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domingo, 2 de janeiro de 2022

Opinião "Um Cântico de Natal", Charles Dickens

Sinopse

Um Cântico de Natal (1843) é talvez o mais dickensiano dos contos. É que só Charles Dickens poderia, a propósito do Natal, criar personagens como Scrooge, o pequeno Tim, e os três Espíritos do Natal Passado, Presente e Futuro, e acrescentar-lhes o Fantasma de Marley. Este livro tem passado de geração em geração, acompanhado do desejo do autor de que «assombre as casas dos leitores de forma agradável, e que ninguém deseje apaziguá-lo».



Opinião

Um Cântico de Natal foi a minha estreia com Charles Dickens e revelou-se uma leitura calorosa, como já era de esperar, que faz o leitor mergulhar no espírito de Natal e no que realmente é importante nesta época.

Dickens apresenta-nos Scrooge, um avarento e rabugento velhote, que vai receber a visita de três espíritos que o vão fazer repensar as escolhas que fez na vida. O enredo é engraçado mas carregado de simbolismo proporcionando-nos uma leitura introspectiva e reflexiva.

A linguagem é muito rica mas de fácil leitura, embora em alguns momentos, talvez por uma tradução menos bem conseguida, eu me tenha sentido um bocadinho confusa. De resto, esta edição tem uma capa e ilustrações lindíssimas.

Um clássico a reler todos os Natais, um livro que é um abraço! 



domingo, 3 de outubro de 2021

Opinião "Mataram a Cotovia", Harper Lee

 Sinopse

Durante os anos da Depressão, Atticus Finch, um advogado viúvo de Maycomb, uma pequena cidade do sul dos Estados Unidos, recebe a dura tarefa de defender um homem negro injustamente acusado de violar uma jovem branca. Através do olhar curioso e rebelde de uma criança, Harper Lee descreve-nos o dia-a-dia de uma comunidade conservadora onde o preconceito e o racismo caracterizam as relações humanas, revelando-nos, ao mesmo tempo, o processo de crescimento, aprendizagem e descoberta do mundo típicos da infância. Recentemente, alguns dos mais importantes livreiros norte-americanos atribuíram grande destaque ao livro, ao elegerem-no como o melhor romance do século XX.

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Opinião  

Mataram a Cotovia, de Harper Lee, é considerado um dos melhores romances do século XX e o livro preferido de tantos leitores, por isso, parti para esta leitura com muitas expectativas, acredito que foram elas as responsáveis por eu não ter gostado assim tanto desta obra. 

Percebo a importância deste livro por ter sido pioneiro a abordar a temática do racismo e do preconceito ao descrever-nos as vivências de uma pequena comunidade conservadora, no sul dos Estados Unidos, durante a Grande Depressão.

Atticus Finch, um advogado viúvo, recebe a árdua tarefa de defender um homem negro injustamente acusado de um crime hediondo. Os seus filhos, Scout e Jem, vêem-se vítimas de represálias que não entendem e procuram na figura do pai, um homem que vive de acordo com as suas convicções, conselhos e apoio. Gostei da relação entre eles, uma relação de igual para igual em que muitas vezes Atticus os incentivava à reflexão em vez de lhes impingir os seus ideais.

O início deste livro é bastante lento, passamos a primeira centena de páginas a observar três crianças a brincar, encenando pequenos teatrinhos que reflectem a inocência da infância e o medo do desconhecido, aqui personalizado na figura de Boo Radley, uma lenda local.

Scout, a protagnsita, é uma menina rebelde e que apesar de crescer no seio de uma sociedade racista, cedo percebe que o certo e o errado não tem cor, gostei que a narrativa seja conduzida pela sua perspectiva, pela visão de uma criança. O seu olhar inocente embate de frente com a crueldade do mundo que a rodeia.

O resto da história pareceu-me seguir um curso linear, básico e expectável e se a ideia era mostrar-nos o sofrimento das pessoas negras face à superioridade branca essa mensagem ficou para segundo plano. Durante a leitura somos impelidos a sofrer por Atticus e pela sua família, pelas ameaças que sofrem e acabamos por esquecer Tom, o acusado, e a sua família. 

Mataram a Cotovia aborda questões fracturantes que ainda hoje se mantêm pertinentes, vale pela sua mensagem e pelo  lugar que ocupa na literatura do século XX, mas não me convenceu.

"Nunca conseguirás compreender totalmente uma pessoa se não vires as coisas do seu ponto de vista, se não fores capaz de te colocar na pele dessa pesssoa e aí permaneceres um bocado".
 

 

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Opinião "O Amante de Lady Chatterley", DH Lawrence

Sinopse

“A história da relação entre Constance Chatterley e Mellors, o guarda de caça do seu marido inválido, é o romance mais controverso de Lawrence e talvez o seu texto mais comovente sobre o amor. 
Escrevendo para libertar as gerações que, a seu ver, consideravam o sexo um simples constrangimento ou ato mecânico, Lawrence disse sobre este livro: «Trabalhei sempre o mesmo tema, encarar a relação sexual não como algo vergonhoso, mas válido e precioso. Penso que neste romance fui mais longe do que em qualquer outro. Para mim, é uma obra bonita, terna e frágil, tal como a nudez.»”


Opinião

Não é segredo que adoro romances clássicos. Os sentimentos assumem toda uma outra dimensão, e adoro o facto de, tendo lugar em épocas distantes à nossa, manterem a sua intemporalidade. São universais e, por isso, tão cativantes para mim.

Como tal, e sabendo que se tratava de uma obra com uma forte conotação sexual, parti para a sua leitura com expectativas relativamente altas. E ficaram defraudadas…

Para mim, o problema foi que o autor se foca tanto no seu objectivo de mostrar o sexo sob uma luz diferente que acaba por cair no exagero. As relações parecem ocas, as personagens dão-se a demasiados esforços para estarem juntas quando os momentos que partilham são superficiais, tornam-se arrogantes no seu egoísmo. E mesmo as cenas íntimas são por vezes tão exageradas que acabam por cair no ridículo…

Reconheço a agitação que deve ter causado na sociedade da época, uma vez que mesmo para os dias que correm é considerada uma obra ousada. No entanto, faltam-lhe os elementos que me prendem num romance: a profundidade das relações, todo o investimento que é colocado no outro, a expectativa...

Vale a pena ler “O Amante de Lady Chatterley” pelo contexto social da sua publicação, e pelo alvoroço que deve ter causado aquando da sua publicação original. Mas fica longe de ocupar um lugar na minha prateleira de favoritos…

domingo, 21 de maio de 2017

Pensamento do Dia





“Se ela pensou no rapaz ao beber o vinho quente com água, quando se preparava para se deitar, e se sonhou com ele, isso não se sabe; mas espero que tenha sido um sono leve ou um dormitar pela manhã, pois, segundo o que um escritor célebre afirma – que nenhuma rapariga se deve apaixonar por um rapaz antes de este lhe declarar o seu amor -, não é próprio que uma rapariga sonhe com um rapaz antes de saber que primeiro ele sonhou com ela.”
Jane Austen, "A Abadia de Northanger"

Opinião "A Abadia de Northanger"; Jane Austen

Sinopse

“Durante uma temporada em Bath, a jovem e ingénua Catherine Morland conhece pela primeira vez a sociedade mundana. Fica deliciada com os seus novos conhecimentos: a sedutora Isabella, que apresenta a Catherine os prazeres dos romances góticos, e os sofisticados Henry e Eleanor Tilney, que a convidam a visitar a casa do seu pai, a Abadia de Northanger. 
Ali, influenciada pelos romances de terror e mistério, Catherine começa a imaginar terríveis crimes cometidos pelo General Tilney, arriscando a perda da afeição de Henry. E terá então de aprender a diferença entre ficção e realidade, amigos verdadeiros e falsos. Com amplo sentido de humor e a sua irreprimível heroína, A Abadia de Northanger é o mais juvenil e o mais optimista dos trabalhos de Jane Austen.”

Opinião

Como fã assumida dos romances de Jane Austen, foi com grandes expectativas que me lancei na leitura deste “A Abadia de Northanger”, uma das obras da autora publicadas postumamente.

É protagonizado por Catherine Morland, uma jovem que viaja até Bath e se relaciona com diversas e aparentemente misteriosas personagens, numa trama rica em intrigas, como é típico das obras de Jane Austen. A maior parte da narrativa tem essa cidade como pano de fundo, transferindo-se depois para uma lúgubre abadia gótica, para a qual Catherine é convidada e que amplifica a sua imaginação vívida. No entanto, encontrei neste romance menos magia do que nos que li anteriormente, talvez pelo seu tom mais leve e personagens secundárias relativamente mais simples, que só resultam devido à ingenuidade da protagonista. Na verdade, Catherine é a heroína menos heróica dos romances de Jane Austen, uma jovem facilmente deslumbrada pelas novidades do mundo que está a começar a conhecer, às quais reage fantasiando, e que não se apercebe da malícia que para o leitor é óbvia quanto baste…

O tom irónico da autora está presente ao longo de toda a obra mas, tal como é explicado no posfácio da edição da Relógio D’Água, é notório que foi escrita para ser lida em voz alta nos serões da época. Os romances góticos que avivam a imaginação da protagonista parecem um tanto desenquadrados na narrativa, mas são o ingrediente perfeito numa obra lida em conjunto em voz alta, e na época em que tais romances eram tão badalados e comentados. Também as intervenções da autora enquanto narradora, tecendo variadas considerações, resultam muito bem em tal contexto, e foram um dos pontos que mais me atraíram durante a leitura!

Não sendo a minha preferida das que já li, e sendo até um pouco atípica para o género habitual da autora, com personagens que não se aproximam às icónicas Elizabeth Bennet ou Anne Elliot, “Abadia de Northanger” entretém. Cumpre o objectivo a que se propõe e, não me tendo fascinado, também não me desiludiu!


domingo, 11 de maio de 2014

Opinião - "Os Anos", Virginia Woolf


Edição: 1992
Páginas: 414
ISBN: 9789727081547
Goodreads: mais informação aqui.
Sinopse

"É em Londres, numa incerta Primavera de 1880. 

Numa casa, várias crianças falam. A sua mãe está doente há tanto tempo que as filhas mais velhas começaram a imitar o tom que ela usava com as crianças. A morte dela deveria libertá-las, permitindo-lhes ter a vida que imaginaram. 

Esta é a história de uma família contada ao longo de cinquenta anos, num período de grandes mudanças. 

Irmãos, pais, avós. As relações e o tempo, as gerações que se cruzam, alegram sofrem, juntam, separam e envelhecem. 

Para uns é o abandono das causas da juventude. Para outros, a inquietação continuou."


Opinião

Devo começar por dizer que este livro é menos de acção, e mais de reflexão. Não é um livro "fácil", daqueles para descontrair ao fim do dia, mas também não é "difícil", na medida em que os sentimentos de cada personagem espelham os nossos, num ou noutro momento do tempo, o que torna fácil compreendê-las.

A narrativa passa-se ao longo de 50 anos, desde a juventude dos irmãos Pargiter (Edward, Eleanor, Morris, Delia, Milly, Martin e Rose), em 1880, até ao "Presente", cerca de 1930, centrando-se na vida destes e na das suas primas, Maggie, Sally e Kitty, com pontos de vista alternantes. A autora situa-nos no espaço e no tempo no início de cada capítulo (ou década) com descrições vívidas das ruas Londrinas da época, com as suas pessoas, cheiros e cores, com referência à estação que decorre.

Sempre apreciei livros que nos permitissem seguir personagens desde o início da sua infância até à velhice, e este não foi excepção. Todas estas vidas, por um lado inevitavelmente entrelaçadas, por outro divergindo à medida que os anos passam, nos lembram algum pedaço de nós que tínhamos esquecido, ou um futuro que podemos temer ou ansiar (por vezes, ambos em iguais medidas). As personagens convidam-nos a reflectir sobre todas as incertezas que nos assolam durante a vida - a busca de uma identidade, de um sentimento de pertença, do cepticismo dos jovens; os arrependimentos da meia idade; a esperança que ressurge na velhice, observando uma nova geração a florescer.

Apesar de reconhecer que não tenho uma grande experiência de vida, consigo rever-me em Eleanor, sempre "ausente", na sua eterna falta de palavras para exprimir o que sente, mas também no seu contentamento pela felicidade dos que lhe são mais próximos. É porventura a minha personagem favorita, se bem que devo também mostrar a minha admiração pela paz permanente de Maggie, e pela ingenuidade etérea de Sally. 

Em suma, aconselho este livro a quem gostar de leituras a ritmo lento, cheias de reflexões tão belas como provocantes.