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quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Opinião "O Monte dos Vendavais", Emily Brontë

Sinopse


Mr. Lockwood aluga uma casa no Yorkshire para uma calma temporada no campo. Contudo, certa noite, ao ver-se forçado a pernoitar na obscura mansão de Wuthering Heights à conta de uma forte tempestade, irá descobrir e quase reviver os tormentosos acontecimentos aí ocorridos anos antes, e que perduram no tempo como uma terrível maldição.

O Monte dos Vendavais centra-se na relação intensa entre Heathcliff, um jovem cigano adotado, e Catherine Earnshaw, a filha do próspero patriarca que acolhe Heathcliff no seio da sua família, e explora magistralmente as consequências trágicas da escolha que Catherine teve obrigatoriamente de fazer entre o amor de Heathcliff e as obrigações sociais a que estava sujeita por condição e nascimento. Esta é uma história de amor intenso e trágico que o tempo há muito consagrou.

Opinião


O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë, figurava na minha to-read list de clássicos desde sempre e, sendo este um dos meus géneros de eleição, parti para a leitura com grandes expectativas. Não podendo dizer que fiquei desiludida, posso afirmar que esta obra não me fez sentir aquilo que eu esperava.

O Monte dos Vendavais narra um grande amor, um amor capaz de ultrapassar a própria morte, mas fá-lo de uma maneira nada ortodoxa tendo em conta a época em que foi escrito. Os protagonistas, Catherine e Heathcliff, são totalmente anti-heróis, com mais defeitos do que qualidades, algo inusitado num romance, e por isso percebo o intemporal mérito deste livro, não discordo que seja uma obra-prima, principalmente atendendo ao seu tempo e contexto.

Reconheço a Emily Brontë a sua capacidade de nos fazer sentir o vento gelado do Monte dos Vendavais bater-nos amargamente na face, através do ambiente hostil e sombrio, pincelado de maldade atmosférica, que ela consegue criar. Até o facto de nos contar uma história de duas famílias que vivem numa espécie de isolamento torna esta leitura claustrofóbica e desconfortável. Emily Brontë apresenta-nos corajosamente um amor que em vez de construir, destrói, um amor corrompido por fraquezas de carácter, por distúrbios da personalidade, por histrionismos, por hipocrisia, frustração e vingança. Se odiamos os seus intervenientes? Não. Se tememos por eles e pelas suas desgraças? Muitas vezes.

Curioso também como a meteorologia tinha mudanças a par dos tumultos da narrativa, a tristeza e o conflito despertavam ventos e tempestades, a calmaria trazia o sol doirando a erva verdejante, e este pormenor aliado à transcendência dos sentimentos fazem-nos sentir um sopro na nuca enquanto lemos, algo sobrenatural nos mantém as mãos frias enquanto seguramos este livro.

Tenho de deixar uma palavra sobre o Heathcliff por ser uma personagem que não vou esquecer tão cedo, pela sua intensidade e loucura, pelo seu desejo imensurável de vingança. Para mim a melhor descrição do seu romance com a Catherine é frase de Nietzsche "Ninguém é tão louco que não possa encontrar outro louco que o entenda."

Apesar de tudo isto, gostava de ter gostado mais deste livro e depois de pensar o porque de ele não me ter enchido as medidas acredito que tenha que ver com a escrita de Emily Brontë, por vezes demasiado teatral tornando alguns momentos pouco verosímeis. Além disso, a minha edição, que faz parte duma colecção de clássicos com capas lindíssimas, tem uma tradução que fica entre o péssimo e o lastimável o que me enervou em alguns momentos, talvez valha a pena ler este tipo de livros na sua língua mãe. 

Este livro, sufocante e triste, não deixa de conter uma mensagem de libertação e esperança, mas até a vermos sofremos com estes personagens como milhares de leitores têm vindo a sofrer durante décadas, e é isso que torna os clássicos livros mágicos: a imensidão de tempo e pessoas que conheceram a Catherine e o Heathcliff e que temeram o gélido vento do Monte dos Vendavais.


quarta-feira, 30 de julho de 2014

Opinião - "Orgulho e Preconceito", Jane Austen

Sinopse:

“Uma clássica história de amor e mal-entendidos que se desenrola em finais do século XVIII e retrata de forma acutilante o mundo da pequena burguesia inglesa desse tempo. Um mundo espartilhado por preconceitos de classe, interesses mesquinhos e vaidades sociais, mas que, no romance, acabam por ceder lugar a valores mais nobres: o amor. As cinco irmãs Bennet, Elizabeth, Jane, Lydia, Mary e Kitty, foram criadas por uma mãe cujo único objetivo na vida é encontrar maridos que assegurem o futuro das filhas. Mas Elizabeth, inteligente e sagaz, está decidida a ter uma vida diferente da que lhe foi destinada. Quando Mr. Bingley, um jovem solteiro rico, se muda para uma mansão vizinha, as Bennet entram em alvoroço…”
 

Opinião:

Este não é o primeiro clássico que leio de Jane Austen. Tinha lido, anteriormente, “Sensibilidade e Bom Senso”, no entanto, a verdade é que não encontrei neste último a magia de que tanto se fala de Jane Austen. E porque estou a dizer isto agora? Porque no decorrer da leitura de “Orgulho e Preconceito” me apercebi do quão incrível é a autora e esta obra. E, neste momento, não sei se não ter gostado muito de “Sensibilidade e Bom Senso” foi culpa minha: se calhar não o li na melhor altura, se calhar não tinha a maturidade necessária para ler clássicos, ou então o livro não é, de facto, tão bom como este.
 
É um pouco difícil passar para o papel a minha opinião acerca deste livro. Penso que o que quer que diga sobre ele vai ficar sempre aquém da sua qualidade.
 
Para começar, ele foi-me oferecido pela bloguinha Sofia, à qual agradeço por ter este lindo livro na minha estante. No entanto, a minha leitura de clássicos ainda vai muito no início, pelo que, para variar, tive algum receio de não gostar e de não o conseguir apreciar devidamente. Na verdade, acho que foi com este livro que entendi o que é de facto um clássico, assim como o seu verdadeiro valor.
 
A meu ver, os clássicos da literatura são muito distintos da literatura actual. São obras que não só cumprem o papel de um livro de nos contar uma história, de nos dar prazer na leitura, mas que exigem também muito do leitor. E talvez seja por isso que nunca li muitos clássicos e que nunca os apreciei da devida maneira. É preciso maturidade, dedicação, ler mais do que óbvio, ler mais do que uma vez a mesma frase e, acima de tudo, saborear cada palavra e cada frase devagar. Tenho pena de não ter lido este livro mais cedo e quem nunca o leu deve lê-lo. Penso até que é um óptimo livro para introdução aos clássicos apenas e só porque é lindo e brilhante.
 
Mas falando agora um pouco mais de “Orgulho e Preconceito”, como o próprio nome indica, é um livro sobre o orgulho, a vaidade, os preconceitos e as diferenças sociais. Mas, para além disso, é também um livro de sentimentos, emoções e rico na relação entre as pessoas. O que mais me fascinou na época em que esta obra se desenrola foi a forma como se estabeleciam as relações: era um tempo em que se escreviam cartas, em que não havia telefones, em que o meio de transporte eram as carruagens e os cavalos, e em que as relações mais fortes e amorosas, não só existiam, como também perduravam com a distância. Porque o amor existe mesmo que não se fale todos os dias, mesmo que não estejamos juntos todos os dias, existe porque está no coração de cada um. E é engraçado como apenas com a descrição desta sociedade e das relações da mesma, um livro nos dá estes sentimentos e estas lições de vida. Claro que isto é apenas uma das muitas coisas que esta obra me deu.
 
Não estava nada à espera que esta obra me fosse conquistar, e muito menos que ganhasse um lugar nos meus livros favoritos. Mas a verdade é que aconteceu :) e deixou-me com um sorriso nos lábios. Por vezes dava por mim a fechar e abrir o livro, para saborear e sentir tudo o que estava a acontecer. É uma obra muito rica: rica na caracterização da época, na caracterização das personagens e na escrita de Jane Austen. É uma escrita cheia de requinte, pensada e muito bem conseguida, diferente de tudo o que já li. É como se tudo batesse certo, como se fosse tudo perfeito.
 
Podia falar mais da história, mas corria o risco de fazer spoilers e de tirar a beleza deste livro. Atrevam-se a lê-lo, a conhecer estas personagens incríveis, cada uma à sua maneira e a saborear a escrita de Jane Austen. É, sem dúvida, uma obra que recomendo e que certamente um dia irei reler.