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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Resultado Passatempo 1° Aniversário (#4) - Carla Lima

Chegou ao fim o nosso quarto passatempo de aniversário, e portanto está na altura de revelar quem vai receber o exemplar oferecido pela Carla Lima.


Tivemos 121 participações individuais, sendo que 99 foram válidas.
Após verificação da partilha do passatempo numa rede social, tivemos um total de 179 participações válidas.
O sorteio foi realizado via random.org, que ditou que o vencedor é ...
 

 

 
Parabéns Ana Vieira!
Receberás em breve um e-mail da nossa parte. Desejamos-te uma boa viagem literária! :)


A todos os que participaram, muito obrigada, e esperamos que continuem a tentar! Nunca se sabe quando será a vossa vez de vencer!


Boas viagens,

Bloguinhas

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Passatempo 1° Aniversário (#4) - Carla Lima

Na verdade, a Carla Lima não nos deixou apenas uma prendinha neste nosso aniversário! Deixamos mais uma vez aqui o nosso grande obrigado à Carla Lima pela sua colaboração.


Assim, o blog em colaboração com a Carla Lima tem para oferecer o seguinte exemplar a 1 leitor sortudo!

Excerto:

- O que estás a fazer?
- Estou a fingir que estou morta
- Porquê?
- Porque me apetece. Importas-te?
- Mas porquê?
- Porque antes estar morta do que viver assim
- Assim como?
- Numa prisão
- Numa prisão?
- Estou presa a ti
- Estamos presos um ao outro
- Nem a fingir de morta me deixas em paz"


As participações são válidas até ao dia 29 de Abril de 2015. Leiam atentamente as regras de participação. O vencedor será contactado por email. O envio do livro está a cargo da autora.


Regras de Participação:

1. Apenas será permitida uma participação por pessoa/email.
2. A partilha numa rede social (Facebook, Twitter, Google+) permite uma entrada extra no passatempo.
3. Para participar é obrigatório ser seguidor do blog Bloguinhas Paradise. 
4. Para participar é obrigatório colocar "gosto" na página do Facebook de Bloguinhas Paradise.
5. Colocar "gosto" na página do Facebook do livro "O Baloiço Vazio".
6. Os vencedores será determinado pela aleatorização das participações válidas.
7. Neste passatempo apenas serão aceites participações de residentes em Portugal Continental e Ilhas.
8. O blog e a editora não se responsabilizam por eventuais extravios dos CTT.



Pensamento do Dia

 
"Não sinto dor física. Nunca senti. Um estalo, uma palmada, uma queda. O lábio rasgado e o dente partido no jardim-de-infância. A cara com gravilha e sangue depois da queda de bicicleta. O entorse no joelho na aula de dança. O pulso partido a tentar fazer o pino. A única vez que o meu pai me bateu. Nada disso me doeu. Mas a dor que não é física mata-me."

Carla Lima

 
(Este pensamento do dia foi sugerido pela autora. Trata-se de um dos seus excertos favoritos do seu livro "O Baloiço Vazio".

O Nosso Obrigada à Carla Lima


E foi com a Carla Lima que passamos o nosso mês de Novembro!

Para os mais distraídos, deixamos aqui a marca que a Carla Lima deixou no Bloguinhas Paradise!
 
 
E estando nós de parabéns, a Carla Lima deixou uma prendinha para nós e para os nossos leitores. Um texto que pode ou não fazer parte do próximo livro ;)


A VELHA E O VELHO

"O verdadeiro mal da velhice não é o enfraquecimento do corpo, é a indiferença da alma."

André Maurois

1.

Chovia. A velha segurava uma chávena de chá. Chá verde. A velha olhava pela janela da cozinha. Observava as vacas deitadas nos pastos pintados de verde. O branco e preto das vacas a dissolverem-se na relva. A velha chorava. Chorava pelas vacas molhadas pela chuva. E a chuva insistia. Pingos grossos de água a caírem do céu e dos olhos da velha. Pingos na relva. Verde. Pingos no chá. Verde.
O velho entrou na cozinha. Olhou para a velha. O velho suspirou.
- O que é que se passa agora?
- São as vacas.
- As vacas?
Parou de chover. A velha limpou as lágrimas dos olhos. Já não caíam pingos de água. Nem do céu, nem dos olhos da velha. Nem nas vacas. Nem na relva, nem no chá. Verde.
A velha olhou para o velho. A velha suspirou.
- Queres chá?
- E as vacas?
- As vacas?
Já não chovia. A velha bebeu um gole da chávena de chá. Chá verde. A velha olhou pela janela da cozinha. Observou as vacas deitadas nos pastos pintados de verde. O branco e preto das vacas a dissolver-se na relva. A velha sorriu.

2.

A culpa foi do relógio. Foi por causa de um relógio que tudo começou. Não o casamento. O amor. Se foi à primeira vista ou não nenhum o dirá, nem a velha, nem o velho. Amor à primeira vista. Não casamento à primeira vista. Mas que foi o relógio ambos dirão que sim. Ou talvez não. O velho é distraído. Nem se deve ter apercebido que tudo começou por causa do relógio.
A velha nova não procurava amor. Aliás, odiava amor ou qualquer coisa que se parecesse com tal.
Mas um dia a velha nova foi a um baile e uma empregada da mãe disse-lhe:
- Quando fores logo ao baile usa os teus sapatos vermelhos.
E assim fez a velha nova. Usou os seus sapatos vermelhos. E o velho usou o relógio do avô. Mas a velha nova ainda não sabia.
No baile a velha nova viu o velho novo ao longe e confundiu-o com outro rapaz. Acenou. O velho ficou maravilhado e não conseguiu tirar os olhos da velha nova durante o baile inteiro. A velha nova envergonhada pela confusão passou o baile a fugir daquele rapaz que a perseguia. Até que o velho novo chegou ao pé da velha nova e atirou-lhe literalmente com um copo de vinho tinto para cima. A velha nova ficou em estado de choque e só conseguiu olhar para o relógio do velho novo. O velho novo ficou radiante por finalmente ter chamado a atenção da velha nova. A velha nova ainda em estado de choque só conseguiu dizer:
- Tens um relógio igual ao do meu avô!
E o velho novo respondeu:
- Queres um copo de vinho tinto?
A velha nova riu-se e a partir daí nunca mais se largaram. Mas se foi amor à primeira vista nenhum dos dois sabe dizer. A velha diz que a culpa é do relógio. O velho diz que a culpa é da velha por se ter rido. E nenhum dos dois culpa os sapatos vermelhos.

3.

O velho na cozinha a fazer ovos estrelados. A velha sentada à mesa. O velho:
- Às vezes, não percebo os ovos.
O velho a olhar a frigideira fixamente.
A velha:
- Os ovos são muito complicados. Até hoje ainda não se sabe quem nasceu primeiro. Se o ovo, se a galinha.
A velha riu-se.
O velho desviou os olhos da frigideira de encontro à velha.
- O quê?
A velha suspirou.
O telefone tocou. O velho:
- Continuo sem perceber os ovos. Fazem o que querem.
O velho desligou o lume e deixou os ovos em paz na frigideira. Andou com andar de velho até ao telefone e levantou o auscultador do telefone:
- Sim?
Do lado de lá alguém falou com voz feminina. O velho respondeu:
- Mais um?
O velho balbuciou algumas palavras que a velha não conseguiu ouvir. O velho desligou o telefone. Suspirou. O velho andou com andar de velho até à cozinha. Olhou para a frigideira. Uma gema rebentada. O velho:
- Não percebo. Os ovos fazem mesmo o que querem.
A velha suspirou. Depois perguntou:
- Quem era?
- A tua neta.
- Matou mais um?
- Sim.
- Será que ela usou os sapatos vermelhos como lhe disse?
- O quê?
A velha suspirou.


FIM

Mais uma vez, o nosso muito obrigada à Carla Lima. Desejamos-lhe as maiores felicidades e sucesso!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Resultado do Passatempo "O Baloiço Vazio"

Chegou ao fim o nosso passatempo, e portanto está na altura de revelar quem vai receber em casa o livro de Carla Lima, oferecido pela própria autora!


Tivemos 97 participações individuais, sendo que 66 foram válidas.
O sorteio foi realizado via random.org, que ditou que o vencedor é...





Parabéns Ana Abreu!
Receberá em breve um e-mail da nossa parte. Desejamos-lhe uma boa viagem literária! :)


A todos os que participaram, muito obrigada, e esperamos que continuem a tentar! Nunca se sabe quando será a vossa vez de vencer!


Boas viagens,

Bloguinhas

domingo, 9 de novembro de 2014

Passatempo - "O Baloiço Vazio", Carla Lima (#9)

Pois é, o fim-de-semana com a Carla Lima está quase a acabar, e isso quer dizer que temos mais um passatempo! Um leitor sortudo irá ter a oportunidade de ler "O Baloiço Vazio". Se leram a entrevista à autora e a opinião ao seu livro, decerto ficaram curiosos sobre a sua obra.



As participações são válidas até ao dia 30 de Novembro de 2014. Leiam atentamente as regras de participação. O vencedor será contactado por email. O envio do livro está a cargo da autora Carla Lima.

Regras de Participação:

1. Apenas será permitida uma participação por pessoa/email.
2. Para participar é obrigatório ser seguidor do blog Bloguinhas Paradise
3. Para participar é obrigatório colocar "gosto" na página do Facebook de Bloguinhas Paradise.
4. Colocar "gosto" na página do Facebook do livro "O Baloiço Vazio".
5. O vencedor será determinado pela aleatorização das participações válidas.
6. Neste passatempo apenas serão aceites participações de residentes em Portugal Continental e Ilhas.


Pensamento do Dia


"Tenho uma teoria sobre amores-perfeitos. Quando se encontram nunca ficam juntos pois a felicidade é tanta que não aguenta menos felicidade. E separam-se."



Carla Lima, O Baloiço Vazio

sábado, 8 de novembro de 2014

Posso Perguntar? Posso? - com Carla Lima

Os mais atentos já devem ter visto o nome Carla Lima aqui pelo blogue aquando da publicação da opinião da Tomé sobre o seu primeiro livro - O Baloiço Vazio, a qual podem ler (ou reler) aqui. Uma vez que a Bloguinha Tomé gostou tanto da obra ficamos muito contentes com a disponibilidade da Carla para responder às nossas peguntinhas :)


Entrevista: 

Quando é que começou a escrever? 

Comecei a escrever muito nova. Na escola primária adorava fazer as composições de português e sei que a minha professora ficou com alguns textos meus para usar em manuais infantis. Mas perdi o contacto com ela e nem sei se ela alguma vez os usou. Depois comecei a escrever um diário onde ficcionava a minha vida. Na adolescência, devido aos desgostos de amor, comecei a escrever poemas e participei numa antologia de poesia e contos. Quando fui para a Universidade como estudei escrita para Audiovisuais comecei a escrever por motivos profissionais. Escrevi para rádio, cinema, televisão, internet, etc. A escrita literária mais a sério veio com o Curso de Introdução à Criação Literária com a escritora Rita Ferro, de onde nasceu o livro “O baloiço vazio”.

Qual é o primeiro livro que se recorda de ler?

Comecei a ler muito nova. Não me recordo exactamente do primeiro livro. Mas sei que dos primeiros livros que li foi a colecção toda de “Os Cinco” da Enid Blyton.

Qual é o próximo livro na sua lista de leitura?

Costumo ter sempre quatro ou cinco livros na minha mesinha de cabeceira. Mas o que está agora na lista de espera é “Morder-te o coração” da Patrícia Reis.

Quais são os seus livros preferidos? E autores?

Tantos! Os meus livros preferidos são livros que me marcaram em determinada fase da minha vida e são livros que releio ou que sinto necessidade de voltar a eles. E são muito diferentes uns dos outros. Aqui vai: “A História Interminável”, de Michael Ende; “Crimes Exemplares”, de Max Aub; “Romeu e Julieta”, de Shakespeare; “A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera; “Nos teus braços morreríamos”, de Pedro Paixão; “Azul Turquesa”, de Jacinto Lucas Pires; “Sonetos”, de Florbela Espanca e “O retracto de Dorian Gray”, de Oscar Wilde. A lista pode ser um bocadinho ecléctica mas eu gosto de ler um bocadinho de tudo e faltam aqui livros, mas estes são aqueles que mais me inspiraram ou cativaram de uma maneira ou de outra. Em relação a autores, o meu autor preferido é o Pedro Paixão. Tenho todos os seus livros e adoro a sua escrita. Também adoro Florbela Espanca, Fernando Pessoa, Milan Kundera, Julian Barnes e Haruki Murakami.

Qual a melhor companhia para um livro? Um café, a praia, o quentinho do sofá?

A melhor companhia para um livro é a cama. (risos) Para mim a melhor altura do dia para ler é à noite antes de ir dormir. Só a luz do candeeiro da mesinha de cabeceira e o quentinho dos cobertores são o melhor para apreciar um bom livro. Ler até adormecer é do melhor.

Que autores influenciaram a sua escrita?

Acho que o Pedro Paixão é a minha maior influência mas gosto de pensar que tenho uma voz própria ou que estou a tentar criar uma. Outras influências são autores que gosto de ler e que abordam temas que eu também abordo tais como o Julian Barnes, o Raymond Carver, a Florbela Espanca. Quando era mais nova li a saga toda do Adrian Mole escrita pela Sue Townsend e acho que esse humor sarcástico também influenciou a minha escrita.

O que a inspirou ao escrever O Baloiço Vazio?

“O baloiço vazio” nasceu no Curso de Introdução à Criação Literária com a escritora Rita Ferro. Inscrevi-me no curso porque estava farta do meu trabalho das 9h às 18h e precisava de algo criativo para extravasar, porque nessa altura o meu trabalho não tinha nada a ver com escrita. Na primeira aula a Rita disse que o objectivo do curso era escrever um livro em três meses. Eu pensei que ela estava louca. O curso era uma vez por semana e tínhamos de levar cinco páginas por aula no mínimo. Na aula seguinte não levei nada. Todos os meus colegas levaram. A Rita zangou-se comigo e disse que se não estava ali para escrever, mais valia desistir do curso. Eu disse-lhe que não tinha nada para contar e que pensava que ela ia ensinar como se escrevia um livro. Ela respondeu que não se ensina a escrever um livro e que toda a gente tem algo para contar. E que como castigo na aula seguinte eu teria de levar dez páginas ou desistia do curso. Fui para casa. Não conseguia dormir. Levantei-me da cama, abri o portátil, meti o cd da banda sonora do filme “O fabuloso destino de Amélie Poulain” em loop, a minha gatinha persa branca Nelly aninhou-se no meu colo e comecei a chorar. Escrevi a primeira frase. E nunca mais consegui parar. Todos os dias quando chegava do trabalho abria o portátil, a Nelly aninhava-se no meu colo, metia o cd em loop e começava a chorar e a escrever. O livro foi todo escrito assim. Semanalmente levava as páginas escritas para a aula que eram lidas em voz alta e comentadas pela Rita Ferro e pelos colegas.

O livro não foi pensado. Os capítulos e as personagens foram nascendo à medida que fui escrevendo. Não tive propriamente inspiração. O livro foi algo que teve que nascer. Nunca na vida pensei em conseguir escrever um livro até ao fim porque ao contrário do que muitas pessoas pensam escrever um livro é muito difícil. É um processo doloroso. Mas no final compensa.

Gostava de ver O Baloiço Vazio adaptada ao cinema/televisão?

Adorava ver “O baloiço vazio” adaptado ao cinema. Aliás, várias pessoas que leram o livro acharam que dava um bom filme. Devido à quantidade de diálogos e a algumas descrições que se assemelham a cenas cinematográficas. Quem sabe no futuro…

As suas personagens são baseadas em alguém que conheça?

Como primeiro livro senti a necessidade de ir buscar alguns tiques ou frases de algumas personagens a algumas pessoas que conheço ou conheci mas tentei ficcionar ao máximo. Quando lancei o livro as primeiras pessoas que leram pensavam que era um livro autobiográfico e que a personagem feminina principal era baseada em mim mas não é. Alguns acontecimentos ou situações podem ser coincidências mas é tudo ficcionado. Acho que é normal um bocadinho de nós estar no livro senão não é autêntico.

Já alguma vez se deparou com alguém a ler O Baloiço Vazio por exemplo num transporte público ou outro local? Como se sentiu?

Nunca me deparei com ninguém a ler “O baloiço vazio”. Mas o livro foi lançado há relativamente pouco tempo. O máximo que me aconteceu foi ver uma fotografia do meu livro num facebook de uma pessoa que não conhecia. E foi uma sensação incrível.

Quando escreve vai mostrando a alguém ou só no final pede opinião? E quem é a primeira pessoa a quem mostra o seu trabalho?

“O baloiço vazio” foi sendo mostrado à Rita Ferro e aos colegas do curso. Mas isso foi em Lisboa. Terminei o livro nos Açores. Antes de enviá-lo para as editoras mostrei-o ao meu pai que é sempre a primeira pessoa a ler tudo o que escrevo. Quer seja um poema, uma crónica para a rádio, o guião para uma curta-metragem. O meu pai é sempre a primeira pessoa a quem mostro o meu trabalho. Neste momento estou a tentar escrever o segundo livro e já tenho quase trinta páginas e ele é o único a quem vou mostrando o que vou escrevendo. Porque mesmo sendo o meu fã número um, o meu pai consegue ser crítico e quando não gosta ou tem alguma dúvida diz. E isso é muito importante para corrigir e evoluir.

Considera que se aposta nos autores portugueses ou que as editoras tem deixado escapar ou não dão a devida atenção e visibilidade a bons livros escritos por pessoas menos conhecidas?

A minha opinião sobre este tema é um bocadinho polémica. Porque o mercado está dominado pelas grandes editoras e quem consegue entrar nessas editoras é quem tem “padrinhos” ou quem ganha prémios. Acho que não há uma atenção muito grande há qualidade. Importante é se vende ou não. O produto pode ser péssimo mas se o marketing é muito bom quase toda a gente compra. Acho que só não vê quem não quer. Há livros e autores péssimos que vendem imenso só por terem uma boa máquina de marketing atrás deles e “o povo marcha tudo”. E depois há quem não tenha padrinhos ou cunhas ou não ganhe concursos literários, que para mim estão todos viciados, e que tenha de lutar para ter um lugarzinho ao sol. Mas nisto tudo o que é que é mais importante? Vender quem escreve ou o livro? Para mim continua a ser mais importante o livro. Por isso podem continuar a tentar vender-me “escritores” que eu vou sempre preferir as “palavras”. As boas palavras.

O que diria a alguém que se estiver a iniciar como autor?

A primeira coisa que diria é que tenha muito cuidado com a editora que escolhe. As editoras são umas cobras. Claro que não são todas mas eu infelizmente tive azar e falo por experiência própria. Nós somos os autores e temos de ser respeitados e não explorados e ignorados. Se não houvesse autores, não haveriam livros para as editoras venderem. E não é tratarem uns com paninhos quentes e outros como se fossem uns zés-ninguém. Há que tratar todos os autores com o mesmo valor e o mesmo respeito.

A segunda coisa é pensem bem antes de decidirem serem autores. É um mundo muito complicado. Há muito gente invejosa e mazinha porque toda a gente acha que escrever é muito fácil e toda a gente acha que sabe escrever. E falar mal é muito fácil. Se forem pessoas sensíveis como eu têm de ter muita força de vontade e muito estômago.

A terceira é se acham que têm talento acreditem sempre em vocês e não desistam. Escrevam, leiam, insistam. E ouçam as palavras de incentivo e os elogios que vos façam.

Quais são os seus projectos para o futuro?

Neste momento a minha prioridade é acabar o meu segundo livro e mudar de editora. O meu sonho era abrir a minha própria editora e descobrir novos talentos e tratá-los com a dignidade que os autores merecem. Mas aqui nos Açores, sendo um meio pequeno, é difícil. Mas ainda não se paga imposto para sonhar e “o sonho comanda a vida”.


Pensamento do Dia


"A chuva não lava a alma como dizem. A chuva molha."

Carla Lima, O Baloiço Vazio

sábado, 13 de setembro de 2014

Pensamento do Dia



"A tua mão esquerda a tocar a minha mão direita. Eu a arrepiar-me. Um arrepio de alegria. O meu estômago quentinho. O amor."



Carla Lima, O Baloiço Vazio

Opinião - "O Baloiço Vazio", Carla Lima

Sinopse

"Eu deitada na cama, de barriga para cima, com os olhos fechados e os braços cruzados sobre o peito,
- O que estás a fazer?
- Estou a fingir que estou morta
- Porquê?
- Porque me apetece. Importas-te?
- Mas porquê?
- Porque antes estar morta do que viver assim
- Assim como?
- Numa prisão
- Numa prisão?
- Estou presa a ti
- Estamos presos um ao outro
- Nem a fingir de morta me deixas em paz"



Opinião

Li o Baloiço Vazio de Carla Lima em poucas horas, porque não consegui abandonar Ana ao seu sofrimento e retomar a minha própria vida. Entre avanços e retrocessos, memórias, sonhos e delírios, Ana dá-se a conhecer como uma mulher perturbada, impulsiva, com um possível distúrbio de personalidade borderline, obcecada por Bruno e dependente da relação amorosa que os une. 

Ao conhecer Bruno desejei que ele fosse mais compreensivo, menos idiota, menos irresponsável, menos bruto. Na verdade, desejei que ele não fosse ele. Desejei que alguém amasse Ana ao ponto de aceitá-la em todas as suas fraquezas, em todas as suas loucuras, porque apesar de doentio o seu amor é inquestionavelmente verdadeiro. 

Perante um presente em que Bruno a rejeita, maltrata e despreza, Ana refugia-se nas lembranças do tempo em que se conheceram: o encantamento do primeiro sorriso, a doçura das primeiras palavras, o enigmático olhar ocultando misteriosos segredos, o encaixe perfeito de dois corpos. Todavia, não vemos as pessoas como elas são, mas como nós somos, e rapidamente a paixão, que nos ludibriava a visão, que nos toldava o raciocínio, baixa a guarda e conseguimos vislumbrar o monstro que escolhemos amar. Ana escolheu Bruno, e voltou a escolhê-lo mesmo depois das ofensas, da violência e do silêncio. Nunca amamos ninguém. Amamos tão somente a ideia que fazemos de alguém. é a premissa que inicia um dos capítulos e que, a meu ver, resume muito bem a relação de Ana e Bruno. 

Com A morte sempre presente no seu pensamento, mergulhada num relacionamento altamente destruidor, Ana tenta várias vezes o suicídio. Senti uma enorme compaixão por este ser tão fragilizado e só me apetecia dizer-lhe que procurasse outro psiquiatra, e fiquei irritada com todos que contribuíram para exacerbar o seu complexo de inferioridade, com todos os que lhe disseram que era demasiado burra, demasiado gorda, demasiado insuficiente para os seus sonhos. 

Em alguns momentos deixei-me sentar na cadeira de Bruno e percebi que também não era um lugar confortável. Subita e inesperadamente, com o avançar da narrativa, nasceram em mim sentimentos contraditórios, já não odiava Bruno, já conseguia justificar, não perdoar, mas justificar, em parte, o seu comportamento. E neste aspecto tenho de dar os parabéns à autora que em pouco mais de oitenta páginas conseguiu que tomássemos o partido da protagonista e repudiássemos Bruno para de repente nos deixar assolados por uma enorme culpa, porque não nos podíamos ter esquecido que na vida há sempre algo nos escapa, que não trazemos a verdade guardada num bolso, e nunca conhecemos o outro como a nós mesmos. 

Assim, quando acabei o livro fiquei com vontade de o reler porque estive sempre do lado da Ana e preciso de voltar ao Baloiço Vazio e repensar o que posso perdoar ou não ao Bruno, preciso de ver tudo pela sua perspectiva depois de saber o caminho que ele percorreu até ser o homem que entrou na vida de Ana. 

Para dizer o que menos me agradou teria de fazer um spoiler, para quem já leu digo apenas que há algo que o Bruno diz a Ana quando se conhecem que é essencial ao resto da narrativa, porém quando cheguei ao fim da leitura questionei-me até que ponto alguém seria tão mórbido a fim de dizer algo tão estranho. Acabei por ignorar este pormenor por me convencer que todos neste livro são loucos e com todo o direito a sê-lo. 

O final da história foi, para mim, delicioso por ser totalmente inesperado e macabro, o que me fez olhar para este livro como um conto de terror dos tempos modernos, um mito urbano a ser lido no escuro, com uma lanterna iluminando sombriamente o rosto e com o chiar de um baloiço vazio como ruído de fundo. 

Deixar-me envolver pelas personagens deste livro trouxe consigo algumas questões, tal que quando o pousei fiquei a embalar-me no baloiço das dúvidas: Até onde conhecemos as pessoas que amamos? De que serão elas capazes? Qual a primeira coisa que lhes invade o pensamento quando acordam pela manhã? E em que pensam antes de adormecer? Quantas vezes não nos terão mentido? Quantas vezes não nos terão usado? Quantas vezes não nos terão amado de uma outra maneira e nunca nos deixaram saber? Quantas vezes não nos terão odiado por aquilo que somos ou por aquilo que elas não são? Quantas vezes nos terão defendido, não porque fossemos inocentes, mas porque sentiram que era o seu dever fazê-lo? E se descobrissemos algo terrível a seu respeito? Amá-las-íamos de igual forma?


"Tenho uma teoria sobre amores-perfeitos. Quando se encontram nunca ficam juntos pois a felicidade é tanta que não aguenta menos felicidade. E separam-se." 


 
Obrigada à autora Carla Lima e ao Blogue Viajar Pela Leitura por esta leitura tão agradável e por terem trazido até à minha estante o meu primeiro livro autografado.