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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Opinião "Tudo o Que Resta" (Kay Scarpetta #3), Patricia Cornwell

Série: Kay Scarpetta #3
Edição: 1998
Páginas: 325
ISBN: 9722323571

Sinopse


"Tudo o que resta são corpos em avançado grau de decomposição. Resta sempre também, no local do crime, um misterioso valete de copas.

Na trama está envolvida igualmente uma mulher publicamente conhecida empenhada numa cruzada contra a droga, e um elemento do FBI que esconde provas para proteger alguém importante. Um caso sinuoso para a inquieta Kay Scarpetta desvendar. Mais um policial da autoria de Patricia Cornwell, escrito com surpreendente rigor e veracidade." - in Goodreads


 

Opinião

"Tudo o Que Resta" é o terceiro romance protagonizado por Kay Scarpetta que leio, e, apesar de não me ter arrebatado, também não desiludiu.

Há uma evolução clara de algumas personagens em relação aos livros anteriores. Ficamos a conhecer mais sobre Benton Wesley, que se estabelece como uma personagem central na vida de Kay, e não apenas um contacto profissional. Apesar de termos presenciado em "Corpo de Delito" a reunião de Kay com Mark James, seu namorado em tempos de faculdade, descobrimos que a médica legista voltou a cair nos mesmos padrões disfuncionais de relações amorosas, e apesar de ainda estar apaixonada por Mark, acaba por se separar do agente do FBI. No entanto, o facto de tanto Kay como o detective Marino estarem a passar por uma separação acabou por aproximá-los ainda mais, e eu já havia falado de como esta amizade é para mim um dos grandes pontos fortes da série. Kay e Marino são um óptimo exemplo de como pessoas com traços de personalidade quase antagónicos podem trabalhar juntas para se melhorarem uma à outra.

A abordagem ao caso também foi um pouco diferente, e, na minha opinião, bem conseguida. Em primeiro lugar, porque entramos no mistério in medias res - tanto o FBI como o Departamento da Polícia da Virginia, Kay incluída, já estão bem familiarizados com os casos, quando esta recebe o telefonema a dizer que "Encontraram mais um..." Ainda assim, não se trata de algo linear, mas antes um novelo com várias pontas. O leitor é levado a explorar várias teorias, até ao último truque que Cornwell guarda na manga.

Como pontos negativos, saliento a inclusão na história de uma "vidente", cuja clarividência em relação a alguns factos nunca é devidamente explicada - a correcção científica que a Dra. Scarpetta insiste em manter em todos os momentos não se coaduna de todo com o não questionamento desta personagem. Para além disso, achei que as revelações finais foram quase despejadas no texto. Há um pormenor interessantíssimo na resolução do caso que quase passa despercebido, quando seria matéria para um plot twist deveras surpreendente.

Globalmente, a série de Kay Scarpetta é uma que me agrada pelos mistérios construídos de forma inteligente e pela importância da patologia forense na sua resolução, e Tudo o Que Resta não fugiu à regra. Continuarei a aventurar-me com Marino pela sala de autópsias da Dra. Scarpetta...


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Opinião - "Postmortem", Patricia Cornwell

Formato: Ebook
Edição: 2009 (1ª 1990)
Páginas: 215
ISBN: 9781439187517
Goodreads: mais informação aqui.

Sinopse


“Under cover of night in Richmond, Virginia, a human monster strikes, leaving a gruesome trail of stranglings that has paralyzed the city. Medical examiner Kay Scarpetta suspects the worst: a deliberate campaign by a brilliant serial killer whose signature offers precious few clues. With an unerring eye, she calls on the latest advances in forensic research to unmask the madman. But this investigation will test Kay like no other, because it's being sabotaged from within and someone wants her dead.”


Opinião


Andava já há muito para ler uma das aventuras da Dra. Kay Scarpetta, a famosa médica legista. (Caía na lista interminável de livros que “um dia” havia de ler.) Tenho alguns outros volumes traduzidos, mas queria começar pelo primeiro, e acabei por optar pelo ebook.

Kay é uma mulher num mundo de homens – apesar da sua experiência e competência, e de ser a Chefe do Instituto de Medicina Legal do estado da Virginia, é ainda olhada de lado por alguns dos que trabalham consigo. Mas para Kay as coisas nunca haviam sido fáceis – já na Faculdade de Medicina fora uma das únicas mulheres a acabar o curso, sem ajuda de qualquer um dos seus colegas. Mesmo na vida pessoal, os homens do seu passado não lhe trazem memórias felizes: quer o seu pai, por adoecer e morrer quando ainda era criança, quer o ex-marido, que Kay menciona apenas ao de leve, dando a entender que era abusivo.

Com uma mãe que a sufoca e uma irmã que dá mais atenção à sua vida social e aos seus livros infantis que à própria filha, resta a Kay apenas esta, Lucy, uma criança de um intelecto muito superior ao esperado para a sua idade, mas que vive com uma carência de afecto parcialmente colmatada pelas férias que passa em casa da tia.

Como policial, o livro é bastante bom. Há um assassino em série em Richmond, cuja violência aumenta de caso para caso. Kay colabora com o Agente Benton Wesley, um profiler do FBI, e com o Sargento Pete Marino, da polícia local, para tentar apanhar o elusivo criminoso. À medida que os seguimos vamos apanhando peças do puzzle que nem sempre encaixam, e somos levados a tecer várias teorias acerca do mistério, tal como os investigadores, para depois termos de as desconstruir para fazer encaixar cada nova pista.

Nesta vertente salta à vista o facto de o livro ter sido escrito e publicado há mais de 10 anos: a identificação pelo DNA é um método ainda embrionário e moroso, e a equipa usa todos os outros métodos possíveis para descobrir a identidade do assassino; para além disto, também o facto de a informatização dos processos ser algo relativamente novo, e de os computadores serem seres complicados, com necessidade de conhecimento específico para serem manipulados, nos leva atrás no tempo e nos desconcerta um pouco.

Para além do assassínios, como se já não fossem suficientes para perturbar Kay emocionalmente (embora esta o negue, pois sempre foi sua política distanciar-se dos casos em que trabalha), esta vê-se a braços com uma falha na segurança dos dados informatizados que pode comprometer a investigação, e pôr o seu próprio cargo e credibilidade em risco.

À primeira vista, Kay era uma personagem com quem me iria identificar naturalmente – (quase) partilhamos a profissão, e apesar de as mulheres já ultrapassarem os homens em número na nossa área, ainda há sinais do machismo que Kay tenta combater, tanto na Medicina como na sociedade em geral. No entanto, não consegui empatizar devidamente com a Dra. Scarpetta, excepto num ou outro momento da narrativa. Achei a personagem um pouco incoerente em algumas das suas atitudes, e por vezes algo arrogante e demasiado auto-indulgente. Para além disso, tem um comentário com um toque de homofobia que me incomodou profundamente, e, apesar de ser mais “desculpável” pela época em que se passa a história, há racismo implícito numa cena específica. Isto levou-me a fazer alguma pesquisa, e pelo que me parece a autora não comunga das opiniões da sua personagem principal, e a verdade é que Kay apenas dá voz a opiniões generalizadas da população na altura, mas que não me caíram muito bem. Outra questão cultural que me fez uma certa espécie – Kay não encontrou qualquer problema em servir vinho à sua sobrinha de 10 anos em duas ocasiões distintas! 

Para terminar os aspectos negativos, não consigo deixar de mencionar uma incorrecção científica, que possivelmente não o seria na altura – é dito em mais que uma ocasião que os psicopatas, ou indivíduos com distúrbio de personalidade antissocial, têm uma inteligência acima da média. Isto não é totalmente correcto – podem ter ou não, como qualquer pessoa.

Na verdade, a parte mais interessante da personagem principal é o seu relacionamento com as personagens secundárias, nomeadamente Lucy e Marino. A primeira, em si, é fascinante – Cornwell consegue não torna-la no cliché da criança sobredotada que se comporta como um adulto em ponto pequeno, mas sim uma menina com problemas de comportamento decorrentes de uma vida familiar desestruturada, que se refugia até certo ponto na busca de conhecimento. 

Com Marino acontece o oposto de Kay – um detective “old school”, machista q.b., muito pouco virado para os desenvolvimentos tecnológicos… podia ser uma personagem odiável, mas, na minha opinião, é muito mais consistente e bem construído do que a própria Scarpetta. A constante luta de vontades entre os dois parece mover a narrativa, e percebemos que apenas o facto de ambos serem extremamente bons no seu trabalho (e se respeitarem pelo menos profissionalmente) e de terem o objectivo comum de fazer justiça impede a ruptura total entre eles. 

Estes são exactamente os motivos pelos quais acabei por gostar da vertente mais pessoal do livro, para além da investigação do caso, e pelos quais pretendo continuar a ler a série – Marino e Scarpetta completam-se e fazem uma dupla de investigadores excelente.