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terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Novidade Porto Editora - "Deus na Escuridão", Valter Hugo Mãe

Sinopse:

«Deus é exactamente como as mães. Liberta Seus filhos e haverá de buscá-los eternamente. Passará todo o tempo de coração pequeno à espera, espiando todos os sinais que Lhe anunciem a presença, o regresso dos filhos.»

Este livro explora a ideia de que amar é sempre um sentimento que se exerce na escuridão. Uma aposta sem garantia que se pode tornar absoluta. A dúvida está em saber se os irmãos podem amar como as mães que, por sua vez, amam como Deus. Passada na ilha da Madeira, esta é a história de dois irmãos e da necessidade de cuidar de alguém. Delicado e profundo, Deus Na Escuridão é um manifesto de lealdade e resiliência.

ISBN: 978-972-0-03099-3
Páginas: 272
Classificação Temática: Romance

Sobre o autor:

É um dos mais destacados autores portugueses da atualidade. A sua obra está traduzida em variadíssimas línguas, merecendo um prestigiado acolhimento em muitos países.

Autor dos romances: Deus na escuridão, As doenças do Brasil, Contra mim (Grande Prémio de Romance e Novela - Associação Portuguesa de Escritores); Homens imprudentemente poéticos; A Desumanização; O filho de mil homens; a máquina de fazer espanhóis (Prémio Oceanos); o apocalipse dos trabalhadores; o remorso de baltazar serapião (Prémio Literário José Saramago) e o nosso reino.

Escreveu alguns livros para todas as idades, entre os quais: Contos de cães e maus lobos, O paraíso são os outros, As mais belas coisas do mundo e Serei sempre o teu abrigo. A sua poesia encontra-se reunida no volume publicação da mortalidade. Assina as crónicas Autobiografia Imaginária, no Jornal de Letras, e Cidadania Impura, na Notícias Magazine. Com exceção da poesia, que tem chancela Assírio & Alvim, toda a sua obra está publicada pela Porto Editora.


Para mais informações consulta o site da Porto Editora aqui.


Caso queiras comprar o livro através da WOOK ou da Bertrand livreiros, podes usar ainda os nossos links de afiliados:

domingo, 4 de agosto de 2019

Opinião " a máquina de fazer espanhóis", de Valter Hugo Mãe

Sinopse

a máquina de fazer espanhóis é um dos mais importantes romances contemporâneos. Surpreendente retrato da vida dos velhos, este livro fala intimamente dos fantasmas da portugalidade e da candura que, afinal, existe mesmo nos momentos mais tristes.

A vida de um barbeiro reformado é o modo de ilustrar os conceitos de família e solidão, amizade e compromisso.

Este é um livro delicadíssimo, corajoso e inesquecível.









Opinião

a máquina de fazer espanhóis constituiu a minha maravilhosa estreia com o escritor Valter Hugo Mãe. Tinha para este romance grandes expectativas porque me havia sido recomendado com grande fervor e emoção, e sempre me comove quando alguém revela sentimentos tão fortes ao falar de livros. Eventualmente tanto tornei público o meu desejo de ler este livro (e a minha recusa em comprar mais livros!) que acabaram por mo oferecer. (Yeii!!) 

Começo por dizer que as minhas expectativas foram largamente correspondidas. a máquina de fazer espanhóis é um livro triste mas necessário, uma lente de aumento sobre a perda e sobre a vida depois da perda, sobre as pequenas conquistas quando já não nos achamos lá grandes conquistadores. 

Valter Hugo apresenta-nos um jovem de 83 anos, António Silva, um português tão vulgar quanto o seu nome, que se vê enclausurado no Lar da Feliz Idade após a morte da sua amada Laura com quem havia partilhado quase toda a sua vida. O senhor Silva chega ao lar depletado de toda a sua anterior existência, como demais sempre acontece a quem subitamente se vê sem metade do que é. Revoltado e profundamente infeliz vive dias de tormento na sua nova morada. Além da perda de Laura, vê-se face a uma solidão que desconhecia, longe dos seus e para os quais sempre viveu, sente-se inferior pelas suas limitações e dependências, vive entre a lucidez e o estado confusional, toldado pelas debilidades próprias da idade. Sente até que a sua existência não é mais merecedora de qualquer espécie de felicidade, nem de um raio de sol que seja, seria uma afronta qualquer alegria na ausência da Laura. Mas para sua infelicidade o sol continuou a nascer todos os dias aquecendo o pátio do Feliz Idade, onde o Senhor Silva conheceu outros sui generis residentes, com os quais criou uma pequena irmandade, tornando assim muito mais leve a agoniante espera pelo derradeiro fim. 


Pode dar-se o caso deste livro não ser tão bom como eu o considero, na verdade, há em mim muita empatia para com livros sobre a perda e sobre a morte, pois sempre foram um refúgio quando precisei de lidar com tristezas dessa ordem de grandeza. Se não querem sentir-se tristes não leiam a máquina de fazer espanhóis, pois Valter Hugo Mãe, numa mestria comovente, faz-nos sentir a dor do senhor Silva, uma dor que nos assombra a cada página, uma revolta por sentirmos que ele não merece acabar assim e que nos faz lembrar que todos vamos acabar assim. É como se umas pequenas mãozinhas saíssem das páginas do livro e puxassem a nossa cabeça para mais perto do sofrimento do protagonista, e ficamos abatidos por uma mágoa arrebatadora que tomamos como nossa. 

Valter Hugo escreve de forma tão genuína e factual, que parece que estamos a espreitar por uma janela do Lar da Feliz Idade, vendo as peripécias e os desgostos dos seus residentes, e conta-nos tudo de uma forma capaz de rapidamente nos fazer passar de um rasgado sorriso para uma gorda lágrima. 

Além da narrativa óbvia, das páginas de saudade, amor e amizade, o escritor vai atirando ao leitor umas sementes, deixando-o à vontade para as germinar e ler entre as entrelinhas a crítica social, as questões da identidade, do existencialismo e da fé, os efeitos nocivos de um fascismo que não está assim tão distante e que ainda faz sentir as suas sequelas. 

Quanto à escrita de Valter Hugo Mãe, sempre em minúsculas e sem discurso directo, se em alguns momentos me foi indiferente noutros atrapalhou-me e fez-me reler páginas inteiras. O que por vezes também me acontece com livros de Saramago, defeito meu, portanto. De resto, é uma escrita musical, cuidada, mas que soube pôr-se ao nível dos personagens. É em suma, um romance espantosamente bem escrito e que em muitos momentos me fez pensar que merece uma segunda leitura só para apreciar cada frase em detalhe sem a pressa de saber como acaba a história. 

Apesar de tudo, não deixa de haver um elogio à nossa capacidade de nos reinventarmos e nos superarmos, de sermos resilientes mesmo quando não sabemos o que é a resiliência. 

Termino com um excerto de a máquina de fazer espanhóis, poderia ter escolhido imensas outras passagens, mas esta foi a que me deixou no abismo da lágrima fugitiva. 

“quando queremos que o tempo nos faça fugir de alguma coisa, de um acontecimento, inicialmente contamos os dias, às vezes até as horas, e depois chegam as semanas triunfais e os largos meses e depois os didáticos anos. mas para chegarmos aí temos de sentir o tempo também de outro modo. perdemos alguém, e temos de superar o primeiro inverno a sós, e a primeira primavera e depois o primeiro verão, e o primeiro outono. e dentro disso, é preciso que superemos os nossos aniversário, tudo quanto dá direito a parabéns a você, as datas da relação, o natal, a mudança dos anos, até a época dos morangos, o magusto, as chuvas de molha-tolos, o primeiro passo de um neto, o regresso de um satélite à terra, a queda de mais um avião, as notícias sobre o brasil, enfim, tudo. e também é preciso superar a primeira saída de carro a sós. o primeiro telefonema que não pode ser feito para aquela pessoa. a primeira viagem que fazemos sem a sua companhia. os lençóis que mudamos pela primeira vez. as janelas que abrimos. a sopa que preparamos para comermos sem mais ninguém. o telejornal que já não comentamos. um livro que se lê em absoluto silêncio. o tempo guarda cápsulas indestrutíveis porque, por mais dias que se sucedam, sempre chegamos a um ponto onde voltamos atrás, a um início qualquer, para fazer pela primeira vez alguma coisa que nos vai dilacerar impiedosamente porque nessa cápsula se injeta também a nitidez do quanto amávamos quem perdemos, a nitidez do seu rosto, que por vezes se perde mas ressurge sempre nessas alturas, até o timbre da sua voz, chamando o nosso nome, ou mais cruel ainda, dizendo que nos ama com um riso incrível pelo qual nos havíamos justificado em mil ocasiões no mundo.”


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Pensamento do Dia


"A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exactamente em ti."

- Valter Hugo Mãe, in A Desumanização

Opinião - "A Desumanização", Valter Hugo Mãe

Edição: 2013
Páginas: 238
ISBN: 9789720044945

Goodreads: mais informação aqui.


Sinopse


"Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas."


Passado nos recônditos fiordes islandeses, este romance é a voz de uma menina diferente que nos conta o que sobra depois de perder a irmã gémea. Um livro de profunda delicadeza em que a disciplina da tristeza não impede uma certa redenção e o permanente assombro da beleza.

O livro mais plástico de Valter Hugo Mãe. Um livro de ver. Uma utopia de purificar a experiência difícil e maravilhosa de se estar vivo."



Opinião

Valter Hugo Mãe era um nome que me andava nos ouvidos há já algum tempo, a fama do seu estilo de escrita precedendo-o. Por isso, quando foi lançado “A Desumanização”, e vi uma reportagem sobre o tempo que o autor passou na Islândia na sua pesquisa para o romance, não hesitei em trazê-lo para casa – onde tem estado, na minha estante, à espera da sua vez de ser lido. Confesso que o fiz nesta altura pela aproximação da Feira do Livro do Porto, onde creio que o autor estará presente.

O livro divide-se em duas partes, cada uma delas separada do resto do tempo por um evento marcante para Halla, a narradora e protagonista. Conhecemo-la quando a sua irmã, Sigridur, morre de uma doença desconhecida. Halla e Sigridur não são apenas irmãs, nem sequer apenas gémeas idênticas; são metade de uma mesma mente, quase de um mesmo corpo – depois de Sigridur ir a plantar, como explicam a Halla, esta sente-se aconchegada pela terra à sua volta quando pensa em Sigridur durante a noite, ao lado da camisola da irmã que ocupa ainda metade da cama.

Halla é obrigada a viver só, sentindo que na verdade a melhor parte de si partiu também. A sua mãe, enlouquecida de dor, fecha-se em si mesma, repudia-a; o seu pai, sábio como sempre foi, tenta fazê-la entender o mundo através dos seus poemas. Mas, apesar de Sigridur ter passado a ocupar a dimensão dos mortos, a vida continua, e para a pequena Halla o tempo parece passar mais depressa do que para os demais – cresce demasiado rapidamente, ora por correr sobre a linha do tempo, ora sendo arrastada pelas pessoas e acontecimentos que a rodeiam. Na segunda parte senti, muito marcadamente, que Halla passara a ser uma mulher, madura muito para além da sua idade.

À medida que avança no tempo e na ciência, Halla vai guardando e descobrindo segredos, numa história que consegue surpreender verdadeiramente o leitor, bem como torná-lo um aliado incondicional da protagonista. Apesar de ser a rapariga que seguirmos mais de perto, conseguimos compreender as outras personagens em profundidade, e senti-las próximas.

A escrita deste romance é verdadeiramente encantadora. O ritmo, aliado à própria história, trouxeram-me à memória o “Memorial do Convento”, tão cheio de acontecimentos e ao mesmo tempo tão melancólico; conseguimos também ver o paralelismo do homem a quem falta parte de si, perdida algures no tempo, e da mulher que se encarrega de ver por ele, ambos ligados por um amor que transcende o entendimento de outros. Mas não quero com isto assustar potenciais leitores que não simpatizem com o estilo de Saramago – “A Desumanização” está escrito de uma forma mais simples, mas não menos bela. Valter Hugo Mãe faz uma colagem de palavras como não estamos habituados a ler, mas que se aproxima mais da sintaxe dos nossos pensamentos, e reinventa o seu significado, tendo passagens que eram tão só poemas em prosa. Toda a narrativa é um poema da vida da vida de Halla e das suas pessoas.

Através da sua voz de criança, e daqueles que a rodeiam, Halla leva-nos a reflectir sobre a morte e a perda, temas que, pela nossa própria condição, tocarão qualquer leitor; sobre o amor, e de como este se pode manifestar; sobre a nossa relação com a Terra e a natureza; sobre a solidão, questionando o quanto o outro pode chegar a nós; sobre a nossa própria existência e do que nos rodeia, e de como as palavras a podem realizar ou destruir; sobre Deus, a sua forma e vontade; sobre como tudo isto se interliga e como podemos (ou não) compreendê-lo (compreender-nos) verdadeiramente.