempo, estou perfeitamente pacífica relativamente às personagens. Para mim elas não acabam com o livro, mas é basicamente eu deixo-as no ponto C e elas continuam a vida delas e eu continuo a minha e ninguém tem nada a ver uns com os outros. Por isso, em geral, prefiro não voltar aos livros que escrevo.


E já alguma vez pensou voltar ao género fantástico?

Sim. Penso e vou voltar. Aliás, de alguma forma já voltei, com contos. Sim, no fundo todos os meus contos são do género fantástico. Eu gosto de fantástico: fantasia, ficção científica, embora tenha mais receio de entrar pela ficção científica, porque como tenho formação em ciências, o meu problema não é a ficção científica que adoro lê-la, o meu problema é o rigor científico, ser de alguma forma um bocadinho amarrado pelo: “Eu não sei se posso afirmar isto. Eu não fui confirmar, não fui fazer testes, não encontrei nenhum ensaio ou nenhum artigo sobre este assunto, logo posso estar a dizer um erro”. Por isso o meu problema é mais nessa ordem. 

Gosto ainda mais de ver séries e filmes de ficção científica e depois tenho aquele hábito que para muitas pessoas se calhar é desagradável de ver: “Olha aquilo não tem lógica nenhuma”, que é uma forma mais íntima de ver as séries. Não é bem pelo prazer da crítica, é o prazer do estímulo científico. Eu gosto dessa parte. Mas, por outro lado, restrinjo-me em qualquer tentativa na ficção científica. Por mais que eu tente investigar ou perguntar a alguém, há sempre aquele receio de estar a dizer uma enormérrima palermice. Enquanto que a fantasia é fantasia, não é suposto ser real e, portanto, funciona melhor, eu sinto-me mais livre, estabeleço as minhas regras, logo não posso passar destes limites, mas está a minha regra estabelecida e o resto não tem problema. 

E depois, eu tenho o vício do fantástico desde miúda, quanto mais não seja a iniciar com os contos de fadas e os contos populares, toda esta noção do maravilhoso, de situações encantatórias, é algo que me é bastante grato e que eu vou sempre incorporar nos livros todos, incluindo no “O Passado que Seremos”, senão de forma explícita no sentido real, a fantasia pode não ser assumida como real, mas enquanto imaginária, sequência onírica e simbologia. E não acho, aliás às vezes sou um bocadinho acérrima nesta questão, que a literatura fantástica não é uma literatura menor, nem tem que o ser. Claro que há imenso lixo dentro da ficção científica e dentro do fantástico, mas eu acho que é como alguém dizia “Há imenso lixo entre tudo”, ou seja, 90% de tudo é lixo. 

Portanto, não há maus géneros. Há maus livros e bons livros. E daí tenho todo o gosto e vontade de voltar à fantasia com relativa brevidade, não só dentro dos contos, aliás eu detesto caixinhas. Se facilitam algumas coisas, esta mania da taxonomia para tudo acaba por restringir e muitas vezes faz com que as pessoas digam aquele provérbio “Desta água não beberei” ou “Ah eu odeio literatura fantástica", logo "Cruzes credo canhoto! Não pego num único livro de literatura fantástica!”. E depois há alguns que dizem “Essa literatura passada na contemporaneidade, eu não posso com ela. De maneira nenhuma, odeio isso, literatura a pensar só no seu próprio eu." Pronto, lá está, acaba por ser uma palermice de um lado e do outro. Acabam por se privar de bons livros e de obras de principiantes interessantes num sítio ou no outro. Portanto, eu gosto de ser livre, não estar nada preocupada com as classificações de género, gosto de fazer o que me apetece. 


Em relação às editoras, acha que se aposta em autores portugueses ou que muitas vezes se deixa passar por serem pessoas mais desconhecidas? 

Não. Aposta-se bastante em autores portugueses, talvez não se aposte tanto como toda a gente quereria... Agora também há outro problema no meio disto tudo que é: da mesma forma que nós não somos todos feitos para ser médicos, não somos todos feitos para ser escritores. Às vezes quando um escritor diz isto parece que está a assumir que “o meu trabalho é sagrado e eu sou um génio dentro disto” e não é isso. Por exemplo, eu sou uma nulidade no desenho. Adoro pintura, tenho imenso fascínio por artes plásticas. Sou uma nulidade. Toda a minha família é brilhante nessa área, eu não sei desenhar uma célula. A única coisa que ainda vou desenhando são células e se os meus colegas demoravam 20 min eu demorava 1h. Isto não é exagero, é literal, podem perguntar a qualquer pessoa que me conheça minimamente. Eu sempre fui um desastre a desenho. 

Portanto, por mais que me esforce, eu sei que não tenho apetência para aquilo. Posso trabalhar e tornar-me melhor do que o que sou, mas há sempre um 10% invisível (90% é trabalho, 10% eu não sei de onde vem). Eu não tenho apetência para desenho, e há muita gente que não tem apetência para ser escritor. E portanto, às vezes confunde-se um bocado as editoras não apostarem em autores portugueses com o desejo mais ou menos pessoal ou de alguém próximo de ter um livro publicado. Pela minha experiência, era uma miúda quando comecei a publicar, tinha 16 anos quando enviei o livro para as editoras, não fazia a mínima ideia se ia publicar ou não o livro, foi da forma mais inocente possível: peguei na lista telefónica, editoras, escolhi, telefone: “ Olá, chamo-mo tal, tenho x anos, quero publicar um livro, agora como é que faço?”. E, tirando algumas editoras que na altura disseram que não publicavam livros de autores menores, por questões legais, não houve ninguém que me dissesse imediatamente “Não, de maneira nenhuma.” Claro, é um processo muito demorado. Demora, no geral, muitos meses. O que a pessoa pode fazer é armar-se de paciência, porque vai demorar a resposta. Convém esclarecer logo no início se a editora responde a toda a gente, ou se só responde àqueles que aceita e depois convém não fazer a estupidez que eu fiz: eu mandava para uma e esperava 2, 3 meses e mandava para outra. Mandem tudo ao mesmo tempo, é sempre a melhor solução. Mas, para alguém da minha idade, uma miudinha que não tinha familiares minimamente dentro do meio, e que enviou os manuscritos para as editoras, ninguém me fechou a porta à partida, nem foi por isso que deixou de ser publicado. Portanto, não me parece que haja assim tanto entrave quanto às vezes se diz, e tem-se vindo a publicar muitos mais autores portugueses. Aliás, basta verem, nós temos, para o país que somos, uma imensa publicação. Não sei, mas por semana saem se calhar dezenas de livros, obras novas, publicações. Claro que se publica muito autor estrangeiro e do mercado inglês ou americano, porque muitas vezes são aqueles que, de alguma forma, já deram prova de sucesso comercial e as editoras tendem a apostar naquilo que sabem que provavelmente vai vender. E, se calhar, às vezes fazem mais campanhas para esses que para os portugueses. 

No entanto, esses sucessos comerciais também possibilitam que haja alguns desastres em apostas novas ou que não são desastres mas não são grandes sucessos comerciais. Um autor português vende relativamente pouco a não ser alguns casos especiais, por exemplo o nosso Nobel da Literatura demorou vários anos a vender imenso. E depois, temos outro tipo de sucessos comerciais, relacionados com o que está na moda, mas que são acasos, um grupo muito restrito do mercado português.

Publicam-se muitos livros por mês, muitos autores portugueses e inclusive muita gente nova que está a chegar ao mercado. Portanto, não me parece que haja pouca aposta nos autores portugueses. Poderia haver um maior empenho das editoras a publicitar os autores portugueses mas mesmo assim parece-me que tem havido um trabalho melhor para o meio literário português. 

Depois incutiu-se no grande povo a ideia que os artistas, sejam escritores, cineastas ou artistas plásticos ou seja o que for querem é viver de subsídios. Mas, mesmo assim, já se começa a desconstruir esta ideia até porque relativamente a essa questão de viver de subsídios: é raríssimo o artista português que vive de subsídio. Há anos que não há subsídios para nada e mesmo quando havia eram muito pequeninos, portanto a maioria das pessoas ou está a viver com muitas dificuldades ou está em casa dos pais. Estes últimos estão um pouco mais amparados, com mais facilidade em pagar a comida ou então, tem de ter um trabalho complementar que permita pagar as contas do dia-a-dia, e neste momento nem sequer arranjar um trabalho complementar é fácil. 

Isto agora vai ser provavelmente um pouco mais desastroso para toda a gente e isto nota-se também ao nível da venda de livros, já se nota um certo retrair do mercado. E, além disso, é sempre muito fácil dizer os livros são muito caros, o teatro é muito caro. E eu não digo que não sejam caros para o nível de vida que nós temos. Nós temos salários muito baixos para os nossos preços de tudo. Contudo continua a haver muita gente a pagar 20€ para ir ver um jogo de futebol! O que tudo bem, eu também gosto de ver futebol, mas não se pode ter este discurso da cultura é exorbitante, os artistas são uns gananciosos e põe um preço elevadíssimo, porque sim nós temos preços elevados mas é um problema generalizado e não um problema dos produtos culturais. 


Dentro das suas paixões, cinema, música, teatro e mesmo a escrita consegue escolher uma que lhe dê mais prazer? 

É necessariamente a escrita, por mais que eu tenha acalentado durante muitos anos aquele sonho mais palerma da representação e devo ter praticado, entre os 12 e os 13 anos, aquele discurso ao espelho: “I'm so thankful for this Oscar!”. 

Mas, apesar disso, a verdade é que apenas um em um milhão é que consegue, e então também fiz
uma opção e achei que não devia investir por aí. As outras artes têm quase sempre um componente que nos capta mas depois fui achando que podia não ter tanto jeito para aquilo quanto achava ou quanto me diziam na altura. Da mesma forma que eu gostava muito de tocar piano mas não era uma pianista esforçada. Tenho amigos que neste momento são concertistas e eles sempre foram assombrosos e eu podia trabalhar muito e tocar uma música muito bem tocadinha, podia trabalhar muito mas ainda faltavam aqueles 10% inexplicáveis que uma pessoa tem, quer seja uma aptidão ou um talento, chamem-lhe o que quiserem. Obviamente isto tudo, se não houver os 90% de trabalho, vai tudo para o tecto, não vai adiantar nada. A verdade era que faltava ali qualquer coisa e eu sabia que não tinha qualidade para ir para o meio e como carreira, fosse numa área ou na outra, não me interessava assim tanto e que me interessava muito mais por outras, por muito que eu goste delas. 

A literatura, de facto, é a minha área, de alguma forma é-me inata, já tenho o trabalho mais facilitado, eu consigo perceber os mecanismos daquilo sem grande esforço e provavelmente se algum dia disser que sim ao teatro ou ao cinema será pela vertente mais literária. 


O que diria a alguém que se está a iniciar agora numa possível carreira como autor ou que tenha esse desejo? 

Além de mandar para várias editoras, ligar antes para saber o que as editoras querem. Há editoras que querem que se mande apenas um resumo, apenas os primeiros capítulos ou o livro todo. Varia sempre. 

Mas, aquilo que eu diria, uma coisa muito simples: ser o mais auto-crítico possível. Não ficar satisfeito com a aparente genialidade de um primeira ideia que possa surgir. Focar num ponto, e por vezes pô-lo de lado e vamos ver se conseguimos fazer melhor. 

Não ficar à espera da divina inspiração senão nunca mais se vai sair do mesmo sítio. É fazer um exercício mesmo de trabalho, se eu em vez de ir por aqui fosse por ali, se tivesse esta ideia A acrescida de B e C. Isto resulta ou não resulta? Isto é parvo, então lixo. Esta é mais ou menos, fica aqui de lado e depois pode ser que conjugada com outra resulte. 

Portanto, não se satisfazer com a ideia, com a escrita. Com qualquer componente do trabalho nunca ficar imediatamente satisfeito. Questionar se não se pode fazer melhor e se não haverá outra forma, por mais angustiante que o processo possa acabar por ser, tentar ver de todos os prismas.

Isto é o que resulta para mim, eu sei que parto de C, tenho de passar obrigatoriamente por H e termino em E. Ter os pontos fulcrais e saber o que pretendo com aquilo, quais são as ideias, os vários temas, em que é que eu vou insistir e arranjar forma de o transmitir de forma subtil. 

Mas essencialmente é isto: muito trabalho, muita autocrítica e não ficar satisfeito com as primeiras coisas. 

Depois é aquele conselho de que qualquer pessoa tem o direito de errar, voltar a tentar, errar de novo e tentar novamente. E pode fazer isso as vezes que achar que deve fazer, embora com uma certa racionalidade. Se chegar a um ponto e já viu que falhou 200 vezes, deve começar a pensar que não devia ir por aquele caminho com o livro ou, mesmo insistir na escrita. Ser também racional e não apenas emotivo na sua avaliação. Mas, também não achar que só porque fez um primeiro mau livro, uma primeira má história ou uma resposta negativa inicial que vai estar arruinado. As pessoas têm o direito de voltar a tentar e tentar várias vezes. 


E em relação futuro, que projectos têm em mente? 

Imediatamente acabar este livro! Finalmente! E começar outro que já tenho mais algumas ideias, e já defini mais ao menos com quais hei-de avançar a seguir. 

Agora também tenho no futuro próximo, um colóquio que estou a organizar na Faculdade de Letras, não tenho um papel preponderante na organização mas mesmo assim é uma obrigação. 

E de resto, outras pequeninas coisas, que ainda estão num estado muito embrionário para estar a falar delas.



Gostaríamos de agradecer à Inês pela gentileza de se ter encontrado connosco e de nos ter concedido esta entrevista, e também por nos ter disponibilizado o seu livro.

Inês, desejamos-lhe as maiores felicidades e muita sorte para os seus projectos futuros!

Pensamento do Dia


" Na unidade, na coesão do grupo residia o verdadeiro desconforto. Perpassava-vos um mesmo fio, familiaridade que talvez pudesses tocar, segurar se calhar, jamais integrar.Compreendiam-se, apoiavam-se, as fraquezas de um nas forças de outro, circulava por baixo da mesa um subtexto só vosso."

Inês Botelho

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Posso Perguntar? Posso? - com Inês Botelho Parte I

Sobre o autor:

"Inês Botelho nasceu em Vila Nova de Gaia, em Agosto de 1986. Licenciada em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, iniciou em 2009 um Mestrado em Estudos Anglo-Americanos. Tem também o 8.º grau de Piano e Formação Musical. É autora da trilogia de fantástico O Ceptro de Aerzis, composta por A Filha dos Mundos (2003), A Senhora da Noite e das Brumas (2004) e A Rainha das Terras da Luz (2005). Publicou ainda o romance Prelúdio (2007)."

Site da autora:  www.inesbotelho.com


Entrevista: 


Quando é que começou a escrever?

Eu tinha a mania de fazer historinhas e muitas vezes até fazia marcadores de livros em papel cavalinho, com um desenho de um lado e uma história do outro. Impingia aquilo à família. E foi mais ou menos por aí. Nessa altura estava convencidíssima que ia ser escritora! E foi mais ou menos assim até aos 10-12 anos e depois desinteressei-me. Mas, passado uns anos voltei a ler aquilo que tinha escrito e ri-me, passei a tarde a rir e depois arquivei porque se calhar um dia vou precisar de me rir outra vez.

E só voltei a escrever, sem ser para escola, na altura em que escrevi o primeiro livro. Basicamente porque tinha aquela história ali na cabeça já há algum tempo e depois também teve algum factor de birrice. Eu na primária não aprendi a ler como em geral se aprende, aprendi por uma coisa que se chama método global e aquilo basicamente lia-se uma história, de uma história lia-se uma frase, a frase parte-se em palavras, fazem-se novas frases com as palavras e depois partem-se as palavras em ditongos e fazem-se novas palavras e o que interessa é mais o som do que a ortografia. O que fez com que eu desse imensos erros ortográficos e quando cheguei ao secundário isso descontava então as minhas notas eram inferiores ao que poderiam ser. E, na altura, a professora de Português pensou numa série de estratégias para me conseguir pôr a escrever mais. E, no meio disso, eu comecei a ganhar uma certa ousadia para tentar descrever aquela ideia que tinha. E, ao mesmo tempo, os meus pais tiveram uma daquelas conversas: tens que ter cuidado, olha que isto, olha que aquilo. E quando dei por ela a conversa já não era só os erros ortográficos, mas era também toda a questão da própria gramática, da escrita e da construção frásica e eu achava que se eles tinham toda a razão na parte ortográfica já não a tinham no resto. Então o livro também já foi um bocadinho uma resposta ao fim de alguns meses a dizer: “Tomem lá, que afinal até escrevo bem!”

A certa altura era mais do que a birrice, era o desafio de “consigo levar isto até ao fim com um mínimo de qualidade”, e no momento nem sequer me tinha passado pela cabeça publicar aquilo. Nem estava interessada nisso.

Só que depois como os meus pais insistiram e eu, enfim, quase que a contragosto disse manda-se para umas editoras e logo se vê. Se acontecer, aconteceu…

Foi mais ou menos assim que aconteceu. A partir do momento que a trilogia foi publicada, e ela tem as suas grandes virtudes mas também tem muitos defeitos, os outros livros vieram um pouco de arrasto. Mas em todo o caso eu fiquei sempre grata por ela ser publicada naquele momento porque acho que as coisas têm a sua época. E quando se fizeram as edições de bolso e eu tive de voltar a revê-los, eu impus-me que não ia mexer naquilo. Ia limpar alguns pronomes pessoais e possessivos e só ia alterar as frases que não estavam mesmo bem redigidas, não se percebiam e sempre com a norma de usar ao máximo o mesmo número de palavras e as mesmas palavras que estavam lá mas reorganizadas. Aquilo foi escrito na época em que foi e eu prefiro agora andar para frente do que estar a rever aquilo não sei quantas vezes. Até porque depois iria acabar a fazer outro livro que já não seria aquele.

Isto foi muito bom porque tornou a opção da escrita uma opção válida, porque senão fosse publicado não pensaria em fazer um livro a seguir porque o objectivo antes era fazer aquele e ponto final.


Qual é o primeiro livro que se recorda de ler?

O primeiro livro que sei que li sozinha, se não estou em erro, chamava-se “Um segredo...Dois segredos”, que era um livro da colecção infanto-juvenil da Verbo se não estou em erro.

Eu tinha muitos pesadelos com lobos quando era miúda e a minha mãe encontrou aquele livro que era exactamente sobre essa questão e desmitificava a questão dos lobos. Lembro-me de o ler e, de facto, ter resultado, porque nunca mais tive pesadelos com lobos.

O Capuchinho Vermelho para mim era quase uma história de terror e dediquei-me agora ao estudo dos contos de fadas, contos populares e muito também ao Capuchinho Vermelho.

Sobre esse livro sempre fiquei com a ideia que era um livro grande, volumoso e há uns tempos encontrei-o e é muito pequenino, nem sei se chega a ter 50 páginas.


Neste momento qual é o próximo livro na sua lista de leitura?

Neste momento estou a acabar o “Casas Pardas” de Maria Velho da Costa, e a seguir vou talvez para o “ Ambas as mãos sobre o corpo” de Maria Teresa Horta.

Às vezes é mais o que é que me apetece agora ou de repente vejo qualquer coisas e “apetece-me este” e pego nesse. Quase de certeza que vai ser Literatura Portuguesa porque, em geral, quando estou a escrever prefiro autores Portugueses porque ajuda-me de alguma forma a desinibir a escrita e a pensar com raciocínio de Português. Porque se leio um livro em inglês ou uma tradução não são os mesmos tipos de ritmos nem linguagem.

E, além disso, eu já tenho uma tendência a viciar-me no inglês e assim ao ler em Português ajuda-me a viciar o raciocínio no Português. Torna-se automático o Português e não aquele jogo de lembrar-me da palavra em Inglês e ter de fazer um esforço para pensar qual é em Português. Isso também está um bocado relacionado com o facto de estar a estudar agora a literatura Anglo-Americana, bibliografia toda em Inglês, muitas vezes escrevo em Inglês, portanto agravou.


Quais são os seus livros / autores preferidos?

Sou perfeitamente fascinada pelas “Novas Cartas Portuguesas”, é um daqueles livros que adoro. Foi um furacão quando li aquilo. Andava já há muitos anos há procura dele e encontrei-o quando finalmente foi reeditado. O livro é fenomenal, é extraordinário, é um livro que gosto de reler, e às vezes só pegar nele e ler só uma parte do texto.

O “The Bloody Chamber “ de Angela Carter, e quase toda a sua ficção, mas especialmente a sua ficção culta. É das minhas autoras preferidas assim como o Faulkner e o “ The Sound and the Fury”.

Tenho uma certa paixão pela poesia da Natália Correia. O “ Anjo Ancorado” do José Cardoso Pires que é um livro pequenino mas é assim uma perolazinha.

Toda a época modernista dos Americanos. Gosto muito dos modernistas do início do século XX.

Um autor de que gosto também muito e que tem também um livro extraordinário é o Jonh dos Passos, o “Manhattan Transfer” é aquele que me disse mais, foi o primeiro e teve maior impacto.

Entre os meus autores favoritos também se encontram: Ana Teresa Pereira, Lídia Jorge e Italo Calvino.


Qual considera a melhor companhia para um livro? O café, a praia, o quentinho do sofá?

Todas, eu leio em todo o lado. Um bocadinho melhor se tiver, digamos, as costas apoiadas. Mas de todas as formas e mais algumas, eu leio em qualquer sítio.


Há algum grupo de autores que tenha influenciado mais a sua escrita?

Na altura não tive tanta consciência disso mas quando ia falando fui-me apercebendo que a Marion Zimmer Bradley teve bastante importância na trilogia, naquele período inicial. Embora o Tolkien seja aquele mais comummente identificado, para mim não foi o mais relevante. Para mim teve importância para eu perceber que o fantástico não se tinha de limitar ao infanto-juvenil, podia ser para um público adulto, que era igualmente válido e que podia resultar muito bem. Isto porque ainda não conhecia assim tanto da literatura fantástica quanto isso e não sabia que havia, mesmo para adultos, autores muito mais interessantes e estimulantes do que o Tolkien. Foi importante nesse sentido, não foi tão importante para mim enquanto autora.

Depois há um livro de Michael Cunningham, “As Horas”, que me deu uma outra ideia do jogo da linguagem, de começar a usar uma linguagem que mais do que servir a história fosse parte integrante da história. Isto é algo que eu tenho vindo a tentar incorporar cada vez mais e que para mim é cada vez mais relevante.

Também foram importantes o Neil Gaiman, a Margaret Atwood, o Virgílio Ferreira – que foi tristemente excluído das leituras obrigatórias do secundário; a maioria das pessoas odeia “A Aparição”, eu adorei, foi um daqueles livros que me marcou, e foi mais um dos que me deram essa noção da linguagem ser parte da história, e ao mesmo tempo de que qualquer coisa pode ser um recurso estilístico. Este pode ir a outro nível, deve-se usar e para isso é necessário ter a linguagem como utensílio chave da história que se está a contar e não apenas como uma ferramenta de trabalho. Portanto, a linguagem tem de ser conhecida por dentro e por fora.

Entretanto comecei a ler mais poesia; aos 14 ou 15 anos detestava poesia, a maior parte da que me apresentavam era daquela poesia “romantico-amorosa”, muitas vezes lamechas, e eu achava-a uma palermice! O ponto de viragem foi quando a minha mãe se zangou com esta história, e foi buscar o “Cântico Negro”, de José Régio, que se tornou um dos meus poemas preferidos. Ainda hoje o sei praticamente de cor.

Aí comecei a ler outra poesia, outros autores que me agradavam, e surgiu a Natália Correia, a Maria Teresa Horta, gosto muito de variadíssimos poetas mas de alguma forma tendo um bocado para as mulheres… Não porque tenham temáticas que me interessam mais, só porque de alguma forma o ritmo do poema me entra mais. Na literatura, e talvez mais na poesia, eu tenho a necessidade de… vamos chamar-lhe um feitiço, algo que me encante, que me prenda. Pode ser por variadíssimos motivos, mas muitas vezes a poesia delas tem mais esse efeito. Embora também haja muitos homens que façam isso – Elliot também é daqueles que me agarrou, ainda hoje consigo recitar poemas inteiros de cor. É o ritmo, é quase como se fosse um feitiço. E não é só a nível da poesia, a Carter também faz isso, é a questão de ter um ritmo, de ter algo que induza o leitor a qualquer coisa. A linguagem é necessária também para isso.

Mesmo a escrever, é algo com que me preocupo. Ao início escrevia sempre com música, muito indutora de sensações, mas agora nunca o faço – a música distrai-me da melodia e do ritmo da linguagem em si. Assim consigo prestar atenção ao que estou a escrever e não ao resto. E se por acaso a frase empanca, eu tenho que a reescrever. Parar ali, voltar para trás e voltar ao trabalho, para ela seguir, para ser fluida, quer seja um ritmo acelerado ou lento. A poesia também ajudou muito nisso.

Depois, já de épocas muito mais recentes, a Margaret Atwood, que tem outro livro que eu adoro, o “The Handmaid's Tale”, que é uma distopia, mas uma distopia contada de uma forma diferente. Agora, por causa de uma série de livros, habituamo-nos a ter distopias que são quase mini filmes de acção em livro. Naquele há um mundo distópico, mas é contado pelos pensamentos de uma pessoa que vive nesse mundo, que está privada de música, de literatura, de convívios… Portanto, percebemos a distopia não só no seu impacto social mas também no seu impacto individual.

Nesta altura, em termos de escrita, os modernistas foram daqueles que mais me levaram a, conscientemente, trabalhar a escrita noutro sentido – esta ideia que se iniciou com o Michael Cunningham, de usar a linguagem como parte integrante da história. De alguma forma, iniciei-me no modernismo com “The Sound and The Fury”; lembro-me perfeitamente de ter lido o livro e pensado, “Não estou a perceber metade disto, mas isto é extraordinário!” E ao mesmo tempo, de ter começado a pensar, “Mas isto é possível? Eu posso fazer isto com a linguagem?” Não há regras, a frase não tem de ter lógica gramatical, porque nós não pensamos sempre com a lógica gramatical certa. Claro que isto é um jogo que tem de ser muito bem pesado, feito com muito cuidado porque rapidamente descamba, mas não tenho que estar presa por isto – aquela ideia de que primeiro conhece-se a regra, sabe-se usá-la muito bem, e depois subverte-se tudo, e torna-se muito mais divertido.

Depois comecei a ver isto em livros que já tinha lido, mesmo de autores portugueses, e começar a perceber isto de outra forma. Começar a ver não só camadas de significado, com vários aspectos de uma história, mas também diferentes níveis de uso da linguagem. Uma das grandes mudanças foi essa.

Uma pequena nota à parte – um dos vários motivos para ter escolhido o mestrado em Literatura Anglo-Americana foi porque uma das leituras obrigatórias é o “The Sound and The Fury”, e eu achei que precisava de estudar aquele livro. Precisava de o perceber, pois sabia que não o tinha percebido todo… Depois, quando o reli, pensei, “Ah, pois… eu na altura não percebi nada!” Agora já o devo ter lido umas 7 vezes, fiz um trabalho sobre ele. É um daqueles livros que acho que toda a gente deve ler, não o vai perceber a primeira vez, mas pronto!


Agora, umas perguntas mais dirigidas às suas obras… As personagens são baseadas em alguém que conheça?

Não, ou tanto quanto o consigo não. Eu tenho muito a mania de que sou ficcionista, e gosto de fazer ficção e não auto-biografia disfarçada… Tento evitá-lo ao máximo, quando uma personagem é parecida com alguém, tento afastá-la um bocado. Mas claro, é inevitável que haja algumas parecenças, da mesma forma que há com todos nós. Pode soar um bocado pretensioso, mas mais do que ter personagens, eu tento ter pessoas imaginárias. Portanto, se calhar vou ter algumas semelhanças, mas não penso, “Quero usar isto desta pessoa.” É inevitável que isso transpareça, porque por mais que eu invente, qualquer coisa que eu invente é necessariamente baseada naquilo que eu conheço, nem que seja por oposição. Depois, para além das questões literárias, há outra parte pessoal – acho que é extremamente desagradável uma pessoa verter num livro outra pessoa qualquer.


Gostava de ver alguma das suas obras adaptada ao cinema ou à televisão?

A priori, não tenho problemas, mas é extremamente improvável – vivemos em Portugal, não nos Estados Unidos, nunca houve orçamento para esse tipo de aventuras, e agora muito menos. Mas televisão, cinema, até eventualmente teatro… Sou perfeitamente fascinada por cinema e por teatro, mas não sei até que ponto me deveria meter nisso. Provavelmente o melhor seria afastar-me e deixar que outros lidassem com o assunto, até porque, por mais que eu tente ser racional, sou inevitavelmente um pouco possessiva relativamente aos livros, e fazer uma adaptação é sempre uma tradução para outro meio, com outro tipo de linguagens, de técnicas e componentes relevantes. Seria melhor afastar-me desse processo, mas não me importaria nada de o ver, desde que seja feito com respeito, e que as ideias essenciais da obra estejam lá – muito mais importante do que os eventos específicos, é que as personagens não se tornem outras personagens, que o âmago do livro, dos assuntos tratados, estejam lá.


Já alguma vez encontrou alguém a ler um livro seu num transporte público, na rua, num local público?

Já encontrei alguém a comprar o livro. Mas, normalmente, se ele for para a direita eu vou para a esquerda, e afasto-me imediatamente o mais possível. (risos) Tem sempre uma certa componente de... não é bem vergonha, mas fico um bocadinho atrapalhada. Não quero que a pessoa sinta de maneira nenhuma que a estou a observar, ou que está a ser pressionada. Tento deixar a pessoa em paz com o livro, como eu também gostaria de ser deixada em paz. Claro que, enfim, numa Feira do Livro é um bocadinho diferente. Uma pessoa tem quase a obrigação de dizer "Esteja à vontade, se quiser perguntar alguma coisa". Em geral, sabe-se que nós estamos ali, pelo menos nota-se que estão ali umas pessoas sentadas que se calhar estão ali a fazer alguma coisa, que não a registar os livros. Mas quase sempre se encontro alguém tento afastar-me, e acho que se algum dia encontrar alguém a ler o meu livro vou tentar fazer o mesmo, para a pessoa também não se sentir ali na obrigação de dizer "Ai sim sim, é muito interessante!".


No processo da escrita, vai mostrando a alguém o trabalho, ou só quando já está acabado?

Quase sempre, eu só falo do livro, só mostro o livro quando ele tem o último ponto final.

O último ponto final da última página, então eu imprimo o livro e entrego a algumas pessoas em quem confio, que fazem uma leitura e apontam uma série de questões, seja gramaticais, porque não perceberam esta frase ou porque acham que aquela parte é confusa e não a perceberam tão bem. Depois pego nessas opiniões todas, deixo correr pelo menos um mês até reunir tudo isso, e faço a minha própria leitura, os meus apontamentos, e revejo o livro do princípio ao fim.

Este livro está a ser um bocadinho diferente, porque o estou a escrever já há quatro anos. Interpôs-se muita coisa pelo meio, o mestrado e uma série de outras complicações que nunca pensei que aparecessem, mas que me fizeram estar parada durante quase um ano, e portanto com este livro está a ser bastante mais lento, e ao mesmo tempo o que está a acontecer é que, em especial num ano, ele teve uma grande mudança, mudei-lhe o tom e a estrutura, portanto revi-o, e estou a reescrever também partes iniciais que acho que não são estilisticamente coerentes com o resto e que poderiam estar melhor de outra forma.

Há sempre uma fase do processo de escrita que não é propriamente angustiante, mas que às vezes cria muita ansiedade, porque é uma fase em que começo sempre a questionar. Não quando estou a escrever. Quando a estou a escrever, em geral, estou surpreendentemente calma. Mas no momento em que fecho o ficheiro, em que desligo o computador, começo imediatamente a pensar "Isto se calhar não está bem escrito", "Isto não deve estar bem exposto, "Isto não é suficientemente entusiasmante", porque agora toda a gente diz "O livro não me entusiasmou, não acontecia nada". E depois começo a imaginar as reacções de uma variedade de leitores, existentes ou inexistentes, não interessa muito. E começa a ser um processo com muitas dúvidas, não no sentido em que vou ali mudar, porque eu sei o que é que quero fazer com o livro. Sei sempre qual é o meu objectivo - tento ser não fiel a mim, não fiel aos leitores, mas fiel ao livro - e não o vou mudar independentemente das dúvidas, das crises existencialistas todas. Mas chega de qualquer forma uma altura em que começo a ficar com dúvidas. E agora, também porque já passou tanto tempo, tenho partilhado um bocadinho mais, mas com apenas duas pessoas, e sempre um bocadinho às vezes a contragosto, para de alguma forma ir tendo já uma reacção e ficar um bocadinho mais tranquila. Mas, regra geral, tendo a não mostrar, porque percebi que resulta mal. As pessoas tendem a criar expectativas. Digamos que descobri que os livros, até serem publicados, funcionam muito bem, mas é na minha cabeça. E se eu tento explicar, dizer "O livro é sobre isto", as pessoas criam uma série de ideias, muitas vezes erradas, e pensam "Vai ser este o assunto, vai ser esta a abordagem", e depois não é. E acontece um bocadinho aquela questão, que acho que mesmo assim às vezes acontece quando uma pessoa lê uma sinopse e a sinopse sugeria de alguma forma uma coisa, e o livro depois não tem nada a ver com isso. E se calhar o livro até é igualmente bom, ou até melhor. Ou pior, não interessa. Mas a verdade é esta: começou-se a ler com esta expectativa, com esta ideia, com este conjunto de assumpções. Portanto, eu prefiro que não haja isso, e daí tender a não falar deles enquanto eles não estão prontos. A partir do momento em que ele está pronto eu consigo, digamos, compartimentalizar o livro e perceber "Isto pode dizer-se sem criar expectativas erradas", e "A partir daqui é melhor estar quietinha e não dizer mais nada". E ao mesmo tempo vendo o livro, as pessoas podem lê-lo imediatamente, e não estão não sei quantos meses a pensar "Se calhar vai ser isto ou aquilo".

Eu trabalho, quando estiver pronto é óptimo, e aí podem dizer tudo o que quiserem. Eu também sei que, seja as primeiras pessoas a quem mostro o livro seja depois futuros leitores, podem sempre dizer o que querem, porque eu ponho o livro cá fora. Portanto, eu arrisco-me a que haja variedade de opiniões e interpretações diferentes. Eu posso concordar ou posso discordar, há algumas interpretações que eu nem vejo como é que lá chegaram, mas é tudo válido. Aliás, em termos de literatura, eu costumo dizer que eu consigo sempre defender a minha análise literária porque consigo arranjar argumentos que justifiquem aquilo. E portanto qualquer análise literária vale independentemente da intenção autoral, que no fundo acaba por não ser chamada para nada a partir do momento em que o livro saiu. Estando o livro fora, de alguma forma deixa de me pertencer. Claro que eu posso achar que há algumas interpretações que não sei onde foram buscar, e posso achar que algumas críticas podem ser mais ou menos justas.

Em geral sou extremamente autocrítica, portanto quando vejo uma crítica negativa (e isto torna-se um bocado horrível mas é mesmo assim), presto-lhe muito mais atenção do que a uma crítica positiva. Perante uma crítica negativa, eu obrigo-me a ponderar se qualquer um daqueles aspectos me parece verdadeiro, no sentido de futuramente evitar fazer certas coisas, e acho que no geral consigo ser mais ou menos justa nesse processo. Há situações em que também acho que não têm razão, às vezes também peço opiniões externas, mas ao fim de 10 anos já consigo não ficar minimamente atormentada com a questão. Também sei que há fases em que se está mais ou menos preparado para ler determinado livro, e eu também li muita coisa para a qual não estava minimamente preparada. Quando tinha 8 anos metia na cabeça que queria ler um livro e ia às escondidas pegar no Amor de Perdição de Camilo, e achei que aquilo era uma seca brutal. E passado uns anos li-o e de facto não é nenhuma seca, pelo contrário. Às vezes isso também influencia. Portanto de momento isso já não é um processo que me assombre, de maneira alguma. Depois eu tiro as minhas ilações e as minhas conclusões e, para além de dar mais importância à crítica negativa, tento não ficar a valorizar demasiado as críticas positivas. Adoro lê-las, é muito bom.

Mas, a crítica positiva é extremamente perigosa porque hoje em dia, uma pessoa arranja sempre quem lhe diga que é um génio e, se uma pessoa começa a ponderar mais as críticas positivas, convence-se de que é muito bom, que é extraordinário, e há uma estagnação. Começa a ficar-se parado e a não evoluir, e isso para mim é a parte essencial: a evolução e não ficar ali no lodaçal ou no pântano.

Portanto não tenho problema nenhum em dizer que há montes de coisas nos meus primeiros livros que eu não faria assim hoje, e que nem sequer acho que sejam muito bem feitas, da mesma forma que acho que também tenho muitas virtudes e pontos muito bons. Ambas estas partes para mim estão bem. O que me deixaria preocupada seria se eu olhasse hoje para os meus primeiros livros e dissesse que são óptimos, perfeitos. Isso sim, seria preocupante. Mas o resto não, acho que faz parte.




Amanhã publicamos o resto da entrevista e a opinião, estejam atentos :)

Pensamento do Dia


"Felicidade é pontual, não absoluta, é múltipla, etapas cruzadas, afloradas, apropriadas, perdidas, recuperadas. Irreal julgá-la meta, ponto longínquo alcançável que atingido se prolongará magnífico ad aeternum. Aconteceria, não a marcaria como objectivo."

Inês Botelho

Um Fim de Semana com ...


Com as férias a terminar, não podíamos deixar de preparar uma surpresa para este último fim-de-semana de Agosto. Desta vez, vamos dedicá-lo à autora Inês Botelho e ao seu livro O Passado que Seremos
Hoje publicaremos a entrevista que realizamos com a autora. Aproveitem para espreitar também o pensamento do dia.
Acompanhem-nos nos próximos dias para mais novidades .:)